Os bandidos na mesa do café
 
      Fernando Gabeira
 
      Depois de uma hora de braçadas tranqüilas, saio da piscina e subo numa
arquibancada de madeira para tirar a toalha da mochila. Olho para uma
edificação baixa de tijolos vermelhos, com uma placa: alameda Paissandu.
Diante dela, mesas brancas, cadeiras. Numa delas dorme o gato Amaral. O
sacana do Amaral, como o chamamos: gordo, castrado, sonolento, ainda assim
faz das suas, encostando-se nas gatas, irritando a torcida do Flamengo,
"precisamos acabar com esses gatos no clube".
 
      Nesses momentos de contemplação, nuvens desenhando anéis em torno da
estátua do Cristo, sinto uma dor por ter dedicado tantos anos à política,
com tão escassos resultados. Invade-me uma vontade de mudar de vida, fazer
como o narrador do romance "O Enigma da Chegada" (de V.S. Naipaul), que se
retira para o interior e passa apenas a observar e escrever o que está na
sua frente.
 
      Segunda-feira, auge da crise de violência em São Paulo, parti para
Brasília para fazer um discurso de solidariedade e propostas, pensado
durante o fim de semana sangrento. Não pude realizá-lo até o fim, embora o
plenário estivesse vazio. Minha palavra foi cortada por um presidente
ocasional. Ele vem do Norte toda segunda-feira e assume a presidência porque
não há ninguém para abrir as sessões. Dá a impressão aos seus eleitores de
que é importante, embora já tenha sua prisão preventiva decretada e inúmeras
processos. Limitei-me a dizer: "Vossa Excelência é um bandidaço", embora
soubesse que até os insultos seriam usados por ele junto aos eleitores como
sinal de importância. A um jornal de Brasília, declarou que aqueles que
assistem à TV no seu Estado pensam que é o presidente da Câmara.
 
      Ele é desse numeroso e sórdido grupo com que, depois de tantos anos de
lutas e sonhos, tenho de conviver no café da Câmara: contas fantasmas,
entidades fantasmas, ambulâncias superfaturadas, desvios de verbas no
hospital do câncer. A própria luz do Planalto atravessando as vidraças e
banhando os flocos de poeira que flutuam nos torna também fantasmas, e você
olha a mancha de iogurte na mesa do café, duvida se aquilo não é um
ectoplasma desses putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das
secretárias.
 
      Marcola, o líder do PCC, já leu mais livros do que todos eles juntos;
os da minha geração, que tiveram uma base político-militar -não no sentido
de terem feito ações armadas, mas por terem curiosidade em relação às leis
da guerra-, esses praticamente saíram de cena.
 
      Fiquei surpreso ao perguntar por um grande nome do Partido Verde
alemão, que surgiu nos anos 60, e soube que, ao deixar o governo, está quase
aposentado. Lembrei de tantos outros que se voltaram para suas
especialidades acadêmicas, dos que morreram, dos que simplesmente deram uma
banana para a idéia de transformar o mundo.
 
      De uma certa maneira, foram poupados dessa humilhação que sinto todos
os dias ao ver que os bandidos estão triunfando na vida pública, que não só
tomaram conta de tudo mas também tomam café ao seu lado, riem para você,
falam sobre o tempo e reclamam da dureza da vida política.
 
      É uma ilusão pensar que o mundo do crime ignora essas variáveis.
Marcola já esteve aqui depondo e, nos poucos minutos que passei pela sala,
olhou-me com muita freqüência, como se quisesse dizer: com esse tipo de
gente me interrogando jamais sairá outra coisa, além do desprezo recíproco.
 
      O mundo que está ruindo aos meus pés é muito desconcertante, pois leva
consigo toda uma forma de pensar a política que nos reduz ao ridículo de
tentar trazer a guerra urbana de São Paulo para o parlamento e ser
interrompido por um idiota que está posando de presidente para seus
eleitores do Norte.
 
      O mundo que está ruindo nos impõe a humilhação de chamar de Congresso
brasileiro um lugar onde os dirigentes da mesa estão mergulhados num
escândalo e nem sequer pedem licença para serem investigados, um lugar onde
o corregedor, num ano eleitoral, foi o primeiro a ser multado pela Justiça
por fazer propaganda fora de tempo.
 
      Numa semana tão importante, talvez não devesse enfatizar minhas
frustrações. Acontece que não estou sendo humilhado sozinho, nem o está a
pequena parcela de deputados honestos.
 
      Enquanto não se desvendar o elo entre as quadrilhas que queimam
ônibus, metralham policiais, fuzilam inocentes e os bandidos que nos cercam,
poucos vão sentir a humilhação que sinto. E quando falo de vínculo não me
refiro a advogados, emissários ou mesmo um ou outro deputado que possa estar
ligado ao crime organizado. Refiro-me ao plano simbólico tão bem expresso na
célebre frase carioca: está tudo dominado.
 
      O tudo dominado revela-se não apenas em números mas também em
encenações falsas, pequenas omissões, um rígido controle da agenda para que
venha à tona o debate dos verdadeiros problemas do país.
 
      Aqui as matracas, os "treisoitões", as bananas de dinamite
transfiguram-se em questões de ordem, permita-me um aparte, regimentos
internos. Aqui e ali, no Planalto, onde instalamos um governo destinado
precisamente a mudar tudo isso e que, no fim das contas, apenas exacerbou o
processo, degradando-se e nos degradando.
 
      Só penso em aposentadoria quando vejo o Amaral, gordo, castrado e
sacana: divagações à beira da piscina. Não rolei tanto barranco para
entregar o ouro aos bandidos. Se há uma boa maneira de viver os últimos
dias, essa maneira ainda é o combate.


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Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

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