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Já somos pentacampeões e o próximo da fila é só tricampeão. Apenas
para empatar com o Brasil, os tricampeões ainda precisam ganhar mais uma
copa do mundo para ser tetracampeões e ainda ganhar mais outra, para ser
penta. Isso, só para empatar.
Se o Brasil perdesse todos os jogos,
fosse eliminado e um dos times tricampeões ganhasse duas copas seguidas, a
posição do Brasil somente seria ameaçada daqui a oito anos. É muito
tempo.
A situação dos times competidores é tão desmotivadora que o
francês Zidane disse ao alemão Beckenbauer que a Copa do Mundo da Alemanha
teria como ponto mais interessante a disputa pelo segundo lugar, já que o
Brasil é franco favorito.
Porém, nada como ver esse time
maravilhoso, unido e divertido desclassificando um a um seus oponentes e
lutando pelo hexa campeonato.
No caso de vitória, o excesso de
otimismo e felicidade que toma conta de uma nação com quase duzentos
milhões de pessoas não possui precedentes no globo. Ao contrário de outros
países, que comemoram por alguns dias, o Brasil comemora por vários meses,
como se ao invés de glóbulos, no nosso sangue tivéssemos várias bolinhas
de futebol.
Bom, mas eu torço para que o Brasil perca. Não porque
enlouqueci ou sofri um surto de antipatriotismo, mas a vitória do Brasil
na Copa terá direto efeito sobre as eleições, sobre a economia brasileira
e consequentemente, sobre o futuro do país.
Esse clima de euforia e
sua utilização com fins eleitoreiros governamentais foi iniciado há mais
de trinta anos, na copa de setenta no México e, desde aquela data, os
governos tem utilizado as vitórias brasileiras como cortina de fumaça para
decisões de alto impacto negativo para o país e a população.
Não
sou eu quem diz, mas sim a história. Basta compararmos as conquistas dos
campeonatos com as decisões políticoeconômicas que mais prejudicaram o
país.
Isso não é exclusividade brasileira. Essa lição do boi de
piranha, ou seja, desviar a atenção para um acontecimento enquanto outro
fato de proporções mais graves passa despercebido, teve origem na célebre
teoria dos imperadores romanos de que o povo precisa apenas de pão e
circo.
A Argentina, no auge da ditadura militar, em meio às
constantes derrotas de suas tropas de fronteira para os guerrilheiros
uruguaios tupamaros, foi sede de uma das copas do mundo. Em uma
ginástica alucinada de números, o Brasil, mesmo sem ter perdido nenhum
jogo, foi desclassificado e a Argentina que havia perdido um jogo,
repentinamente surgiu como vitoriosa e conquistou a mais estranha copa do
mundo. Mais uma vez, o povo argentino que é quase tão fanático por futebol
quanto os brasileiros, deixou-se levar pela euforia gerada pela bola e
permitiu que passasse, sem ser notada, a dramática situação vivida por seu
governo.
O Brasil entrará em campo poucos meses antes das eleições
presidenciais. Diariamente temos assistido aos descalabros do governo Lula
nos âmbitos social, da justiça, da economia, no Congresso, no Planalto, na
Granja do Torto e tantos outros. Contra todas as previsões mais lógicas,
contra todas as opiniões de com quem quer que se fale sobre o tema,
estranhamente os institutos de pesquisas apontam Lula como o provável
vencedor.
Se as tragédias políticas e as catástrofes econômicas do
atual governo chegam ao conhecimento do público sem o mínimo controle ou
pudor, imagine o que acontecerá em ano eleitoral e se o Brasil ganhar o
hexa. Excluindo-se o que será feito pelo governo na calada da noite nos
dias de vitórias, certamente o Presidente Lula, que há muito esqueceu-se
da prática da modéstia, provavelmente atribuirá a ele próprio as vitórias
do futebol e tentará amealhar mais alguns votos dos incautos.
Não
sou nenhum fã alucinado por futebol, mas sou patriota, gosto demais do meu
país, lamento muito ele ser ou estar (des) governado pela equipe atual e
que além de tudo ainda tenta uma reeleição. Por isso, torcerei para que o
Brasil perca e, se possível, logo na primeira fase.
Assim, o povo
não será mais uma vez enganado pelos governantes, não haverá cortinas de
fumaça e estaremos atentos aos passos das equipes político-econômicas. Por
mais paradoxal que possa parecer, perder o hexa será melhor para o Brasil
e para o seu povo.
Desculpe, Parreira. Apesar de você ter feito
tanto pelo esporte brasileiro, torcerei contra você. Por
patriotismo.
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