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06/07/2006 Pierre Changeux, neurobiólogo: "As emoções podem ser
decifradas com bases neurológicas"
Iñigo Marauri EE
Bilbao
Entre os membros da comunidade científica
dedicada ao estudo do cérebro, são cada vez menos os que se atrevem
a descartar que as emoções façam parte da consciência. E se a
consciência começa a ser compreendida a partir de mecanismos
biológicos, o amor, a paixão, a angústia e o ódio também poderiam
ser explicados a partir de chaves bioquímicas e impulsos elétricos.
O neurobiólogo francês Pierre Changeux, professor no Instituto
Pasteur e no Collège de France, afirma que as emoções podem ser
decifradas a partir de uma base neurológica. Seus trabalhos com
modelos experimentais, sobretudo ratos, parecem demonstrar isso.
Changeux fez recentemente em Bilbao (Espanha) uma conferência
organizada pela Fundação BBVA e o Centro de Pesquisa Cooperativa
CIC-Biogune.
El País - Os ratos têm
consciência?
Pierre Changeux - A pergunta é se somente a
espécie humana tem consciência. A tese de que parto é que há uma
hierarquia de níveis de consciência, e que embora o rato não possua
todas as características dos humanos há elementos comuns com as
pessoas que nos fazem pensar que eles efetivamente têm
consciência.
EP - Que tipo de
características?
Changeux - Sabemos que o rato pode mudar
de estado de consciência: sonhar, dormir ou despertar, e que pode
perdê-la com a aplicação de anestesia geral, como ocorre com as
pessoas, e recuperá-la quando desaparecem seus efeitos. Dito de
outro modo: o rato possui um espaço global de representação no qual
elabora um programa de ação. Propomos que esse espaço de trabalho
consciente se associa a uma rede neuronial composta de células
nervosas, identificadas por Santiago Ramón y Cajal, com longos
axônios que podem ir de um hemisfério cerebral ao
outro.
EP - O que implica essa proposta?
Changeux
- Demonstramos que, no rato, neurônios específicos chamados
colinérgicos liberam uma substância neurotransmissora que é a
acetilcolina, que tem um papel fundamental tanto na vigília quanto
na atenção, dois elementos característicos da consciência. Estudamos
o comportamento de ratos geneticamente modificados que não têm
receptores para acetilcolina nos dois grandes tipos de comportamento
do sistema locomotor dessa espécie: o rápido, vinculado à navegação,
e o lento, relacionado à exploração.
EP - E o que
descobriram?
Changeux - Chegamos à conclusão de que o
receptor da acetilcolina é necessário para o acesso à consciência no
caso do rato e também do ser humano. Em nossa pesquisa se comprovou
que nos ratos geneticamente modificados sem receptores de
acetilcolina sua capacidade de exploração desaparece. Além disso, um
grupo de neurologistas australianos relacionou uma mutação genética
desse tipo de receptor a um tipo de epilepsia, a epilepsia noturna
de lóbulo frontal.
EP - Quer dizer que se poderia pensar
em derivações clínicas?
Changeux - O fundamental é
conhecer e compreender a base neural da consciência. A partir daí
pode-se pensar ou gerar aplicações.
EP - Está sendo
experimentado em novos medicamentos?
Changeux - Está
sendo analisado o estímulo farmacológico da vigília no caso de
pessoas de idade avançada com problemas cognitivos. Do mesmo modo,
estão sendo estudadas as propriedades dos anestésicos gerais e as
conseqüências que podem ter nos humanos. Outro aspecto é sua
possível associação com o estado de coma, o quê o produz e como se
pode tentar tirar a pessoa desse estado de perda de
consciência.
EP - Esse tipo de estudo será facilitado se
as ações conscientes e as inconscientes forem diferenciadas do ponto
de vista molecular?
Changeux - Não é necessário ir tão
longe. Pode-se estabelecer quando uma visão é consciente ou
inconsciente comparando as imagens cerebrais. Nestas, os
pesquisadores encontram que o córtex pré-frontal é ativado pelo
mecanismo do consciente, e não pelo do inconsciente. Isso se
relaciona à hipótese de que partimos, que é que o espaço de trabalho
consciente se compõe de neurônios com axônios longos que se situam
no córtex frontal do cérebro.
EP - O senhor fala da
consciência como um estado fisiológico com base neural. Essa
explicação pode ser utilizada para as emoções?
Changeux -
As emoções fazem parte do estado consciente e são importantes para a
avaliação do que está acontecendo ao redor do sujeito. Elas se
incluem na descrição da base neural da consciência. E isso está na
linha do que diz Antonio Damasio [cientista português especializado
no estudo da mente pela perspectiva da neurociência], que afirma que
as emoções fazem parte da consciência.
EP - As emoções
poderiam ser decifradas a partir de uma base neural?
Changeux
- Sim, porque há bases neurais que podem ser explicadas. Há uma
parte do cérebro, que é conhecida como sistema límbico, que regula
as emoções. No século 19 se descobriu esse sistema estudando o
cérebro de pessoas infectadas pelo vírus da raiva, que destruía de
forma seletiva os neurônios do sistema límbico e alterava as
emoções, daí o nome de raiva. Desde então se realizaram diversos
estudos, como o de Damasio e outros pesquisadores, que aprofundaram
essa linha.
EP - E expressões humanas como a arte, que o
senhor analisou com especial interesse?
Changeux - Há uma
nova disciplina, chamada neuroestética, que relaciona a criação e a
contemplação estética com as funções do cérebro, e que é
extremamente interessante.
EP - Quando se alcançará um
conhecimento completo do cérebro?
Changeux - Comentei
alguma vez que o século 21 será o século do cérebro, porque os
neurobiólogos chegaremos a compreender como funcionam a
consciência, o pensamento e as emoções. Nos últimos 50 anos se
avançou muito e o progresso continuará. No entanto, também estou
certo de que ficaram muitas coisas para descobrir.
EP -
Não lhe causam temor as implicações que o conhecimento completo
desse órgão pode acarretar?
Changeux - Não, mas é
importante insistir que é preciso estar atentos para que os
trabalhos científicos sobre o cérebro humano sejam utilizados para
lutar contra as doenças neurológicas e psiquiátricas, melhorar a
qualidade de vida a ajudar na educação da sociedade.
EP -
Por que utilizou a nicotina em suas pesquisas sobre os receptores da
acetilcolina?
Changeux - O receptor que estudamos também
se chama receptor nicotínico da acetilcolina, um termo proposto no
início do século 20. Além de ser um receptor da acetilcolina, também
é da nicotina.
EP - Que implicações isso
tem?
Changeux - Está em processo de estudo, mas agora se
começa a saber que os esquizofrênicos são fumantes compulsivos. Em
98% dos casos se considera que esses doentes utilizam o tabaco como
automedicação. Por essa razão está sendo analisado o uso da nicotina
como medicamento.
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Tradução:
Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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