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A freguesa tem sempre razão
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23.07.2006 | O velho hábito de ler
jornais logo cedo no café da manhã, que cultivo desde menino, está-se
tornando cada vez mais penoso. No fim do ritual, ao dobrar os jornais, e
dar início a mais um dia de labuta, dá um desânimo danado - a terrível
impressão de que o país e o mundo não deram certo, não têm mais
jeito.
Na quinta-feira, 20 de julho, dia em que escrevo a coluna,
as imagens de primeira página dos três principais jornais brasileiros
(Globo, Estadão e Folha) são de assustar. Mostram um cogumelo de fumaça
dos aviões israelenses bombardeando Beirute, tanques tomando posição na
fronteira com o Líbano, um menino chorando ao lado de dois irmãos feridos
no hospital de Sídon.
Entre cenas do enterro do ator Raul Cortez e
notícias sobre o julgamento de jovens que praticaram crimes bárbaros por
aqui mesmo, há um ou outro registro sobre os resultados do futebol e as
últimas sobre a quadrilha dos sanguessugas parlamentares.
Meus
amigos editores de primeiras páginas poderiam me perguntar, com razão: e o
que você queria? Que a gente ignorasse esses fatos para publicar só
fotografias bonitas e notícias alentadoras sobre a feliz passagem do homem
pela terra?
Não, não chegaria a tanto, mas responderia com outra
pergunta: será que nada de bom aconteceu ontem neste país de 180 milhões
de habitantes espalhados por 8,5 milhões de quilômetros quadrados? Será
que o mundo não foi capaz de produzir nas últimas 24 horas uma única
história que permitisse ao leitor abrir um sorriso em vez de dar um tiro
na cabeça?
Não se trata de fugir da realidade, mas de tentar
descobrir outras realidades, lugares e personagens, que também existem, e
estão fora da nossa mídia.
Nos telejornais da véspera, entre uma
novela e outra, as desgraças eram mais ou menos as mesmas, da mesma forma
como o noticiário da internet que agora realimenta o circo mundial de
horrores on-line emendando um dia no outro sem dar uma trégua.
***
Deixo os jornais sobre a mesa, desligo o computador,
ignoro a televisão, e vou à rua, que hoje é dia de feira no bairro, para
ver se encontro algum outro tema para a coluna que não seja esta
desgraceira geral e ilimitada. Caminhando entre as barracas e tentando
ouvir o que as pessoas falam em meio ao alarido dos feirantes oferecendo
seus produtos mais baratos para a madame, descubro logo que um cardápio
não bate com o outro _ o que está oferecido nos jornais não se encontra
nas conversas. Fala-se de tudo, menos do novo conflito no Oriente Médio e
dos seus mais de 300 mortos já contabilizados ou da última pesquisa
eleitoral.
Na barraca da japonesa do pastel, moças e senhoras
uniformizadas das lojas próximas aproveitam o intervalo do almoço para
falar dos seus planos de fim de semana, da febre do filho, da filha que
vai trabalhar em outra cidade, daquela freguesa chata que acabou com meu
bom humor hoje de manhã, do carro novo do marido da vizinha, do capítulo
de ontem da novela das oito.
Claro que nada disso dá manchete de
jornal, mas talvez as pessoas tenham vontade de ler alguma coisa mais
próxima da realidade das suas vidas e que, se possível, possa tornar essa
vida um pouco melhor, com alguma esperança, ao menos.
Recolho os
fragmentos de conversas e prossigo caminhando, tomando cuidado para não
ser atropelado pelos carrinhos carregados de frutas e legumes, que agora
passam mais acelerados na medida em que se aproxima o final da feira e os
preços vão caindo. Vida que segue.
Como jornalista meio veterano,
que já está indo para a prorrogação e detesta disputa por pênaltis,
sinto-me um estranho no ninho nesta feira-livre de assuntos porque os
temas que ocupam a minha cabeça e consomem boa parte do meu tempo não são
os mesmos das pessoas que agora vão enchendo os restaurantes e os da
freguesia que fica olhando as vitrines. Será que os pauteiros da nossa
nobre imprensa estão se dando conta disso?
***
Outro dia
participei aqui em São Paulo de um seminário sobre Mídia e Sociedade em
que discutimos o futuro da nossa atividade. O passeio pela feira me fez
pensar numa coisa terrível. Se não cuidarmos urgentemente de mudar nossas
velhas cabeças e receitas, se não atentarmos para os desejos, os
interesses e humores da freguesia, oferecendo produtos mais palatáveis aos
novos gostos, sintonizando nossas pautas, perderemos nosso tempo pensando
um futuro que não haverá mais.
Antes, desconfio, teremos que nos
ocupar do que podemos mudar no presente, agora mesmo. Temas como o sobe e
desce das pesquisas eleitorais, por exemplo, causam grande furor entre
políticos e jornalistas, mas não ouvi um único comentário na feira sobre
esse palpitante assunto.
Dou-me conta de que faltam apenas 70 e
poucos dias para as eleições gerais, mas parece que elas vão acontecer em
outro país no ano que vem. Porque, por aqui, não se vê nem ouve sinais de
campanha fora da mídia por mais que profissionais e veículos se empenhem
em falar disso em suas mais nobres colunas.
Também não ouvi mais
nenhum lamento ou palavrão sobre os responsáveis pelo fracasso do Brasil
na Copa da Alemanha, tema ainda recorrente na imprensa, como se fosse
possível mudar o resultado dos jogos que terminaram. Desconfio que estamos
falando línguas diferentes, nós e nossos
leitores/ouvintes/telespectadores. Se não nos agrada a paisagem, não
adianta xingar a janela nem os transeuntes.
O melhor a fazer é
tratar de encontrar logo outros cenários e assuntos, e fazer como os
sábios feirantes, para quem a freguesa tem sempre razão.
retirado de
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