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O direito de votar é uma conquista
democrática. Já a obrigação de votar, mesmo em candidatos sem mérito nem
competência, é uma violência contra o eleitor. É claro que ele tem o
direito de ir até a Seção Eleitoral e exercer o voto em branco ou anulá-lo
como protesto. Mas o que mais pode evidenciar o repúdio a escolhas
infelizes a que querem nos obrigar é simplesmente não votar, exercer a
opção de ficar em casa que, já dizia o Direito Consuetudinário
britânico, é o castelo inviolável de cada cidadão.
No Brasil, não
há como escapar. No meu caso, residente que sou nos Estados Unidos, posso
simplesmente não me deslocar até os consulados mais próximos, que são os
de Nova Iorque e Boston, ambos a mais de duas horas de distância. Tenho o
direito de pedir dispensa e é o que vou fazer, pois considero a opção que
se coloca diante do eleitor no mês de outubro de grande
infelicidade.
Lula é um presidente despreparado, Alckmin um
candidato inexpressivo. Os dois fariam um governo quase igual, pois o que
tem marcado o Brasil com tucanos ou petistas é o marasmo da economia,
incapaz de criar empregos para os quase dois milhões de jovens que a cada
ano se lançam no mercado de trabalho.
Lula não me decepcionou
porque, como escrevi no ano 2000, em outro jornal, ele me lembra como
ninguém o célebre poema de T. S. Eliot, The Hollow Man: Entre a idéia e a
realidade, entre a moção e o ato, cai a sombra. Eu escrevi então, depois
de assistir a um debate entre Serra e Lula, que ambos mentiam e é
exatamente o que se passa agora, quando temos Lula e
Alckmin.
Mentiras têm pernas curtas e vale também lembrar a célebre
observação de que se pode enganar a todos durante algum tempo e enganar
alguns durante todo o tempo, mas não se pode enganar a todos durante todo
o tempo. Há alguns meses deparei no programa Charlie Rose com uma
entrevista de nosso Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em que ele afirmou
que o presidente Lula nada sabia do que ocorria em seu governo em termos
de mensalões e outras maracutaias.
Mas agora tomo conhecimento de
que, na casa do mesmo Gilberto Gil, realizou-se recentemente uma sessão de
desagravo, solidariedade ou lá que nome tenha em que diversos intelectuais
(ansiosos atrás de verbas do governo para os seus projetos culturais)
declararam que Lula sabia sim, do que se passava, mas tal coisa não tem a
menor importância, pois os fins justificam os meios.
Foi um
lamentável exercício de cinismo. Mas fiquei com a pergunta: quando
Gilberto Gil disse a verdade? Quando afirmou, para consumo no exterior,
que Lula de nada sabia ou agora, para consumo interno, quando em sua casa
e com seu aval os intelectuais afirmam que Lula sabia, sim, mas não faz
mal?
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