10 coisas que seu gerente nunca vai dizer
| 06.09.2006
Todo mundo que tem algum dinheiro precisa lidar com um gerente de banco.
Torne essa relação menos desigual
Corbis
Por Cláudia Bergamasco
EXAME
Ele resolve todos os seus problemas. É diligente quando você liga e pede uma
ajuda. Parece estar sempre atento a possíveis problemas. Mas há coisas que o seu
gerente de banco não revela. Um exemplo? O fato de ele ver em você uma
ótima oportunidade para cumprir as metas de vendas do mês. Independente do que
esteja sendo vendido.
Saiba as 10 coisas que seu gerente nunca vai dizer.
"O que eu ofereço é sempre bom para o banco, mas não para
você"
Quem pensar no gerente do banco como um consultor financeiro
pessoal corre o risco de acabar fazendo péssimos negócios. Quase todas as
recomendações dos gerentes atendem aos interesses do banco, não aos do cliente.
Não é desonestidade pessoal, mas o resultado da forma como os bancos trabalham.
O gerente é um vendedor que tem metas a cumprir para os principais produtos --
cheque especial, títulos de capitalização, seguros, poupança --, e seu emprego
depende de atin gir essas metas todos os meses. Obviamente, as metas são
estabelecidas de modo que os produtos mais oferecidos sejam aqueles que fazem o
banco lucrar mais e, portanto, custam mais para o cliente. O resultado é que, em
um determinado mês, o gerente vai jurar para você que os títulos de
capitalização serão o melhor negócio do mundo. No mês seguinte, será a vez da
poupança e, depois disso, virão os seguros. O principal problema é que essas
recomendações não costumam levar em conta nem o perfil de risco nem as
necessidades individuais de cada cliente. "Seja firme na hora de dialogar sobre
seus investimentos", diz Sérgio Galvão Bueno, sócio da consultoria paulista LLA,
especializada em finanças pessoais. "Por mais persuasivos que sejam os
argumentos, não compre o que o seu gerente quer vender, a menos que o produto
seja adequado a seu perfil de investidor."
"Vou cobrar diversas tarifas sem avisar"
Muitas vezes os
bancos escondem tarifas em seus serviços, que somente serão notadas bem mais
tarde, quando chegar a conta. O analista de sistemas Delman Ferreira, de
Brasília, imaginava que financiar a compra de seu Polo zero-quilômetro em um
banco seria melhor do que parcelar na concessionária. As taxas costumam ser
menores, e é possível -- pensava Ferreira -- evitar gastos como a taxa de
abertura de crédito (TAC) cobrada pela financeira da concessionária, normalmente
muito superior àquela dos bancos. Por isso, em fevereiro de 2006, Ferreira
parcelou a compra em 60 prestações de 943 reais. Para pagar a primeira parcela,
o analista de sistemas abriu uma conta no banco e depositou 1 000 reais. Ao
consultar a instituição, dias depois, o analista teve a desagradável surpresa de
ver um saldo negativo de quase 300 reais. Além de descontar de uma vez a
contribuição provisória sobre movimentação financeira (CPMF) referente ao valor
total do carro, o banco cobrou para manter o limite do cheque especial e a conta
aberta. A emissão de extratos também foi cobrada.
"O juro dobra se você estourar o cheque especial"
O
cheque especial está entre os seis produtos mais rentáveis de qualquer banco.
Não é para menos. Em junho, segundo o Banco Central (BC), os juros cobrados eram
de 7,8% ao mês ou mais de 145% ao ano. É uma taxa altíssima. O que poucos
clientes sabem é que a conta fica -- se é que isso é possível -- ainda mais
salgada se os gastos ultrapassarem o limite estipulado pelo banco. Nesse caso, o
cliente entra numa linha de crédito específica chamada Adiantamento a
Depositante, que tem uma taxa de juro de cerca de 15% ao mês, o que representa
estratosféricos 435% ao ano. O cliente também paga uma tarifa média de 20 reais
para cada cheque emitido nessas circunstâncias. O peso disso em qualquer
empréstimo pode ser demonstrado por um cálculo simples. Imagine um cliente com
limite de cheque especial de 1 000 reais e que custa 7,8% ao mês. Se, por um
descuido, ele passar a dever 1 500 reais no cheque especial, terá de pagar por
mês 78 reais sobre o limite, 75 reais sobre o excesso de limite e mais 20 reais
referentes à tarifa. Contabilizando impostos e CPMF, a fatura, só com os juros,
vai para mais de 177 reais por mês. Se cair mais um cheque, além dos juros, o
banco vai cobrar novamente a tarifa de 20 reais. São taxas elevadíssimas, mas
sua aplicação pelos bancos é perfeitamente legal. Por isso, a recomendação é
evitar ao máximo usar o cheque especial e nunca, nunca superar o limite.
"Sacar dinheiro com o cartão de crédito é caro"
O
cartão de crédito funciona como meio de pagamentos e como forma de o banco
emprestar dinheiro automaticamente para o cliente. Por isso, quase todo cartão
de crédito permite ao usuário sacar dinheiro em caixas automáticos. Pouca gente
sabe, porém, que os encargos que incidem sobre essa operação são salgados. O
saque é um empréstimo no cartão, e as taxas médias são de 8% ao mês. Além disso,
o usuário paga de 1,95 a 8 reais por saque. O cliente que fizer três saques de
10 reais vai levar 30 em dinheiro e terá de pagar 24 em juros e tarifas, 80% do
total sacado. Esses detalhes constam do contrato do cartão de crédito, mas
poucas pessoas se preocupam em lê-lo.
"Não conheço bem os produtos do banco"
Em fevereiro
de 2006, o engenheiro mecânico paulista e Ph.D. em finanças Marcos Crivelaro
decidiu investir 10 000 reais em um dos fundos do banco onde tinha conta. Saiu
da agência de mãos abanando. Ele havia escolhido um fundo, mas seu gerente não
conhecia o produto -- e, portanto, ignorava que só está aberto para captação em
quatro dias no ano, das 10 às 15 horas. "Até pouco tempo atrás, o fundo não
constava nem da tabela de rentabilidade que o banco envia aos clientes", diz
Crivelaro.
"Os juros do crédito imobiliário são o dobro do que
parecem"
Comprar um imóvel com financiamento do Sistema Financeiro
da Habitação (SFH) parece ser um ótimo negócio. Os juros variam de 6% a 12% ao
ano, mais a variação da Taxa Referencial (TR), que costuma ser menor que 3% ao
ano. Aparentemente, são taxas muito mais amigáveis do que a média das cobradas
pelos bancos. Na prática, porém, outros custos farão o mutuário pagar quase o
dobro de juros. Além dos juros, os bancos costumam cobrar uma taxa de
administração do contrato que varia de 12 a 80 reais. Além disso, o mutuário
geralmente tem de pagar dois seguros, um por morte ou invalidez permanente e
outro por danos físicos ao imóvel. Juntos, eles representam cerca de 9% do valor
da prestação, segundo cálculos do professor Rafael Paschoarelli, doutor em
finanças pela Universidade de São Paulo e autor do livro A Regra do Jogo
(Editora Saraiva, 180 págs.). Há mais duas taxas no financiamento: a de vistoria
do imóvel e a de verificação da documentação. Além disso, o mutuário deve pagar
o imposto de transmissão de bens intervivos (ITBI), equivalente a 2% do valor do
imóvel, para que o dinheiro do financiamento seja liberado. Para ter idéia do
peso desses adicionais, Paschoarelli simulou um empréstimo de 150 000 reais com
taxa de 12% ao ano mais TR. "O comprador paga cerca de 15 000 reais a mais
nesses penduricalhos, além dos juros", diz ele. Sua recomendação é fazer as
contas com cuidado.
"Pagar dívidas antes do prazo custa dinheiro"
O
cliente endividado que resolver quitar seu débito com o banco fará um mau
negócio. Nesse caso, o banco deverá cobrar uma Tarifa de Antecipação de Crédito,
que, na média, é igual a 10% do valor a ser quitado. "Para o banco, não é
interessante que você pague a dívida antecipadamente porque, nesse caso, ele não
vai receber os juros das parcelas restantes", diz Ricardo Almeida, professor do
Ibmec São Paulo. "Se o cliente antecipar o pagamento, o contrato tem de ser
revisto, o que gera custo para o banco." Segundo ele, o cliente tem direito de
obter desconto na taxa de juro, mas dificilmente deixará de pagar a Tarifa de
Antecipação de Crédito.
"Meus fundos de varejo conservadores rendem
pouco"
Quando oferecem um fundo de investimento conservador a seus
clientes, muitos gerentes comparam a rentabilidade do fundo com a da caderneta
de poupança. "Como a poupança rende muito pouco, um fundo ruim parece ser um
excelente investimento quando comparado a ela", diz William Eid Júnior, diretor
do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, que
realizou a avaliação dos fundos no Guia EXAME de Investimentos Pessoais. Para
evitar ser enganado por essa distorção, o cliente deve tomar um cuidado
específico na hora de investir. Nesse momento, a rentabilidade dos fundos DI ou
de renda fixa -- os mais conservadores do mercado -- deve ser comparada à
variação das taxas do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que balizam
as operações realizadas entre bancos. Outro cuidado é prestar atenção na taxa de
administração, que é a remuneração cobrada pelo gestor do fundo para administrar
o dinheiro. Essa taxa é um percentual do total investido, e será cobrada todos
os dias, independentemente do desempenho do fundo. Vale aqui uma velha regra do
sistema bancário: quem tem menos dinheiro paga mais caro. Fundos de investimento
mais populares, aqueles com depóstivo inicial mínimo de até 1 000 reais,
costumam cobrar as taxas de administração mais altas, que podem chegar a 5% ao
ano. Nesses casos, sempre vale a pena perguntar ao gerente qual é a taxa de juro
paga para aplicações em renda fixa, como os Certificados de Depósito Bancário
(CDB), e compará-la com o desempenho do fundo.
"A previdência privada custa mais do que você
imagina"
Responda rapidamente: qual é a taxa de administração de seu
plano de previdência privada? E a taxa de carregamento? Não se sinta mal por não
saber o que esses nomes significam. Milhares de investidores ignoram que os
bancos cobram um percentual do patrimônio para gerir o dinheiro (a taxa de
administração) e um "pedágio" sobre cada nova aplicação, para cobrir os custos
operacionais (a taxa de carregamento). A taxa de administração oscila entre 1% e
4% do total investido, sendo que a média é de 2,3% ao ano. A taxa de
carregamento pode variar de 0,5% a 10% de cada aplicação. Sua média, atualmente,
é de 3,3%. Os planos de previdência também podem cobrar uma taxa de saída, que
incide sobre os valores resgatados e, na maioria das vezes, é de 0,38% sobre o
montante resgatado. "Juntas, essas três taxas, mais o imposto de renda sobre os
rendimentos ou sobre o total resgatado, que oscila de 10% a 35%, podem corroer a
rentabilidade do plano", diz Marcelo D'Agosto, consultor da Investmate,
consultoria especializada em finanças pessoais, de São Paulo. Como a previdência
privada é uma aplicação de longo prazo por excelência, vale muito a pena
procurar as menores taxas: a diferença é brutal depois de 15 ou 20 anos. Por
exemplo, o investidor que tiver 1 milhão de reais aplicado vai pagar
aproximadamente 10 000 reais por ano a mais a cada ponto percentual suplementar
de taxas cobrado pelo banco.
"Capitalização é um péssimo negócio"
Um cliente que
precise elevar seu limite de cheque especial pode ser "convidado" a comprar um
título de capitalização para oferecer "reciprocidade" ao banco. "Os títulos de
capitalização são a pior besteira que você pode fazer com seu dinheiro", diz o
professor Rafael Paschoarelli. A capitalização mistura poupança com loteria, em
que o investidor tem a chance de ganhar prêmios em dinheiro sorteados entre os
clientes. "A capitalização é um investimento ruim e um jogo ineficiente, pois
quem administra essa loteria cobra caro", afirma Paschoarelli. "É melhor
arriscar na Megasena."
Retirado
de:http://portalexame.abril.uol.com.br/servicos/guiadoinvestidor/anuario/m0106985.html