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O MAIS recente escândalo envolvendo Lula & Cia. tornou evidentes
duas coisas. A primeira já era sabida desde pelo menos o escândalo do
mensalão, há mais de um ano. Ou seja, a cúpula petista instalou uma máfia
sindical-partidária no aparelho do Estado. A função dessa máfia é
garantir condições para que Lula e seu grupo se eternizem no poder. O
método é desviar recursos públicos e privados para financiar campanhas
eleitorais, comprar adesões no Congresso e montar operações de intimidação
contra eventuais adversários. Embora ocupando postos de pouca
visibilidade, o que caracteriza os integrantes da máfia é a lealdade
antiga e canina a Lula, o chefão. São operadores acostumados a agir nas
sombras da delinqüência municipal. Sua ação é agora "legitimada" por
intelectuais como Marilena Chaui e Rose Marie Muraro, para as quais o
imoral é moral se for bom para a cúpula do partido. Todo governo tem
nichos de corrupção, muitas vezes incrustados na vizinhança dos amigos do
presidente. Mas são esquemas paralelos, de caráter "particular".
Traduzem a sobrevivência do velho patrimonialismo brasileiro. Onde o
PT inovou foi ao estender esses pequenos esquemas ao aparelho
governamental inteiro, dando-lhes, além de comando unificado, um caráter
partidário e permanente. De fato a corrupção se tornou "sistêmica",
como querem os apologistas do governo. Não no sentido de resultar das
mazelas do nosso sistema político, mas por configurar uma máquina
impessoal agindo dentro do Estado. O "dossiêgate", como vem sendo
chamado, revelou no entanto algo mais perturbador do que essa notícia
velha. Tornou evidente que, sob o beneplácito de Lula, a máfia continua a
agir de modo cada vez mais desabrido. A impunidade, como era de se prever,
gerou a desfaçatez. O favoritismo eleitoral de Lula, turbinado pelas
políticas de transferência de renda, aumentou ainda mais a sensação de
impunidade. E espicaçou o atrevimento, a ponto de a facção mafiosa correr
o risco de prejudicar a reeleição do chefe na tentativa de reverter a
vantagem dos tucanos na eleição paulista. O próprio Lula pergunta
retoricamente o que teria a ganhar com uma operação criminal desse tipo,
estando sua reeleição quase assegurada. É que em geral os asseclas são
mais realistas que o rei. É que cedo ou tarde a "turma" passa a agir por
conta própria. Para ilustrar a constatação, basta lembrar que foi
exatamente assim que o chefe de segurança de Getúlio mandou matar Lacerda,
a principal voz da oposição em 1954, num crime imbecil que derrubaria o
presidente em qualquer democracia. Se houver segundo mandato, haverá muito
trabalho para o Ministério Público, para o Judiciário e para o que restar
de imprensa independente "neste país".
OTAVIO FRIAS FILHO é diretor de Redação da
Folha
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