|
A Venezuela é aqui
Por Eduardo Guimarães
Muita gente que vota em Lula e
que está indo às raias do desespero por conta do ataque final da mídia
contra o presidente ficou chocada com a pesquisa Ibope que acaba de ser
divulgada e que mostra uma sólida queda de Lula (ainda que pequena) e
um sólido crescimento de Alckmin (ainda que igualmente pequeno). Os que
são meus leitores há mais tempo não deveriam ficar assim. Afinal, eu os
avisei do que aconteceria.
Na última sexta-feira, postei uma nota dizendo que tinha sido informado
por gente de dentro da Folha de que o jornal fraudaria a pesquisa que
seria publicada naquele mesmo dia e que só foi disponibilizada na
internet na madrugada de sábado. Quando ela foi divulgada, vi,
apreensivo, gente comemorando aqui no blog e pela internet inteira.
Então escrevi o texto abaixo deste, intitulado "Margem de Safadeza",
para fazer vocês entenderem que, de "margem de erro" em "margem de
erro", levantaram a bola de Alckmin pelo menos uns 7, 8 pontos
percentuais no decorrer das últimas semanas.
Mas não era suficiente e não vai ficar só nisso. Como não ficou. O
Ibope cumpriu a missão inglória de que o Datafolha se desincumbiu, ou
seja, a missão de mostrar uma queda maior de Lula e um crescimento de
Alckmin fora da margem de erro das pesquisas de opinião. E por que o
Ibope? Simples: o Datafolha pertence ao grupo Folha de São Paulo, um
jornal que todos sabem que aderiu ao PSDB, um jornal que tem um
ombudsman que vive acusando-o de partidarismo político. Então
escolheram o Ibope, que pelo menos não tem coloração partidária tão
visivel quanto a do Datafolha.
Já perdi a conta de quantas vezes escrevi isso que vocês vão ler.
Percebi tudo a partir da eclosão da crise política em meados do ano
passado. Repito, pela milionésima vez, que o Brasil mergulhou num
processo político igual ao que mergulhou a Venezuela depois da eleição
de Hugo Chávez. Partidos políticos de direita, o grande empresariado e
os meios de comunicação uniram-se num complô para derrubarem um governo
que passou a usar a riqueza do Estado venezuelano (proveniente das
receitas com petróleo) em prol das camadas miseráveis da população, que
durante décadas incontáveis tiveram que assistir os recursos do país
serem usados em prol da minoria branca e rica daquela sociedade.
O processo de desmoralização de Chávez pela elite empresarial-midiática
venezuelana consistiu em criminalizá-lo, em ridicularizá-lo e até em
usar a força contra ele. Para isso a elite venezuelana se valeu dos
meios de comunicação. Jornais, revistas semanais, rádios e internet, no
entanto, não foram os únicos meios. Estive algumas vezes na Venezuela e
acompanhei inclusive o auge da crise. Descobri que patrões pressionavam
seus funcionários. Opinião pró-Chávez, na Venezuela, passou a ser
motivo de demissão. E nos círculos sociais mais altos, de classe média
para cima, virou in atacar o presidente da Venezuela.
Não toquei, porém, no assunto mais importante, num dos pontos cruciais
do processo político venezuelano, que se reproduziria em outros países
em que políticos de esquerda disputariam o cargo de presidente da
República. Durante a campanha do referendo revogatório proposto pela
oposição venezuelana para tentar tirar Chávez do poder - uma campanha
que já vinha de anos -, as pesquisas de intenção de voto foram
manipuladas escandalosamente. No começo, cerca de uns dois anos antes
do referendo, Chávez aparecia como repudiado por quase dois terços do
eleitorado. Depois, conforme o referendo foi se aproximando, Chávez
"foi se tornando" mais popular. Abertas as urnas, porém, sua vitória
foi bem maior do que as pesquisas previram. Na verdade, elas haviam
previsto uma vitória apertada e ele ganhou de lavada.
Bolívia
Aconteceu exatamente o mesmo na Bolívia durante a eleição de Evo
Morales no ano passado. As pesquisas foram fraudadas até o último
minuto. Abertas as urnas, o resultado diferiu enormemente das
pesquisas, ainda que estas concedessem vitória "apertada" ao candidato
que a mídia demonizava e ridicularizava.
O eleitorado de Lula pensa que está comendo o pão que o diabo amassou
por conta do partidarismo escandaloso da mídia. Isso é porque a maioria
quase absoluta dessas pessoas não viu o que fizeram na Venezuela. Vocês
acham que ridicularizaram e desrespeitaram Lula? Gente, na Venezuela eu
assisti, com estes olhos que a terra há de comer, e ouvi, com estes
ouvidos que terão o mesmo destino dos olhos, Chávez ser acusado, em
programas de televisão, de pedofilia, de ser homossexual, bissexual,
drogado, ladrão, louco e o que mais vocês quiserem. E ainda ouvi, tanto
na Venezuela como no Brasil, dizerem que o presidente venezuelano
estava censurando a mesma mídia que cometia esses absurdos.
Eu lhes garanto, como vinha garantindo há um ano, que o Brasil foi
mergulhado no mesmo processo político da Venezuela e pela mesma mídia
que o empreendeu no país vizinho. Aliás, o comandante da campanha
político-midiática venezuelana, o megaempresário do setor de
comunicações Gustavo Cisneros, foi quem transmitiu a Vejas, Folhas,
Globos, Estadões etc o know-how que vocês estão vendo ser usado por
nossa mídia contra Lula. E esse know-how inclui - e tem como ponto
central - a manipulação de pesquisas eleitorais. É por isso que nesta
semana que falta para a eleição presidencial vocês verão acontecer
algumas coisas que vou prognosticar aqui:
1º) Os ataques a Lula, os insultos, as acusações irão tomar de vez cada
espaço midiático disponível. A opinião substituirá a notícia e qualquer
manifestação contrária, em favor de Lula, será proibida.
2º) O próximo Datafolha irá acompanhar e até aprofundar o que acaba de
divulgar o Ibope. Na reta final da campanha eleitoral, tentarão criar
um efeito manada na tentativa de reverterem uns pontos percentuais e
levarem a eleição para o segundo turno.
3º) A propaganda eleitoral termina no dia 28, mas a mídia continuará
fazendo campanha para Alckmin (atacando Lula) depois do prazo
estabelecido em lei.
Em minha opinião, não dará certo, como não deu na Venezuela e na
Bolívia. Alguns acham que conseguirão fazer aqui o que foi feito na
Colômbia e no México, mas não se dão conta de que fraude eleitoral não
funcionará no Brasil. A manipulação, aqui, no máximo poderá ser das
pesquisas por razões que não vou me estender para explicar, mas que
muitos saberão distingui-las.
Diante de tudo isso, quero acalmá-los, meus leitores, e alentá-los.
Entendam que, de fato, a Venezuela é aqui, mas para o bem e para o mal.
Simultaneamente. Primeiro o mal: os ataques, as mentiras, as
distorções, os exageros, os acobertamentos, as falsificações de
pesquisas... Depois o bem: o resultado de tudo isso, que, na Venezuela,
foi o fracasso desse processo sujo. Mas nem por isso vamos arrefecer
nosso ímpeto na reta final. Ontem consegui dois votos para Lula. Mas,
atenção: não perca tempo com a classe média e alta. Concentre-se nas
pessoas mais humildes que estão submetidas à pressão de patrões e
pessoas de classes sociais mais altas, como empregados domésticos,
porteiros etc. Essas pessoas estão desorientadas, mas intuem que Lula é
melhor para elas.
Vamos à Luta, meus amigos. Falta pouco. Coragem. A vitória está próxima.
Eduardo
Guimarães é editor do blog
http://edu.guim.blog.uol.com.br/
Qual
a sua opinião sobre este assunto?
09.2006
Fortaleça a imprensa independente do Brasil e a Livre
Expressão disseminando este artigo para sua rede de relacionamento.
Imprima ou envie por e-mail.
|