Accountability não é contabilidade
[Texto de Lucia Hippolito extraído do Blog do Noblat]

- - -

Nas democracias, o governante presta contas de seus atos à sociedade.
O presidente dos Estados Unidos dá entrevistas quinzenais na Casa
Branca, tendo que enfrentar perguntas às vezes constrangedoras, muitas
vezes duras, mas quase sempre leais. Na França, o presidente cumpre o
mesmo ritual.

Nos países parlamentaristas, além das entrevistas periódicas, o
primeiro-ministro vai semanalmente ao Parlamento, onde é "premiado"
com uma saraivada de críticas da oposição, ouve discursos fortes,
recebe perguntas sobre seus atos e pedidos de explicação sobre atos 
de governo. Tudo dentro da mais perfeita normalidade democrática.

Nos Estados Unidos, secretários e titulares de agências do governo
comparecem rotineiramente às comissões da Casa dos Representantes e 
do Senado para responder a perguntas e prestar contas das ações dos
órgãos sob sua responsabilidade.

Nos países parlamentaristas, então, nem se fala. Como os ministros
saem, praticamente todos, do Parlamento, têm que prestar constas à
sociedade, através de seus pares.

O que sustenta este procedimento é a accountability, palavra ainda
intraduzível em todo o seu conteúdo.

Accountability contém a idéia de que a autoridade é um servidor
público. Eleito ou não, tem que prestar contas de seus atos à
sociedade. Ou através de periódicas entrevistas coletivas, ou 
através de periódicas visitas ao Parlamento. Ou ambas.

(Nos Estados Unidos existe a figura do General Accounting Officer,
espécie de presidente de tribunal de contas, a quem todos os
secretários do governo prestam contas.)

Autoridades são remuneradas pelo povo. Muitas dormem em palácios 
pagos com o dinheiro do povo, locomovem-se em automóveis e aviões 
pagos pelo povo, movidos a combustível pago pelo povo. Alimentam-se 
às custas do povo.

Devem, pois, satisfação de seus atos.

No Brasil, disseminou-se – e não é de hoje – a noção de que
autoridades não precisam prestar contas à sociedade. Sentem-se como 
se tivessem recebido do eleitorado um cheque em branco. Tudo podem, 
nada devem.

Ministros "fazem o favor" de comparecer às comissões da Câmara e do
Senado para prestar contas sobre sua pasta.

O comparecimento de agentes do governo ao Congresso transforma-se 
numa batalha campal entre oposição e situação. Oposição querendo 
extrair o fígado da autoridade, situação prestando-se aos mais 
ridículos papéis para evitar a saia justa para a Excelência. 
Papelão!

Governos brasileiros confundem prestação de contas com publicidade.
Gastam fortunas em publicidade paga, como se isto bastasse para
justificar seus empregos.

Sinto muito, mas não basta. Accountability não é contabilidade das
empresas de publicidade.

Accountability é um dos pilares da democracia. De agentes públicos, 
o mínimo que se espera é respeito ao dinheiro do contribuinte, que 
paga seu salário e suas mordomias.

Accountability é menos palanque e mais debate, menos pronunciamentos 
e mais entrevistas, menos portarias ministeriais e mais comparecimento
ao Congresso.

Afinal, se uma autoridade não resiste a uma crítica ou a uma palavra
mais dura, talvez esteja no cargo errado.

Como se diz no interior de Minas, se não agüenta o calor, que saia da 
cozinha.


- - -





























.



---

Não leve nada pro lado pessoal. Apenas divirta-se.

Comentários: www.yahoogroups.com/group/goldenlist-L/messages

Newsletter: www.yahoogroups.com/group/goldenlist/messages
 
Yahoo! Groups Links

<*> To visit your group on the web, go to:
    http://groups.yahoo.com/group/goldenlist-L/

<*> Your email settings:
    Individual Email | Traditional

<*> To change settings online go to:
    http://groups.yahoo.com/group/goldenlist-L/join
    (Yahoo! ID required)

<*> To change settings via email:
    mailto:[EMAIL PROTECTED] 
    mailto:[EMAIL PROTECTED]

<*> To unsubscribe from this group, send an email to:
    [EMAIL PROTECTED]

<*> Your use of Yahoo! Groups is subject to:
    http://docs.yahoo.com/info/terms/
 



Responder a