
Coluna Econômica
Faltou a economia
Na discussão entre Lula e Geraldo Alckmin, no debate da TV
Bandeirantes, falou-se de pouco, menos ainda do essencial: a política econômica,
à medida que ocorre a contagem regressiva para o final do atual ciclo mundial de
bonança.
Há uma bonança de dólares no mundo. Há uma explosão no preço
das principais commodities minerais. Esses dólares entram e saem livremente do
país, através do mercado financeiro ou através da balança comercial. Com o
superávit nas contas correntes, e o aumento da liquidez dos títulos brasileiros
no exterior, ocorreu uma redução no chamado risco Brasil (o adicional de
risco, sobre a taxa básica americana, para os papéis brasileiros). Como o
Banco Central não promoveu um corte nos juros internos proporcional à queda do
risco Brasil, aumentou o diferencial de juros, atraindo mais dólares,
apreciando o real (isto é, tornando o real mais forte), e reduzindo a
inflação.
Em um primeiro momento, cria-se o melhor dos mundos. Com a
valorização do real a inflação cai, o salário real aumenta. Muitos setores
exportadores começam a ficar sufocados pelo câmbio, mas, nesse primeiro momento,
a soma dos beneficiados é maior do que a dos prejudicados.
Só que esse quadro não se sustenta. Como se permite a livre
entrada e saída de dólares pelo mercado financeiro, da mesma maneira que
entraram, esses dólares financeiros podem sair. Uma elevação das taxas de juros
americana, uma crise no mercado habitacional de lá, a quebra de um grande fundo,
um movimento especulativo mais forte do petróleo, um aumento da percepção de
risco para os investidores internacionais, tudo isso é motivo para movimentos de
manada, de dólares saindo..
Do lado das commodities minerais (como minério de ferro ou
alumínio), um soluço da economia chinesa será suficiente para derrubar as
cotações e a quantidade exportada.
Qualquer desses movimentos poderá provocar uma fuga de
dólares que, por sua vez, levará a uma desvalorização do real que, por sua vez,
provocará uma nova elevação da inflação que, por sua vez, provocará nova
elevação das taxas de juros. Ou seja, a política de juros do BC mira um alvo só:
a inflação. Mas consegue um equilíbrio instável, que poderá ser rompido a
qualquer momento por uma crise internacional, jogando todos os sacrifícios por
terra.
O grande desafio do próximo governo seja um segundo governo
Lula ou um primeiro Alckmin será preparar o Brasil para enfrentar o fim dessa
bonança de quatro anos, desperdiçada pela política monetária da dupla
Palocci-Meirelles.
Haverá a necessidade de acelerar a redução dos juros e
permitir uma desvalorização do real, recompor a balança comercial e ressuscitar
as exportações de manufaturados, definir novas políticas de recuperação das
cadeias produtivas massacradas pela apreciação do real. E, principalmente,
começar a discutir a sério a questão do controle sobre os fluxos de capitais.
Esse acerto de contas será inevitável. A única dúvida que
fica no ar é sobre quanto tempo se terá pela frente, antes que a crise
internacional comece a se manifestar.
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