Não há caminho melhor para o Brasil que a reeleição de Luiz Inácio da Silva.
Esse é o cenário que está se desenhando, e que na entrevista de Lula ao "Roda viva" ficou ainda mais claro.
Quando um país chega ao ponto de imunizar seu presidente, dando-lhe uma espécie de salvo conduto permanente, para o que der e vier, significa que ali está uma força política inquestionável, quase sacralizada. Em grande medida, não é isso que se procura? Um líder forte, que inspire a reverência alheia?
Pois o Brasil tem o seu, e ele está quase acima do bem e do mal.
Se não fosse assim, quando Lula afirma que "não tem onde cortar gastos", como fez na TV Cultura, os questionamentos frontais imediatamente apareceriam.
Não dá para o governo ser mais eficiente?
Não dá para diminuir o número de ministérios?
Não dá para controlar melhor as diárias e passagens, como aquelas que levaram a então ministra Benedita da Silva a um culto evangélico na Argentina?
Não dá para rever a folha de pessoal, inchada com a companheirada petista?
Não dá para andar com a reforma da Previdência? (que o presidente às vezes diz que vai, às vezes diz que não vai, e parece que dá no mesmo)
Não dá para dar uma blitz nesses contratos fantasmas das estatais, especialmente Banco do Brasil e Caixa Econômica, como aqueles feitos com Marcos Valério para desviar dinheiro para o PT e para o mensalão?
Mas não vamos cansar Luiz Inácio com tantas perguntas. Ele falou, está falado. Até porque, muitas vezes, o interlocutor nem tem essa chance.
O jornalista do "Estadão", por exemplo, tentava perguntar sobre o negócio do filho do presidente com a Telemar. Mas Lula falava por cima dele, aos berros, como se discutisse o Corinthians numa mesa de bar. E em tom ameaçador. Só um delegado de porta de cadeia conseguiria prosseguir o interrogatório.
Lula explicou que privatizar é ruim. Que ele, quando se endividou, fez hora extra no trabalho, mas nunca vendeu sua geladeira para pagar. Analogias incríveis como essa, criadas pela verve presidencial, permanecem no ar, incólumes.
Talvez um dia alguém tenha a ousadia de dizer ao dono da casa que não se trata de se desfazer da geladeira, mas dos ralos. Os de dinheiro, no caso.
No meio desse "patrimônio do povo" que Lula acusa seus adversários de terem vendido estão, por exemplo, os bancos públicos estaduais. Aqueles que patrocinaram as orgias administrativas de Maluf, Brizola, Quércia e companhia.
Aquele "patrimônio" que deu ao povo boa parte dessa dívida pública colossal que está aí, tão criticada pelos nacionalistas bonzinhos. E que os bisnetos desse mesmo povo vão morrer sem ter conseguido pagar.
Mas seria uma heresia estragar com esses argumentos a retórica privatização = entreguismo. O Brasil voltou tranqüilamente a um debate dos anos 70, só falta aparecer o movimento "quero a minha Telerj de volta". Já está circulando o alerta de que se a "esquerda" deixar o poder, a Amazônia pode virar território yankee.
Falando de Previdência, Luiz Inácio explicou que quando foi fazer o recadastramento contra fraudes, "a TV botou lá os velhinhos de 90 anos penando na fila" e a grita foi geral. Curioso. A impressão que dava era de que não tinha sido a TV, mas o governo quem tinha humilhado os velhinhos na fila do INSS.
Essas questões, porém, não ficam atravessadas na garganta do grande líder. Ele tem imunidade. E ela é suficiente para, no caso da afirmação de que os adversários vão privatizar o Banco do Brasil, Lula bater no peito e dizer que não está mentindo: "Estou só insinuando".
Era disso que o país precisava. De um presidente que insinua. E se orgulha disso abertamente, sem ninguém a constrangê-lo. Não pode haver dúvida, o Brasil quer Lula de novo. E é melhor não contrariar.