"Porque não pode todo
mundo ser o Ronaldinho"

Eis a explicação do presidente
Lula para o tremendo sucesso 
de seu filho Fábio Luís, que coincide 
com o mandato presidencial do pai 


[legenda sob a foto do filho de Lulla]
BONS DE TV
O Ronaldinho do presidente: em um ano, Lulinha saiu 
do emprego de 600 reais para virar fenômeno das 
comunicações  


Como aconteceria com qualquer pai, o presidente Lula tem demonstrado 
o orgulho que sente pelo sucesso de seu filho Fábio Luís Lula da 
Silva. Aos 31 anos, Lulinha, apelido que ele detesta, é um empresário 
bem-sucedido. É sócio de uma produtora, a Gamecorp, que, com um capi-
tal de apenas 100.000 reais, conseguiu fazer um negócio extraordiná-
rio: vendeu parte de suas ações à Telemar, a maior empresa de telefo-
nia do país, por 5,2 milhões de reais.  Como a Telemar tem capital 
público e é uma concessionária de serviço público, a sociedade com o 
filho do presidente sempre causou estranheza.  Na segunda-feira 
passada, em entrevista ao programa Roda Viva, Lula teve de falar em 
público sobre os negócios do filho. "Não posso impedir que ele 
trabalhe. Vale para o meu filho o que vale para os 190 milhões de 
brasileiros. Se têm alguma dúvida, acionem ele", afirmou. 

Dois dias depois, em entrevista à Folha de S.Paulo, o assunto Lulinha 
voltou ao foco. Os jornalistas lhe apresentaram uma questão formulada 
por um leitor do jornal, que não foi identificado. A pergunta dizia o 
seguinte: "Tenho 61 anos, sou pai de quatro filhos adultos, todos com 
curso superior, mas com dificuldades de bons empregos ou de empreen-
der. Como é que o seu filho conseguiu virar empresário, sócio da 
Telemar, com capital vultoso de 5 milhões de reais?". 

Em sua resposta, o presidente Lula começou explicando que seu filho 
virou sócio da Gamecorp quando a empresa, fundada por alguns amigos 
em Campinas, já tinha mais de dez anos de vida. "Eles fizeram um 
negócio que deu certo. Deu tão certo que até muita gente ficou com 
inveja", disse. Em seguida, o presidente fez menção às suspeitas que 
cercam a sociedade da Gamecorp com a Telemar.  "Se alguém souber de 
alguma coisa que meu filho tenha cometido de errado, é simples: o meu 
filho está subordinado à mesma Constituição a que eu estou", disse o 
presidente, fazendo logo depois uma divagação comparativa que já 
nasceu imortal: "Porque deve haver um milhão de pais reclamando: por 
que meu filho não é o Ronaldinho? Porque não pode todo mundo ser o 
Ronaldinho". 

Os entrevistadores gostaram do paralelo estabelecido pelo presidente 
entre seu filho e o astro do futebol e perguntaram se não seria mais 
fácil virar um Ronaldinho quando se é filho do presidente. Lula 
respondeu: "Não é mais fácil, pelo contrário, é muito mais difícil. E 
eu tenho orgulho porque o fato de ser presidente da República não 
mudou um milímetro o hábito dos meus filhos". 


DUAS PERGUNTAS:
Sede da Gamecorp em São Paulo (à esq.) e o prédio da Telemar, 
no Rio de Janeiro: por que a telefônica optou pela Gamecorp e
por que a sociedade foi montada de modo a ficar sob sigilo?  


Pouco ou nada se sabe dos hábitos dos filhos de Lula antes ou depois 
de o pai receber a faixa presidencial. Mas a trajetória profissional 
de Fábio Luís mudou e muito.  Foi só depois da posse que seus dons 
fenomenais começaram a se expressar – e com tal intensidade a ponto 
de o pai ver nele um Ronaldinho dos negócios.  Ele mostrou talento 
para as comunicações e, como se lerá nesta reportagem de VEJA, para a 
atividade de lobista junto ao governo.  A reportagem revela que o 
filho do presidente associou-se ao lobista Alexandre Paes dos Santos, 
um personagem explosivo, que responde a três inquéritos da Polícia 
Federal, por suspeitas de corrupção, contrabando e tráfico de influ-
ência. Esse dom do filho do presidente se revelaria ainda no episódio 
de sua associação com a Telemar. 

Sabe-se agora que os 15 milhões de reais investidos pela Telemar na 
empresa de Lulinha não foram um investimento qualquer. As circuns-
tâncias sugerem que o objetivo mais óbvio seria comprar o acesso que 
o filho do presidente tem a altas figuras da República.  O setor de 
telefonia estava e está em uma guerra em que, a se repetir a tendên-
cia mundial, haverá apenas um ou dois vencedores. Ganhar fatias do 
adversário é vital.  Houve uma corrida entre grandes empresas de 
telecomunicações para ver quem conseguia alinhar o filho do presi-
dente entre seu time de lobistas. A Telemar venceu. 

A maior empresa de telecomunicações do Brasil em faturamento e em 
número de telefones fixos instalados, e com 64% do território nacio-
nal coberto por ela, a Telemar é uma empresa cujo faturamento anual 
supera 7 bilhões de dólares.  A aposta na associação com Lulinha 
acabou não sendo muito produtiva para a Telemar porque o escândalo 
veio à tona.  Mas foi por pouco.  O governo negociava a queda de 
barreiras legais que impedem a atuação nacional de empresas de tele-
fonia fixa. Além disso, por orientação do governo, fundos de pensão 
de estatais preparavam-se para vender fatias relevantes de sua par-
ticipação acionária no setor. Quem estivesse mais perto do poder se 
sairia melhor. 

O Ronaldinho do presidente Lula é mesmo um fenômeno.  Formado em 
biologia, ele ainda era chamado de Lulinha, apelido que os amigos 
hoje evitam, quando trabalhava como monitor no zoológico de São 
Paulo, com um salário de 600 reais por mês. Para reforçar seus 
ganhos, dava aulas de inglês e computação. Do ponto de vista 
profissional e financeiro, vivia uma situação que parece ser muito 
semelhante à dos quatro filhos com curso superior do leitor da Folha. 

Em dezembro de 2003, no entanto, quando Lula estava em via de com-
pletar seu primeiro ano no Palácio do Planalto, Lulinha começou sua 
decolagem rumo à galeria exclusiva dos indivíduos fenomenais. Junto 
com Kalil e Fernando Bittar, filhos de Jacó Bittar, ex-prefeito de 
Campinas e um velho amigo do presidente, Fábio Luís tornou-se sócio 
da Gamecorp, empresa de games que ainda se chamava G4 Entretenimento 
e Tecnologia Digital. 

Até aqui a trajetória de Fábio Luís lembra a dos geniozinhos ame-
ricanos do Vale do Silício que se enfurnam em uma garagem e saem de 
lá com uma idéia matadora de vanguarda como o Google ou o YouTube, 
projetando-se para o estrelato dos negócios multimilionários.  A 
Gamecorp continuou a expandir-se. Em junho deste ano, fechou um 
contrato com a Rede Bandeirantes para alugar seis horas de progra-
mação diária no Canal 21. Depois que o contrato foi firmado, a 
emissora mudou de nome: de Canal 21, passou a chamar-se PlayTV. 
Oficialmente, trata-se de um arrendamento de horário. 

Em janeiro de 2005, apenas um ano depois da chegada de Lulinha à 
empresa, a Gamecorp já estava recebendo o aporte milionário de 5,2 
milhões de reais da Telemar – e Lulinha já era um empreendedor de 
raro sucesso.  A Gamecorp dera um salto estratosférico, coisa rara 
mesmo num mercado em expansão, como é o caso da internet e dos jogos 
eletrônicos. A sociedade entre a Telemar e a Gamecorp se materializou 
por meio de uma operação complexa, que envolveu uma terceira empresa 
e uma compra de debêntures seguida de conversão quase imediata em 
ações.  O procedimento visava a ocultar a entrada da Telemar no 
negócio.  VEJA revelou a associação em julho do ano passado. 

O caso de Lulinha tem uma complexidade maior.  Sua relação com a 
Telemar não se esgota nos interesses de ambos na Gamecorp. O filho 
do presidente foi acionado para defender interesses maiores da 
Telemar junto ao governo que o pai chefia. Em especial, em setores 
em que se estudava uma mudança na legislação de telecomunicações que 
beneficiava a Telemar. VEJA descobriu agora que a mudança na lei foi 
tratada por Lulinha e seu sócio Kalil Bittar com altos funcionários 
do governo. 

O assunto levou a dupla a três encontros com Daniel Goldberg, titular 
da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça (SDE). Em 
um desses encontros, ocorrido no início de 2005, Lulinha e Kalil, já 
então sócios da Telemar, sondaram o secretário sobre a posição que a 
SDE tomaria caso a Telemar comprasse a concorrente Brasil Telecom – 
fusão que a lei proíbe ainda hoje. Goldberg, ciente do obstáculo 
legal, disse que o negócio só seria possível mediante mudança na lei. 
O estouro do escândalo Lulinha abortou os esforços para mudar a le-
gislação e favorecer o sócio do filho do presidente. 

Quando a Telemar fez uma oferta de compra à Brasil Telecom, o mercado 
interpretou o movimento como um sinal de que a mudança na lei era 
dada como certa. Paralelamente à oferta, estavam em plena eferves-
cência os encontros de Lulinha e Kalil com Goldberg para tratar dos 
bastidores da negociação entre duas gigantes da telefonia. Oficial-
mente nada disso ocorreu. O assessor de Lulinha e Kalil, o jornalista 
Cláudio Sá, diz que, se houve encontros com Goldberg, foram contatos 
meramente sociais.  Mas do que eles falaram?  "Encontros sociais. 
Aperta a mão. Como vai? Tudo bem? Tudo certo? Esse tipo de coisa", 
responde o assessor.  Goldberg diz que não foi nada disso. Ele conta 
que conversou com Lulinha e Kalil para aconselhá-los a contratar 
uma "consultoria tributária e um escritório de advocacia". É bastante 
improvável que essa seja toda a verdade porque, nessa época, a 
Gamecorp já tinha consultor. Era Antoninho Marmo Trevisan, amigão do 
presidente. 

A constatação que se esconde por trás disso é a de que Lulinha, de-
pois de receber a bolada da Telemar,  começou a comportar-se como 
lobista da empresa junto ao governo de seu pai. Pode-se afirmar com 
certeza  que em pelo menos um encontro oficial  Lulinha tratou de 
ajudá-la.  Antes de entrar o dinheiro da Telemar o lobby da dupla 
Lulinha-Kalil era feito justamente em favor da concorrente, a Brasil 
Telecom.  Com a ajuda de Lulinha e Kalil, Yon Moreira da Silva, da 
Brasil Telecom, conseguiu ser recebido pelo presidente Lula em uma 
audiência que, curiosamente, não constou da agenda oficial do Palácio 
do Planalto.  Ela foi marcada por César Alvarez, assessor especial da 
Presidência, e durou quase duas horas – sem mais ninguém na sala. 

Sobre o que Yon Moreira e o presidente conversaram?  Segundo Yon 
Moreira, sobre o projeto Computador Conectado, que visaria difundir a 
venda de computadores populares e o acesso gratuito à internet. "Lula 
ficou impressionado com o projeto que apresentei a ele", diz Yon.
"Houve uma sintonia entre nós. Mas não falamos nenhuma palavra sobre 
o filho dele".  Yon Moreira completa: "Lula queria que os pobres do 
Brasil tivessem acesso à internet, e eu tinha o melhor projeto para 
realizar esse sonho". 

O auxílio de Lulinha e Kalil ao então diretor da Brasil Telecom é 
grave à luz de uma informação adicional: o encontro ocorreu no mesmo 
período em que o representante da empresa pagava 60.000 reais mensais 
a Lulinha e Kalil a pretexto de patrocinar um programa de games da 
dupla exibido pela Rede Bandeirantes. Essa é a mais simples e clara 
demonstração de um lobby empresarial junto ao governo:  a Brasil 
Telecom patrocinava Lulinha e Kalil e, ao mesmo tempo, a dupla abria 
as portas da sala do presidente da República à Brasil Telecom. Parece 
inocente. Não é. Como esses encontros ocorreram a portas fechadas e 
como os interesses das teles eram (e são) bilionários, qualquer sim-
patia do governo por um ou outro contendor é decisiva. 

 
[foto]
MAUS LOBISTAS
Os movimentos de Lulinha e Kalil incluíram serviços para a empresária 
Arlette Siaretta (acima, à esq.), a quem levaram até o Palácio da 
Alvorada; ajuda ao então diretor da Brasil Telecom, Yon Moreira da 
Silva (abaixo, à esq.); e sondagem sobre a Telemar junto a Daniel 
Goldberg, secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça  
Rafael

Em suas visitas a Brasília, Lulinha e Kalil ocupavam uma sala no 
escritório do lobista Alexandre Paes dos Santos, conhecido como APS 
(veja reportagem).  O escritório de APS está instalado em uma impo-
nente mansão com quatro andares e elevador na sofisticada região do 
Lago Sul. Ali, com regularidade mensal, Lulinha e Kalil despacharam 
por quase dois anos, entre o fim de 2003 e julho do ano passado. A 
sala usada pela dupla tem 40 metros quadrados. Fica bem ao lado da 
sala do lobista APS.  Há algumas semanas, estava mobiliada com duas 
mesas. Todas as cadeiras eram vermelhas.  Havia dois computadores, 
duas linhas telefônicas, uma impressora e um único quadro na parede. 
Lulinha e Kalil tinham ramais privativos, o 8118 e o 8130. Sobre sua 
relação com a dupla Lulinha-Kalil, APS diz apenas: "Eu emprestei a 
sala, mas não tenho a menor idéia do que eles faziam lá".  Seria 
ingênuo esperar que dissesse alguma coisa mais comprometedora sobre 
os vizinhos de sala e colegas por dois anos. 

Além da sala, APS também colocou sua frota à disposição da dupla. 
Quando Lulinha e Kalil começaram a freqüentar o escritório do 
lobista, seus deslocamentos por Brasília eram feitos em Ford Fiesta. 
Com cerca de 1,90 metro de altura, Kalil reclamou que o Fiesta era 
desconfortável e disse que gostaria de um carro mais espaçoso. APS 
substituiu o Fiesta por um Omega. Enquanto despachavam na mansão de 
APS durante o dia, Kalil e Lulinha eram hospedados na Granja do Torto 
ou no Palácio da Alvorada, residências oficiais da Presidência da 
República. Quando isso não era possível, Kalil ia para o hotel Blue 
Tree, a menos de 1 quilômetro do Alvorada. 

Não se conhecem bem as razões pelas quais Lulinha e Kalil mantinham 
uma sala no escritório do lobista de métodos heterodoxos. O que fa-
ziam ali? Por que despachavam dali? Em busca dessas respostas, VEJA 
descobriu que a sala foi cedida a Lulinha e Kalil como parte de um 
acordo dele com a francesa Arlette Siaretta, dona do grupo Casa-
blanca, um conglomerado de 54 empresas que, entre outras atividades, 
faz produção de filmes e eventos, gravação de comerciais e distri-
buição de DVDs. 

Em 2002, Arlette Siaretta e APS se tornaram sócios num projeto de 
transmissão de imagens digital via satélite. Desde então, a mansão do 
lobista passou a funcionar como filial informal da empresa Casablanca 
em Brasília. "Ela me pediu a sala e eu cedi", diz APS. Mas por que a 
Casablanca teria interesse em instalar Lulinha e Kalil em sua filial 
informal em Brasília?  Apesar de ser dona de metade do mercado de 
finalização de comerciais no país, Arlette Siaretta tinha um pro-
blemão no início do governo de Lula. Ligada ao PSDB e produtora das 
últimas três campanhas presidenciais tucanas, a empresária encontrou 
no PT uma muralha que lhe barrava negócios com o governo federal e as 
estatais, até então uma de suas grandes fontes de receita.  Arlette 
Siaretta precisava de alguém para lhe abrir as portas do governo. 

No fim de 2003, o sócio de Lulinha apareceu em seu escritório, em São 
Paulo, prometendo exatamente aquilo de que a empresária precisava -- 
portas abertas.  "Você tem uma grande empresa. Eu tenho acesso às 
pessoas que decidem. Podemos ganhar dinheiro juntos", teria dito 
Kalil, conforme o relato feito a VEJA por uma testemunha do encontro. 
Arlette Siaretta adorou a idéia. Fecharam negócio: Kalil receberia 5% 
das transações no governo que a Casablanca conseguisse por seu inter-
médio. Não poderia haver escolha melhor. Os "meninos" do presidente 
entregaram o que prometeram. Pois bem, Siaretta continuou tendo no 
governo petista a mesma participação que tinha no mercado nos oito 
anos dos tucanos, algo em torno de 50% de todos os contratos de fil-
mes feitos para as empresas de publicidade que prestam serviço ao 
governo. 

Não se sabe por que Arlette Siaretta confiou em Kalil. Procurada por 
VEJA em cinco oportunidades, a empresária não quis dar entrevista. 
Sabe-se, porém, que uma das melhores credenciais de Kalil para dizer-
se influente foi sua proximidade com Lulinha – que, registre-se, não 
esteve presente na negociação com Siaretta.  A pedido de Kalil, a 
empresária até concordou em trabalhar com Alberto Lima, conhecido 
como Beto Lima, amigão de Kalil (há quinze anos) e de Lulinha (há 
nove anos). Dono de um bar em Campinas que falira em agosto de 2003, 
Beto Lima passou a despachar diariamente na sede da Casablanca, em 
São Paulo. Siaretta mandou imprimir cartões de visita com seu nome e 
a custear suas despesas com passagens aéreas e hospedagem no triân-
gulo São Paulo–Brasília–Rio de Janeiro. Assim como Kalil e Lulinha, 
Beto Lima também passou a usar o escritório de APS em Brasília, que 
lhe servia de apoio para suas visitas às principais agências de pu-
blicidade que trabalham para o governo e para estatais. Beto Lima dá 
sua versão: "Minha função é prospectar novos negócios para a Casa-
blanca. Usei o escritório como base operacional, apenas para dar e 
receber telefonemas". 

Em julho de 2004, a turma deu uma grande exibição de sua influência 
para Arlette Siaretta.  O cineasta Aníbal Massaini Neto, diretor de 
Pelé Eterno, um documentário sobre a vida do craque, queria exibir 
seu trabalho ao presidente Lula, mas não conseguia romper o bloqueio. 
Arlette Siaretta, que produziu o filme, colocou em movimento sua 
engrenagem: acionou Beto Lima, que acionou Kalil, que acionou 
Lulinha – que marcou uma sessão de cinema no Alvorada com a presença 
do pai. A exibição aconteceu na noite de 13 de julho de 2004. Depois, 
houve um jantar, com arroz, feijão, peixe e farofa, além de uísque e 
charutos cubanos. Estavam todos lá: Lulinha, Kalil, Beto Lima, além 
de Siaretta.  A certa altura, já empolgado, Lula fez um discurso no 
qual começou afirmando admirar duas pessoas na vida. A platéia apos-
tou que uma seria Pelé, o astro do filme e presente à festa. Mas não. 
Lula disse que admirava Abraham Lincoln e – tchan, tchan, tchan, 
tchannn  Kalil Bittar.  Era a gratidão por tudo de bom que Kalil já 
fizera por Lulinha.  A empresária Arlette Siaretta ficou muito sa-
tisfeita com o resultado do jantar, pelo acesso que conseguira e pelo 
prestígio de seus colaboradores. 

Lulinha e Kalil mantêm-se mergulhados no mutismo sobre a real dimen-
são dos negócios e interesses que ajudaram em Brasília.  Não falam 
também sobre seus despachos na sala ao lado da do lobista APS, bem 
como sobre suas andanças por empresas privadas e gabinetes federais. 
O assessor da dupla, procurado por VEJA, conversou com a revista. 
Disse que Kalil esteve na mansão do lobista APS, mas que Lulinha 
jamais colocou os pés lá. APS desmente o assessor de Kalil e Lulinha.
Ele confirma que o filho do presidente despachava no escritório ce-
dido por ele. Quando VEJA quis saber sobre outros detalhes, o asses-
sor disse que Lulinha e Kalil não prestariam nenhum esclarecimento 
adicional. 

As investidas de lobista de Lulinha em Brasília e suas conexões 
empresariais merecem um esclarecimento mais pormenorizado. Todo pai 
tem direito de ver no filho um Ronaldinho e na filha uma Gisele 
Bündchen. Da mesma forma é vital tentar entender o mistério por trás 
de certas transformações extraordinárias dos filhos de presidentes, 
em especial quando elas ocorrem durante o ápice de poder dos pais. 


[foto]
BIOGRAFIA LONGA
O lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS, que hoje despacha numa 
mansão de quatro andares: corrupção, contrabando, pagamento de 
propina...  


O lobista Alexandre Paes do Santos é homem de relações perigosas e de 
uma vasta ficha criminal. APS, como ficou conhecido em Brasília, fez 
carreira – e, posteriormente, fama policial – no submundo das nego-
ciatas da Esplanada dos Ministérios, aproximando-se de raposas da 
política e cultivando a imagem de personagem misterioso e poderoso. 
As estripulias de APS nas sombras de Brasília vieram a público em 
2001, quando a Polícia Federal apreendeu a agenda do lobista. Ali, 
escondia-se o inventário das atividades subterrâneas de APS, como 
pagamentos de propinas a parlamentares e funcionários do governo, 
histórias de chantagens e esquemas de superfaturamento em contratos 
com órgãos públicos. Minucioso e detalhista, o lobista anotava na 
agenda valores de suborno ao lado da letra "K", que os investigadores 
descobriram tratar-se de um código que correspondia ao acréscimo de 
três zeros ao valor registrado.  Ao lado de nomes de deputados e 
servidores públicos havia, por exemplo, a inscrição "50K" (ou 50.000, 
reais ou dólares). 

O escândalo foi um golpe para o lobista.  Ele perdeu seus trinta 
clientes e passou a responder a três inquéritos da Polícia Federal, 
por suspeitas de corrupção, contrabando e tráfico de influência – 
investigações que se mantêm até hoje. Apesar da turbulência e da 
notoriedade, APS conseguiu se reerguer. Recuperou boa parte dos 
clientes e voltou a despachar numa espaçosa mansão, com quatro 
andares e elevador. Mas o sossego de APS pode durar pouco. Um de 
seus clientes, a Telecom Italia, está enrolado numa investigação de 
promotores de Milão, na Itália. Eles apuram a existência de um caixa 
secreto da Telecom Italia, que seria usado para pagar propina a 
autoridades de vários países – inclusive, é claro, do Brasil. 
 


[Veja]




















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