(thx to Vilaca)
Debaixo da cama
Luís Fernando Veríssimo, Veja,
19.01.1983
Uma cama larga, simbolizando o país. Sobre a cama,
não me
pergunte como, um reacionário, simbolizando
as classes dominantes, sua mulher
frívola e infiel,
simbolizando a inconsciência nacional, e um
doido,
simbolizando um doido.
Fala o doido:
- Esse
ruído...
- Que ruído? pergunta o reacionário.
- Debaixo da
cama.
- Não ouvi ruído nenhum.
- Exatamente. Não é estranho? O
jacaré está quieto.
- Que jacaré?
- O jacaré embaixo da
cama.
A mulher frívola e infiel dá um grito abafado. O reacionário
diz:
- Não há jacaré nenhum embaixo da cama.
O doido faz uma cara
triunfante e pergunta:
- Se não há um jacaré embaixo da cama, então o que é
que
está em silêncio?
A lógica do argumento é inatacável. E, a julgar
pelo tamanho do
silêncio, o jacaré é enorme.
- Por que será que ele
está quieto? pergunta o reacionário.
- Não sei, diz o doido. A não ser
que ele tenha comido alguém...
A mulher frívola e infiel leva as mãos à
boca, mas deixa escapar
um nome:
- Danilo!
- O quê? dizem o
reacionário e o doido, juntos.
- Nada, nada...
Mas ela desaparece
sob o lençol para chorar seu amante. Danilo,
comido por um jacaré embaixo da
cama! E com o pijama novo que
ela lhe deu.
- O jacaré deve ter comido
o comunista, diz o reacionário.
- Que comunista?
- Tem sempre um
comunista debaixo da cama.
- Depois eu é que sou doido... Não tem
comunista nenhum
embaixo da cama.
- Se o jacaré comeu, não tem
mesmo.
- Só há uma maneira de sabermos o que realmente
aconteceu, diz
o doido, sensatamente. Olharmos debaixo
da cama.
Os dois espiam
embaixo da cama e vêem um moço de pijama
novo, que sorri sem jeito.
O
reacionário endireita-se na cama e começa a refletir. Olha
para o doido,
depois olha para sua mulher que chora. Aos
poucos, vai se dando conta da
situação.
- Meu Deus! exclama.
- O quê? diz o doido, pensando que
é com ele.
- O comunista comeu o jacaré!