impagável...
26/10/2006
Cleptopeleguismo:
criação brasileira
Lourenço
Cazarré
Tenho
um amigo que, quando jovem, alimentou uma profunda simpatia pelo comunismo, mas
deixou de admirá-lo alguns anos depois de ter tomado conhecimento do assassinato
de dezenas de milhões de vítimas inocentes. Quando perguntei por que havia
demorado tanto a se decidir pelo rompimento, ele me respondeu que um sujeito
progressista não muda suas idéias por pouca
coisa.
Depois,
já mais espiritualizado, esse amigo caiu de amores pelo regime criado pelos
aiatolás. Mas se decepcionou quando as mulheres foram obrigadas a usar aquelas
roupas horríveis: não gostou do corte e menos ainda das cores, escuras, que
fazem as coitadas suar um bocado.
Sua
terceira grande desilusão política veio na época em que passou a flertar
seriamente com a direita. Quando o Bush venceu a eleição (fraudada, é verdade),
esse amigo achou que os americanos iriam invadir a China e a Rússia, ao mesmo
tempo, só pra mostrar que são cáubois machos. Mas como eles se contentaram com o
Afeganistão e o Iraque, o cara se desiludiu. Lembro que, certa vez, eu
disse a ele que o Bush não sabe organizar frases com três palavras, mas ele
alegou que um sujeito para administrar os Estados Unidos só tem que conseguir
ler um gibi do Mickey. E isso o Bush alcança,
jurou.
Pois
bem, depois de perder o interesse pelo comunismo, pela teocracia e pela
cauboicracia, meu amigo ficou meio sem rumo ideológico. Achava que havia visto
tudo em política e que nenhum outro regime seria capaz de surpreendê-lo
positivamente. Mas, dia desses, eu o encontrei muito entusiasmado, exultante.
Aos
gritos, ele me disse que o Brasil, a nação mais criativa da terra, conseguiu
inventar um novo e surpreendente regime político, capaz de amalgamar, num
governo coeso, dois grupos aparentemente opostos: jovens sindicalistas pobres de
esquerda treinados em administrar as gordas contas dos mais ricos sindicatos do
país e velhos coronéis de direita, donatários de feitorias no Nordeste, mestres
em fazer riqueza em estados miseráveis.
Trata-se
do cleptopeleguismo, me disse ele, um sistema político sem similar na história
mundial.
(A
expressão sem similar na história mundial fica por conta do grande líder do
novo regime, um cidadão que segundo a oposição sofre de facúndia
mito-megalômana, doença contagiosa que, pelo que se sabe, irradiou-se para toda
a América Latina a partir de Caracas.)
Vejamos
a argumentação desse meu amigo:
O
cleptopeleguismo sustenta-se, obviamente, numa grande agremiação política: o
Partido do Dinheiro Vivo (PDV). Sigla partidária que execra os banqueiros, o PDV
quita todos seus compromissos em cash porque, programaticamente, é contra pagar
CPMF.
A
agremiação surgiu no início dos anos 80, no ABC paulista, com um nome de
fantasia: Partido dos Trabalhadores. Um dos companheiros fundadores, detalhista,
queria um nome mais extenso para a nova agremiação: Partido dos Trabalhadores
Bem Remunerados, alegando que a sigla só tinha apoio na nata dos operários de
então: os metalúrgicos. Para não ser chamado de traidor, fez uma ressalva: disse
que as montadoras pagavam bem não por serem generosas, mas porque, com o mercado
nacional fechado para importações, podiam vender aqui carroças a preços
estratosféricos. O detalhista foi voto vencido.
Passaram-se
os anos, o partido cresceu e o cricri voltou a incomodar. Queria mudar o nome da
agremiação para Partido dos Trabalhadores no Serviço Público. Alegou que esse
seria o nome ideal já que, então, a quase totalidade dos militantes vinha das
repartições. Era inegável, acrescentou ele, que os funcionários eram os únicos
que podiam entrar nas greves promovidas mensalmente pelo partido sem correrem o
risco de serem demitidos. De novo, o detalhista perdeu a
parada.
Coerente
com o faro dos seus fundadores, o partido destacou-se por ganhar eleições para
sindicatos. Qualquer sindicato. Sabiam os militantes, treinados pelos
fundadores, que mesmo o menor dos sindicatos sempre tem, digamos, fundos. Mais
uma vez o detalhista tentou abrir a boca, mas a sua boca foi fechada. Parece que
com obturações de chumbo.
Nos
anos 90, o partido não parava de avançar em todo o país e o cleptopeleguismo se
estruturava rapidamente. Ganhando prefeituras do Estado de São Paulo, os
dirigentes partidários especializaram-se no estudo dos intrincados mecanismos
financeiros que azeitam os sistemas de coleta de lixo e de transportes urbanos.
Menos sofisticados, os militantes gaúchos se interessaram mais pelo jogo do
bicho. Em nível nacional, ainda na oposição, os quadros do partido, sempre
buscando uma áurea eficiência, adestraram-se na administração dos gordos
recursos do FAT Fundo de Amparo ao
Trabalhador.
No
poder, a partir de 2003,
a liderança do partido pode pôr em prática, no âmbito
nacional, seu longo aprendizado. Com uma sólida maioria, cunhada em torno de um
peculiar sistema de financiamento público da bancada governista no legislativo,
sempre em grana viva, o cleptopeleguismo soube implantar, sem retoques, o
corajoso programa econômico que herdara dos antecessores, bem como aprofundar os
programas sociais (que também recebeu de herança), mas com o nome alterado e sem
as contrapartidas, porque esse negócio de cobrar retribuição das pessoas pobres
é coisa de elitistas.
Agora,
na véspera da eleição, o cleptopeleguismo enfrenta uma grande batalha ideológica
contra seus mais tradicionais adversários. O PDV, que sempre lutou
programaticamente contra a privatização, hoje se empenha por ela também
pragmaticamente. Os anos de poder ensinaram aos militantes do partido que as
empresas estatais devem ser defendidas daqueles que pretendem vendê-las. Alegam
os pedevistas que as estatais podem render mais se tiverem recursos fartos para
publicidade e licitações.
E
concluiu esse meu amigo: se tivesse que encontrar uma definição mais exata para
o cleptopelego, eu diria é todo aquele cidadão que mostra o seu mais
desinteressado apego às empresas estatais, sem levar em conta, jamais, que elas
têm à sua disposição milhares de cargos de confiança regiamente remunerados.
(*) Jornalista e,
principalmente, ficcionista, mora em Brasília