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Ou eu ou ele

por Patricya Travassos

Foram as palavras finais de Laura Lúcia. Ou ela ou aquele maldito automóvel.
Desde o momento em que entrou na vida deles, aquele carro só havia gerado
discórdia e confusão. Tudo começou há seis meses. Depois de dois anos
morando juntos, Laura e Amaury conseguiram realizar o sonho do casal:
comprar um sítio na região serrana do Rio. Felizes com a aquisição, passaram
a freqüentar a nova propriedade, que dava ao casal paz e tranqüilidade. Os
20 quilômetros de estrada de terra que tinham que percorrer tornavam mais
valioso ainda o refúgio. Mas logo perceberam que teriam de adquirir um
veículo mais apropriado para a região -principalmente quando chegasse a
estação das chuvas. 

Amaury assumiu animadíssimo a função de achar o tal meio de transporte. Por
semanas não fez outra coisa a não ser devorar classificados e estudar
desempenhos. Finalmente se decidiu e comprou um jipe cheio de história: uma
relíquia que tinha sido usada na guerra e que, segundo a lenda, atravessava
rio, subia em árvore e encarava qualquer situação. Como se tratava de uma
máquina antiga, que precisava de reparos e revisões, o entusiasmado Amaury
acabou concluindo que São Paulo era o melhor lugar para as tais reformas. E
lá foi ele percorrer a distância de 400 quilômetros até a capital paulista.
Foi o primeiro fim de semana que Laura Lúcia passou sozinha. 

O carro virou um entrave na vida dos dois. Não faziam mais nada juntos.
Amaury chegava no sítio, desovava Laura Lúcia, malas e compras e saía com o
maldito para testar um novo equipamento ou fazer um reparo. Invariavelmente
chegava exausto, comia qualquer coisa, se jogava na cama e roncava no
segundo suspiro. Nada de sexo, papo ou jantar à luz de velas. 

No início, Laura Lúcia até achou bonitinho esse lado garoto do marido: no
fundo, ele gostava de brincar de carrinho. Mas, conforme os meses foram
passando, ela foi perdendo a esportiva. Ainda por cima, o doido não a
deixava tocar no carro. Reclamava da maneira como ela batia a porta ou
colocava os pés no estribo, como se o jipe fosse de cristal. Para evitar
brigas, passou a viajar com seu próprio carro, na companhia da cachorrinha
do casal. Sissi era uma princesinha, mas caiu na asneira de fazer xixi na
calota da antigüidade. Foi um Deus nos acuda! 

Laura Lúcia perdeu a paciência. Disse que ele tinha virado um cara chato,
que só sabia falar de parafuseta, câmbio, quilometragem. Que ela tinha
suportado mais do que devia e que ele tinha que decidir: 'Ou eu ou o jipe!'.
O silêncio no sítio foi total -até os passarinhos emudeceram esperando a
resposta. Vendo que ele não dizia nada, ela entrou em casa e bateu-lhe a
porta na cara. 

Quando amanheceu, viu que ele não tinha dormido na cama. Encontrou-o
roncando dentro do maldito. Arrasada, arrumou suas coisas e saiu cantando os
pneus. Dez quilômetros depois, atolou. Impotente diante da lama e da chuva,
chorou no volante. Tinha sido trocada por um carro velho! Era o fim da
picada. Para piorar a situação, a chuva começou a ficar perigosa. Com os
vidros embaçados, sem conseguir enxergar um palmo diante do nariz, sentiu de
repente seu carro ser içado. Em dois tempos, estava sendo rebocada. Limpou
um pedacinho do vidro e viu Amaury lindo, sem camisa, salvando-a da
tormenta. 

Encantada por ele a ter resgatado de forma tão espetacular, Laura se rendeu
e passou o dia fazendo amor. Ele pediu desculpas e explicou que ter um jipe
era sonho de infância. Afirmou que jamais a trocaria por um carro. Explicou
que havia tentado entrar em casa, mas ela não havia ouvido ele bater na
porta. Reconciliaram-se, mas Laura Lúcia agora sabe que nunca mais vai ter o
marido só para ela nos fins de semana. Vai ter que dividi-lo com o resgate
de infância. Mas tudo bem. Ela também sempre gostou de brincar de boneca e
de uns tempos pra cá tem sentido um enjôo, uma moleza... 

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