Oi
O homem tem inveja do vibrador?
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Beijins
Fa
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"A primeira missa no Brasil foi o maior programa de índio."
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Arnaldo Jabor - Há orgasmos soltos no ar
Um dos sintomas do mundo louco é a masturbação. Sim, não me refiro à
mera punhetinha, à mera “coça na miúda”, ao mero “estrangulamento de
peles vermelhas”, ou a doces siriricas, românticos delíquios,
orgasminhos secretos de mulheres; refiro-me à solidão social reinante,
que provoca a solidão sexual, mesmo dentro da permissividade total de
hoje. Em meio à tanta liberdade, nunca fomos tão sozinhos. Tínhamos os
pecados, tínhamos as proibições que perfumavam os prazeres deliciosos
mas, hoje, com a crise do amor romântico, com tudo permitido, ao sexo
foi designada a função de substituir frustrações políticas e sociais.
Eu pensava essas coisas graves, quando subitamente me surge uma
“serpente” na TV: um reluzente e enorme “vibrador”! Sim, um pênis
artificial que uma mulher exibia, elogiando os benefícios da masturbação
contemporânea. Ela louvava com orgulho o chamado “dildo” manejando-o com
naturalidade e destreza, enquanto o inquietante objeto fálico ronronava
como um gatinho angorá. No dia seguinte, vejo no Saia Justa um fino
debate sobre as vantagens do bom e velho “big consolator” Tabajara. Aí,
me bateu a verdade inapelável: o vibrador explica a solidão em que
vivemos, no amor, na política, nas artes.
O pré-vibrador foi inventado na pré-história; há-os até de pedra, pênis
artificiais “flintstones” e, no início do século 20, foi recomendado no
tratamento das histéricas frígidas. Tinha o romântico nome de
“consolador”, ou seja, um “consolo” para damas solitárias, uma
nostalgia, uma saudade. Hoje, não. Hoje o pênis natural é que ficou no
banco de reservas. Hoje o “dildo” não consola ninguém; veio para
afirmar, para nos substituir e nos deixar a nós “desconsolados”. Nos
tipos de vibradores, há um retrato de nosso mundo imaginário: há-os em
forma de coelhinhos infantis, há-os negros de ébano, imensos, evocando a
África profunda, há-os árabes, terroristas, há-os imperialistas,
americanos, há-os autoritários, ibéricos.
Com a inseminação artificial e os “dildos”, cria-se uma civilização de
abelhas sem zangões. E não há uma contrapartida do consolador para
homens. As tais mulheres de plástico (como vi anunciadas numa revista
com o genial slogan: “She needs no food nor stupid conversation”) não
resolvem. É muito sinistro aquela pobre boneca sendo estuprada no
silêncio da ignomínia. A mulher de borracha é uma metáfora analógica; já
o vibrador é uma metonímia digital – a parte pelo todo. A mulher de
borracha nos angustia com sua presença incômoda; ela nos inquieta, mesmo
esvaziada no fundo do armário, como uma ocultação de cadáver. O pênis
digital não; ele tem vida própria, não tem inconsciente, não tem desejos
e manias. O consolador é uma “coisa em si”; já o homem é “para si”,
cheio de projetos, opiniões. Ele não é um pedaço, está inteiro; o homem
é que foi amputado dele. O consolador não perua, (com trocadilho,
please); ele é um amante dedicado, sempre pronto para satisfazer sua
dama. O consolador é uma fantasia feminina de auto-suficiência, mas é
também um velho sonho masculino: ser livre e solto como um pênis voador,
sem inibições, comendo todo mundo numa boa, voando, irresponsável, o
velho sonho do “passaralho”, capaz de proezas infinitas. Os homens
gostariam de ter a autonomia de vôo do vibrador, seus movimentos
giratórios, sua beleza aerodinâmica.
Vamos assumir logo: temos inveja e ciúmes do vibrador. Se uma mulher põe
um vibrador na cama com o parceiro, isso pode provocar uma crise: “Ele é
melhor que eu, quem você prefere?” Um vibrador pode provocar broxadas
irreversíveis; um vibrador pode gerar terríveis discussões de relação
(“DR’s”), a que ele assistirá impassível, ali, na cama, como um juiz da
Vara de Famílias (com trocadilho).
O vibrador parece uma arma. Está pronto para entrar, aonde? Ele não
recusa portas, pode estar na mulher ou no homem e, por isso, é
angustiante. Ele pode desencaminhar machos, principalmente nesta era
GLS, de oscilações entre homo e hetero. Vejam o sucesso crescente do
“fio terra”...(quem não conhece a expressão, informe-se ou se toque –
com trocadilho...)
Mas o vibrador não é um objeto cotidiano, que possa ficar à vista de
todos, ali, como um bibelô, um telefone (se bem que os há nesse
formato). Onde guardá-los? Nas gavetas e desvãos, encafuados e ocultos,
sentem-se de longe as vibrações dos vibradores. Eles estão ali como uma
bomba-relógio. Além do mais, o que dizer aos filhos que perguntarem:
“Mãeêê...posso brincar com esse minhocão preto aqui? Legal! Essa
piroquinha anda sozinha!..”
Eu fui educado para achar que as mulheres eram românticas, apenas uma
conseqüência do desejo masculino. Hoje, a mulher pega, mata e come
machos constrangidos e inseguros, perplexos diante de tanta liberdade.
Ficaram mais fálicas que qualquer um de nós. Quem pode competir com seus
parceiros portáteis? Elas estão numa “falicidade” (com “a” mesmo)
vingativa quase, recuperando séculos de submissão. E o vibrador é sua
espada para nos castrar num espelho. A tecnologia não tem volta. Assim,
jamais vamos restaurar um romantismo simbiótico entre sexos analógicos.
Talvez inventem vibradores com alma, o inverso de homens maquínicos:
vibradores em crise, em dúvida, vibradores que discutam a relação, que
tenham de ser estimulados aos poucos, que precisem de preliminares, que
podem até broxar, humanizados como nós.
Na progressiva desumanização do sexo, os corpos estão apenas virando
lugares onde se expressará o prazer das máquinas, seremos apenas o campo
de provas da eficiência técnica das coisas. Quanto maior o orgasmo, mais
caro o equipamento; dirão os vendedores: “faz um “test drive” com esse
bofe aí...” )
Com o tempo, seremos apenas uma lembrança, uma nostalgia romântica, uma
fantasia erótica evocada em meio a orgias tecnológicas e sem alma.
Recebi de "Nilson D Martello"
Publicado no "Estado de São Paulo", 23/01/07
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