Oi Rubens, Oi gente

Tô lendo tudo atrasado :(

Alguém sabe em que pé anda esse tal manual?

Vai ser posto em prática mesmo?

-- 
Beijins
Fa
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"Adoro quando os feirantes, os porteiros e os pedreiros do meu
  bairro me chamam de gostosa. É a comunidade solidária!"
  - Radical Chic
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Rubens escreveu:
> Muito além do absurdo
> [por José Ruy Gandra]
> 
> 
> O governo quer impor um novo manual para a televisão
> que, na prática, é a velha censura
> 
> Após duas décadas de uma vigência nefasta, a censura aos meios de co-
> municação  foi oficialmente extinta no Brasil  pela Constituição  de
> 1988. De tempos em tempos, porém, surtos autoritários tentam reavivá-
> la sob  a máscara das mais variadas boas intenções.  Na mais recente
> recaída, a pretexto de proteger crianças e adolescentes de conteúdos
> potencialmente impróprios difundidos por rádio e televisão, uma porta-
> ria do Ministério da Justiça lançou, em julho de 2006, um documento
> intitulado Manual de Classificação Indicativa.
> 
> Sua entrada em vigor, segundo a portaria 264, assinada pelo ministro
> Márcio Thomaz Bastos nos estertores de seu mandato, está marcada para
> 13 de maio próximo. É uma data simbólica: o mesmo dia que representa
> a liberdade - o fim da escravidão, decretado em 1888 -- pode entrar
> para a História como uma nova afronta a ela.
> 
> Teoricamente, o manual consolida diretrizes para classificar a progra-
> mação cruzando faixas etárias e horários de exibição.  Na prática, é
> uma cartilha confusa em suas formulações  e subjetiva em seus crité-
> rios.  Só mesmo a intenção parece clara:  impor um cerco à mídia, em
> especial a eletrônica. Entre outras exigências, para obter sua clas-
> sificação indicativa, o conteúdo dos programas deve ser visto e ava-
> liado antes de ir ao ar.  Os árbitros estão longe de ser uma amostra
> significativa da sociedade brasileira: são funcionários do Ministério
> da Justiça, auxiliados por estagiários das universidades de Brasília.
> 
> O Manual de Classificação Indicativa tem um alto teor de dirigismo
> cultural. Um bom exemplo de sua fragilidade é oferecido pela seguinte
> passagem, que define "comportamentos repreensíveis e não desejáveis".
> Diz o manual: "São contextos/cenas/diálogos que exemplificam, valori-
> zam ou estimulam comportamentos tais como irresponsabilidade, egoís-
> mo, desonestidade, desrespeito para com os demais, manipulação, pre-
> conceito, ameaça, fuga de conflitos -- sem que, ao mesmo tempo, haja
> uma clara mensagem de repúdio a essas práticas".
> 
> A frase, em sua vaga e quase infinita abrangência, equivale a uma sen-
> tença de morte proferida  contra toda e qualquer modalidade de trama.
> Carlitos, o imortal vagabundo criado por Charles Chaplin,  ou o ator-
> mentado Hamlet, de William Shakespeare, dificilmente sobreviveriam a
> tal crivo. A Capitu de Machado de Assis não existiria sob a égide do
> manual. Nem a Ana Karenina de Tolstói. Nem a Emma Bovary de Flaubert.
> Nem praticamente um único personagem de Balzac.
> 
> O meio artístico está apreensivo. "É uma forma nada sutil de restabe-
> lecer a censura no país", diz o apresentador Jô Soares. "Querem trans-
> formar a Constituição em pó".  Afirma a atriz Cristiane Torloni: "Sei
> bem o que significa ter de ensaiar uma peça para um burocrata de Bra-
> sília.  Eis uma experiência que não pretendo repetir".  O humorista
> Cláudio Manoel, do programa Casseta & Planeta, diz que o manual afron-
> ta a liberdade de expressão em todas as suas formas. "Quanto mais po-
> der de decisão você dá ao Estado, mais você abre mão de sua cidadania
> e discernimento", afirma ele.
> 
> A portaria 264 preocupa ainda mais se cotejada com outras investidas
> do governo e ao pouco disfarçado objetivo de controlar a mídia.  As
> mais flagrantes foram as tentativas de criação da Agência Nacional do
> Cinema e Áudio Visual (Ancinav) e do Conselho Federal de Jornalismo
> (CFJ), ambas deflagradas em 2004, e hoje praticamente abandonadas por
> causa da forte reação que despertaram nos setores que pretendiam dis-
> ciplinar.
> 
> As incursões do Estado pelo território da mídia estão longe de repre-
> sentar uma exclusividade brasileira. Não são, certamente, um fenômeno
> mundial. Mas exibem alguns traços comuns com outros governos latino-
> americanos.  Integram o time a Bolívia de Evo Morales, o Equador de
> Rafael Correa e, líder do bloco, a Venezuela de Hugo Chávez. Num caso
> extremo, Chávez insiste em não renovar a concessão da RCTV, a maior
> emissora de TV do país, cuja linha editorial independente o incomoda.
> A sociedade venezuelana não está satisfeita com a decisão. Uma pes-
> quisa feita pelo respeitado instituto Datanálisis mostrou que 69% dos
> venezuelanos a rejeitam.
> 
> "Chávez nunca tomara uma decisão tão rejeitada", afirma o cientista
> político Luis Vicente Leon, diretor do Datanálisis. "Não se sai ileso
> de uma decisão como essa".  Embora Lula emita sinais de se afastar do
> grupo comandado por Chávez, há indícios de que parte dos quadros pe-
> tistas e da máquina do governo simpatiza com os gestos dos vizinhos.
> Na semana passada, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, defendeu num
> seminário o controle da mídia durante as eleições.  "Trata-se de uma
> das propostas mais arbitrárias  e estapafúrdias já vocalizadas desde
> os tempos da ditadura militar", afirma o jornalista Alberto Dines, um
> fiscal da mídia em seu site Observatório da Imprensa.
> 
> A questão da classificação indicativa veio à tona em 2000,  quando o
> Ministério da Justiça, na gestão de José Gregori, baixou uma portaria
> que diz que cabe ao Executivo "garantir" que nenhum programa "não in-
> dicado"  seja visto por crianças e jovens.  Na ocasião,  a Associação
> Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) obteve, no Supe-
> rior Tribunal de Justiça, uma liminar que isentava as emissoras da
> obrigatoriedade de exibir os programas nos horários determinados para
> cada faixa etária.
> 
> Após idas e vindas de natureza jurídica, outra portaria formalizou no
> início do ano esse controle e estabeleceu o manual. O STJ restabele-
> ceu a liminar da Abert. Ela suspende os efeitos da portaria até que a
> questão seja julgada em seu mérito.
> 
> "Essa decisão é extremamente importante, pois segue o que está previs-
> to na própria Constituição: a classificação de idade para um programa
> de TV  deve ser indicativa,  e não impositiva",  diz Daniel Pimentel
> Slaviero, presidente da Abert. "Cabe à família decidir a que progra-
> mas seus filhos devem ou não assistir, e ao Estado questionar e punir
> os excessos".
> 
> Muitos juristas concordam com essa tese. "Deixar tamanho subjetivismo
> nas mãos do poder público não me parece adequado.  A portaria e o ma-
> nual em questão denotam indícios de censura",  diz o desembargador
> André Gustavo Correa de Andrade, da 7ª Câmara Cível do Tribunal de
> Justiça do Rio de Janeiro. "Quem garante que esses funcionários terão
> capacitação para, num espaço de tempo reduzido, emitir um juízo aba-
> lizado?"
> 
> O advogado paulista Walter Ceneviva segue a mesma linha de raciocí-
> nio. "Me constrange a idéia de que as emissoras tenham de exibir o
> conteúdo de seus programas previamente", diz ele. "A Constituição diz
> que o Estado pode estabelecer critérios para esse conteúdo, mas nunca
> exigir sua apresentação prévia".  Segundo Ceneviva, a portaria do Mi-
> nistério da Justiça  aproxima-se daquilo que os americanos chamam de
> legislação suspeita. "Nesses casos, suspende-se sua eficácia até que
> se faça um exame rigoroso de sua constitucionalidade", afirma.
> 
> Um físico alemão certa vez usou uma expressão de gênio para catalogar
> coisas que parecem ultrapassar a barreira do absurdo: "Nem mesmo er-
> radas".  O manual cabe perfeitamente nessa definição.
> 
> 
> ENQUANTO ISSO, LÁ FORA...
> 
> Como outros países lidam com o conteúdo impróprio em suas TVs
> 
> Austrália
> O princípio é a auto-regulação.  Não há análise prévia de conteúdo.
> Após consultas públicas, cada rede nacional elabora seu próprio có-
> digo. Ele é registrado na agência reguladora Australian Communica-
> tions and Media Authority (ACMA) e divulgado nos sites das emissoras.
> O controle do ACMA é feito com base em reclamações.
> 
> Estados Unidos
> O conteúdo é classificado pela próprias redes de TV, com base em in-
> dicadores do TV Parental Guidelines Monitoring Board, conselho forma-
> do por entidades representativas do setor. Um chip instalado em todos
> os televisores lê eletronicamente a classificação dos programas e per-
> mite que os pais bloqueiem aqueles que consideram impróprios.
> 
> França
> Uma classificação etária obrigatória dos programas aplicada pelas
> próprias TVs, determina se eles podem ou não ser exibidos antes das
> 22h30.  O controle é feito pelo Conselho Superior de Audiovisual
> (CSA), entidade independente responsável pela regulação do setor. As
> TVs enviam ao CSA arquivos com toda a programação da semana anterior
> 
> Portugal
> Não há análise prévia. O controle é feito com base em reclamações
> feitas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Conteúdos
> considerados impróprios para menores e outros públicos vulneráveis
> só podem ser transmitidos entre 23 horas e 6 horas, acompanhados de
> indicação visual. As TVs devem arquivar os programas por 90 dias.
> 
> Reino Unido
> O Office of Communications consolidou em 2005 um código que estabe-
> lece padrões obrigatórios referentes a conteúdo, patrocínio, privaci-
> dade e Justiça. Conhecido como The Code, ele proíbe a transmissão de
> programação imprópria para menores de 15 anos entre 5h30 e 21 horas.
> Não há análise prévia e o controle se baseia em reclamações
> 
> 
> [Revista Época - Brasil]
> 
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