E empregadas indiscretas.

Bom fim de semana.

Carlos Antônio.


----- Original Message ----- 
From: marco figueiredo 
To: [email protected] 
Sent: Saturday, May 19, 2007 10:18 AM
Subject: Re: [gl-L] Enviando email: Folha de S.Paulo - Antonio Cicero A poesia 
é um segredo dos deuses - 19-05-2007.htm


depois leio com cuidado, mas pelo titulo já discordo: ainda não perceberam que :

" Nem deuses nem poesia tem segredos, quem tem segredo é vizinho." - MAF 
19052007 hehehehehe uma frase dibob prá Fa

bom sábado ! e voltaremos ao irmão da Marina. 


Em 19/05/07, ccarloss <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:

  Marco, 

  Podemos falar sobre isso. 
  Achei o texto não de todo ruim mas poderia ser melhor.

  Um abraço.

  Carlos Antônio.

  P.S. Sendo magnânimos vejamos também o que o Kleber tem a dizer já que ele se 
aventura  neste campo e ás vezes faz uma prosa poética ou mesmo um poema.

       
   

       

        São Paulo, sábado, 19 de maio de 2007  

       
       

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        ANTONIO CÍCERO 

        A poesia é um segredo dos deuses? 
        Conhecendo a poesia, conhecemos uma maravilha que nenhum deus é capaz 
de conhecer

        NUMA MESA-REDONDA de que participei recentemente, no encontro de 
escritores que tem lugar anualmente em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, o 
tema proposto para discussão foi: "A poesia é um segredo dos deuses".
        A propósito desse assunto, lembro que João Cabral dividia os poetas 
entre aqueles que tinham a poesia espontaneamente, como presente dos deuses, e 
aqueles -entre os quais ele mesmo se situava- que a obtinham após uma 
elaboração demorada, como conquista humana.
        Ora, o tema da nossa mesa havia sido proposto tanto para deixar à 
vontade os poetas do primeiro grupo, isto é, os que acreditam na inspiração, 
quanto para provocar os do segundo, isto é, os que não acreditam nela, de 
maneira que uns e outros se sentissem livres para expor as suas poéticas 
divergentes.
        Quanto a mim, não sinto que caiba inteiramente em nenhum desses dois 
grupos. Certamente considero uma tolice pensar que a poesia seja pura 
inspiração, pura dádiva dos deuses; mas penso que há também um quê daquela 
violência que os gregos chamavam de "húbris", um quê de insolência e arrogância 
na tese de que ela seja o resultado plenamente consciente e calculado do 
trabalho.
        A inspiração é o nome que damos à contribuição indispensável do 
incalculável, do inconsciente, do acaso e mesmo do equívoco à elaboração do 
poema. Nenhum grande poeta -nem mesmo João Cabral- jamais pôde deixar de se 
fazer disponível e receptível à irrupção dessas gratas e imprevisíveis 
contribuições. "A arte ama o acaso", diz Aristóteles, com razão, "e o acaso, a 
arte". E o acaso e a arte se encontram inextricavelmente entrelaçados na 
feitura do poema.
        A tal ponto isso me parece verdade que não acho muita graça nas 
boutades segundo as quais a poesia seria 10% inspiração e 90% transpiração. Por 
quê? Porque elas sugerem a idéia comum e equivocada de que o poeta tem, em 
primeiro lugar, a inspiração, para depois ter o trabalho de desenvolvê-la e 
poli-la.
        Ora, penso que é justamente durante o trabalho, na busca de 
alternativas ao imediato e fácil, ou na tentativa de solucionar problemas 
criados pelo desenvolvimento do próprio poema, que a inspiração é mais 
solicitada e bem-vinda; e, por sua vez, a incorporação do impremeditado ao 
poema exige sempre uma nova elaboração, de modo que jamais se pode saber ao 
certo quanto do resultado final se deve à inspiração ou ao trabalho.
        O fato é que a mim são muito simpáticos os deuses que representam as 
fontes de inspiração dos poetas, como Apolo e as Musas. A estas, aliás, já 
dediquei, em gratidão, pelo menos um dos poemas que fiz. Entretanto, dado que 
também reconheço o papel indispensável do trabalho consciente na produção dos 
poemas, não acho correto dizer que a poesia seja um presente delas.
        E, por duas razões, parece-me claro que a poesia não pode ser um 
segredo dos deuses. A primeira é que a poesia é um fenômeno humano, 
demasiadamente humano. Longe de consistir numa atividade puramente racional, 
ela lida com o que é particular, finito, humano. Ela usa palavras particulares 
de línguas particulares, finitas, humanas. Ela lida com a morte, a paixão, a 
perda, a ilusão, a esperança, o medo, a imaginação, o cômico, o trágico etc., 
que são realidades particulares, finitas, humanas.
        E a própria beleza da poesia é encarnada, sensual, particular, finita, 
humana. Os deuses -imortais, olímpicos, abençoados, oniscientes- não 
entenderiam tais coisas ou as desprezariam, pois se encontram muito acima 
delas. Conhecendo a poesia, o ser humano conhece uma maravilha que nenhum deus 
é capaz de conhecer.
        Ademais, a poesia não pode ser um segredo, nem dos deuses, nem dos 
homens, nem mesmo do ponto de vista lógico. Por quê? Porque um segredo é algo 
que, em princípio, poderia ser revelado. Por exemplo, a fórmula de uma bomba ou 
a receita de um doce podem ser segredos, porque podem, em princípio, ser 
revelados. Se alguém diz que sabe um segredo, mas que não seria capaz de 
revelá-lo de modo nenhum, essa pessoa está mentindo.
        Um segredo tem que ser conhecido ao menos por uma pessoa ou um deus. 
Ora, é possível fazer um bom poema, mas não é possível, nem em princípio, saber 
como deve ser um poema, para ser bom. Essa é, na verdade, uma das poucas 
certezas que um poeta pode ter: é absolutamente inconcebível que haja fórmulas, 
receitas ou segredos -divinos ou humanos- para a feitura de um bom poema. Logo, 
a poesia não é um segredo dos deuses.


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Marco Antonio Figueiredo
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