Leni, 

Você pode dar pitaco sempre.
Principalmente sobre poesia que a alma das palavras.

Um beijão.

Carlos Antônio. 


----- Original Message ----- 
From: leni balthar 
To: [email protected] 
Sent: Saturday, May 19, 2007 11:14 AM
Subject: Re: [gl-L] Enviando email: Folha de S.Paulo - Antonio Cicero A poesia 
é um segredo dos deuses - 19-05-2007.htm


Oi carlinhos,
Euzinha dando pitaco, concordo que poesia não é um segredo, tem que ser 
dita aos sete ventos sempre.

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guarda-se o que se quer guardar.

(Antônio Cícero)


ccarloss <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
  Marco, 

  Podemos falar sobre isso. 
  Achei o texto não de todo ruim mas poderia ser melhor.

  Um abraço.

  Carlos Antônio.

  P.S. Sendo magnânimos vejamos também o que o Kleber tem a dizer já que ele se 
aventura  neste campo e ás vezes faz uma prosa poética ou mesmo um poema.
       

   

       



        São Paulo, sábado, 19 de maio de 2007  

       
       

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        ANTONIO CÍCERO 

        A poesia é um segredo dos deuses? 
        Conhecendo a poesia, conhecemos uma maravilha que nenhum deus é capaz 
de conhecer

        NUMA MESA-REDONDA de que participei recentemente, no encontro de 
escritores que tem lugar anualmente em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, o 
tema proposto para discussão foi: "A poesia é um segredo dos deuses".
        A propósito desse assunto, lembro que João Cabral dividia os poetas 
entre aqueles que tinham a poesia espontaneamente, como presente dos deuses, e 
aqueles -entre os quais ele mesmo se situava- que a obtinham após uma 
elaboração demorada, como conquista humana.
        Ora, o tema da nossa mesa havia sido proposto tanto para deixar à 
vontade os poetas do primeiro grupo, isto é, os que acreditam na inspiração, 
quanto para provocar os do segundo, isto é, os que não acreditam nela, de 
maneira que uns e outros se sentissem livres para expor as suas poéticas 
divergentes.
        Quanto a mim, não sinto que caiba inteiramente em nenhum desses dois 
grupos. Certamente considero uma tolice pensar que a poesia seja pura 
inspiração, pura dádiva dos deuses; mas penso que há também um quê daquela 
violência que os gregos chamavam de "húbris", um quê de insolência e arrogância 
na tese de que ela seja o resultado plenamente consciente e calculado do 
trabalho.
        A inspiração é o nome que damos à contribuição indispensável do 
incalculável, do inconsciente, do acaso e mesmo do equívoco à elaboração do 
poema. Nenhum grande poeta -nem mesmo João Cabral- jamais pôde deixar de se 
fazer disponível e receptível à irrupção dessas gratas e imprevisíveis 
contribuições. "A arte ama o acaso", diz Aristóteles, com razão, "e o acaso, a 
arte". E o acaso e a arte se encontram inextricavelmente entrelaçados na 
feitura do poema.
        A tal ponto isso me parece verdade que não acho muita graça nas 
boutades segundo as quais a poesia seria 10% inspiração e 90% transpiração. Por 
quê? Porque elas sugerem a idéia comum e equivocada de que o poeta tem, em 
primeiro lugar, a inspiração, para depois ter o trabalho de desenvolvê-la e 
poli-la.
        Ora, penso que é justamente durante o trabalho, na busca de 
alternativas ao imediato e fácil, ou na tentativa de solucionar problemas 
criados pelo desenvolvimento do próprio poema, que a inspiração é mais 
solicitada e bem-vinda; e, por sua vez, a incorporação do impremeditado ao 
poema exige sempre uma nova elaboração, de modo que jamais se pode saber ao 
certo quanto do resultado final se deve à inspiração ou ao trabalho.
        O fato é que a mim são muito simpáticos os deuses que representam as 
fontes de inspiração dos poetas, como Apolo e as Musas. A estas, aliás, já 
dediquei, em gratidão, pelo menos um dos poemas que fiz. Entretanto, dado que 
também reconheço o papel indispensável do trabalho consciente na produção dos 
poemas, não acho correto dizer que a poesia seja um presente delas.
        E, por duas razões, parece-me claro que a poesia não pode ser um 
segredo dos deuses. A primeira é que a poesia é um fenômeno humano, 
demasiadamente humano. Longe de consistir numa atividade puramente racional, 
ela lida com o que é particular, finito, humano. Ela usa palavras particulares 
de línguas particulares, finitas, humanas. Ela lida com a morte, a paixão, a 
perda, a ilusão, a esperança, o medo, a imaginação, o cômico, o trágico etc., 
que são realidades particulares, finitas, humanas.
        E a própria beleza da poesia é encarnada, sensual, particular, finita, 
humana. Os deuses -imortais, olímpicos, abençoados, oniscientes- não 
entenderiam tais coisas ou as desprezariam, pois se encontram muito acima 
delas. Conhecendo a poesia, o ser humano conhece uma maravilha que nenhum deus 
é capaz de conhecer.
        Ademais, a poesia não pode ser um segredo, nem dos deuses, nem dos 
homens, nem mesmo do ponto de vista lógico. Por quê? Porque um segredo é algo 
que, em princípio, poderia ser revelado. Por exemplo, a fórmula de uma bomba ou 
a receita de um doce podem ser segredos, porque podem, em princípio, ser 
revelados. Se alguém diz que sabe um segredo, mas que não seria capaz de 
revelá-lo de modo nenhum, essa pessoa está mentindo.
        Um segredo tem que ser conhecido ao menos por uma pessoa ou um deus. 
Ora, é possível fazer um bom poema, mas não é possível, nem em princípio, saber 
como deve ser um poema, para ser bom. Essa é, na verdade, uma das poucas 
certezas que um poeta pode ter: é absolutamente inconcebível que haja fórmulas, 
receitas ou segredos -divinos ou humanos- para a feitura de um bom poema. Logo, 
a poesia não é um segredo dos deuses.


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