Estoque de camisinhas na Vila acaba e tem de ser reposto

[O Globo]

RIO - A princípio, todos juram que só pensam nas medalhas. Mas a con-
versa vai avançando, e a turma revela que concentração também rima com  
"pegação".   Segundo atletas de diversas delegações, a boate da Vila  
Pan-Americana "bombou" e, na noite de estréia, casais já se formaram.  
Piscinas e academia também estão entre as áreas mais concorridas. Sem  
falar no que tem rolado nos quartos. Na única loja que vende camisinhas na  
Vila, a Tuta L'Ora, o estoque acabou e o mostruário teve de ser reposto.

Pedindo anonimato, um competidor americano revelou ter "ficado" com uma  
atleta na boate da Vila. Segundo ele, não há proibição de paquera ou sexo  
por parte do Comitê Olímpico dos EUA. Mas excessos não são bem vistos e  
podem ser punidos.

Eu não pensava em ficar com alguém. Acho que foi o clima do Rio, sei lá --  
brincou. -- Gostei da boate. Mas não dá para exagerar. Não estamos em  
férias.

Um argentino que também pediu anonimato contou que, depois da estréia da  
boate, houve uma reunião de amigos num edifício ocupado pela delegação,  
animada por cerveja, música e "pegação":

-- Esse tipo de festinha é muito melhor. Achei a boate mais ou menos.  
Agora, em se tratando do Rio, não é só dentro da Vila que vai ter paquera.

-- As brasileiras são demais! Já estou de olho em uma. É até difícil manter  
a concentração -- riu o esgrimista mexicano Alvaro Dorante. -- O objetivo,  
claro, é competir. Mas com diversão fica bem melhor.

O entra-e-sai nos quartos não é exagerado, mas se faz presente. Segundo  
uma funcionária da Tutta L'Ora, a venda de camisinhas e gel lubrificante  
aumenta a cada dia. Ela não soube dizer quantas unidades já saíram.

-- É absolutamente normal ter paquera e sexo numa competição como o Pan.  
Seria estranho se nada acontecesse -- opinou o técnico de triatlo da equipe  
cubana, Flavio Carmona.

Para alguns atletas, a azaração é quase única opção num lugar que carece  
de mais infra-estrutura de diversão. Além da boate, há apenas um simulador  
de corrida, as piscinas e uma academia de ginástica. Cada edifício dispõe  
de apenas uma TV. E os acessos à internet, reclamaram os atletas, são  
poucos.

-- Os cubanos tomaram conta dos poucos computadores. Falta um salão de  
jogos -- afirmou Diego Asturia, jogador de squash da Guatemala.

-- A vila está chata -- resumiu a atleta da equipe de esgrima mexicana  
Andrea Aguirre. -- Vamos fazer alguns passeios externos. Aqui há apenas  
lojas, lojas, lojas. Só a paquera salva.


Aparelhos de MP3 são uma febre na Vila

Para espantar o tédio os competidores carregam nos ouvidos um companheiro  
que em 2003, em Santo Domingo, na República Dominicana, não costumava  
circular muito: o MP3. Os aparelhinhos são uma febre na Vila do Pan. Estão  
em tudo quanto é orelha. As gêmeas Karen e Jessica Morales, de 15 anos, do  
badminton da Guatemala, carregam os seus com bastante salsa. O brasileiro  
Renan Sato, 23 anos, do beisebol, tem nos arquivos musicais sua principal  
fonte de diversão. O segredo dele é variar as opções, para não cair no  
tédio nos momentos de folga. O cubano Camilo Boris, da esgrima, é tão  
ligado no MP3 que nem na cerimônia oficial de boas-vindas à delegação do  
país tirou do ouvido. Indagado pelo repórter sobre o que ouvia naquele  
instante, fez um olhar de aluno que é flagrado colando e respondeu,  
desconfiado: "Música". Como isso já se esperava que fosse, completou,  
tirando os dois fones do ouvido, ainda cabreiro:

- Música cubana, é um jeito de ficar perto de casa.

Ah, bom. Os cubanos, aliás, apesar de desfilar uma certa marra de quem  
chega só pensando em medalha, são dos mais divertidos e animados na Vila,  
segundo consta na rede informal de fofocas. Embora sisudos nas  
entrevistas, os cabelos sempre muito enfeitados das meninas e os dentes de  
ouro dos rapazes sugerem que eles não são assim tão maus quanto parecem.

- Eles gostam muito de sair, estão sempre passeando - conta um voluntário  
que tirou férias do trabalho, deixou sua cidade, Angra dos Reis, para  
ajudar no Pan e preferiu manter o anonimato na reportagem.



















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