Oi

O que você acha? É exagero?


Reinaldo Azevedo - Exame do Enem: vigarice ideológica, cretinismo,
mistificação


Vi o exame do Enem, aplicado ontem (íntegra aqui). Em muitas faculdades,
ele já substitui o vestibular como acesso do aluno ao terceiro grau e
também serve de critério de seleção para o ProUni. Leiam vocês mesmos. O
que se vê ali é assustador. As escolas públicas nada dirão porquenão
estão nem aí. As particulares não vão comprar briga porque o setor é
sempre governista. Mas o fato é que a prova é uma vergonha.
- Uma vergonha técnica;
- Uma vergonha ideológica;
- Uma vergonha pedagógica;
- Um crime contra a educação brasileira.

Mostra-se inteira a propalada competência do Ministério da Educação. O
Enem não prova nada. Se o exame fosse substituído por um mata-burros,o
resultado não seria muito diferente. Elaborado pelo consórcio
Cesgranrio-Cesp (UnB), ele nada tem a ver com a grade vigente tanto no
ensino público como no ensino privado, onde a carga horária maior, com
justiça, recai sobre língua portuguesa e matemática. A prova do Enem é,
para ser genérico, de “Estudos Sociais”. Sabem quantas questões há,
digamos, próximas da gramática? A pergunta tem de ser feita no singular
para resposta idem: UMA. Sabem quantas questões poderiam ser
consideradas de matemática? Quatro. E, ainda assim, uma matemática
corroída pelo proselitismo vagabundo.

Redação
Naquela entrevista que concedeu à revista VEJA há 11 anos, o poeta Bruno
Tolentino, morto em 17 de junho, decidiu que um de seus filhos não
estudaria no Brasil. Segundo ele, não queria uma escola em que Caetano
Veloso fosse considerado alta literatura. Bruno era muito exigente. O
tema de redação deste ano traz como inspiração uma letra do grupo
Engenheiros do Hawaii, outra dos Titãs e o fragmento de um texto da ONU.
No caso dos Engenheiros, há versos inspirados como “todos iguais, todos
iguais mas uns mais iguais que os outros”. Os Titãs emendam: “Todosos
homens são iguais/ são uns iguais aos outros, são uns iguais aos
outros”. E a ONU arremata: “Fonte de intercâmbios, de inovação e de
criatividade, a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão
necessária como a diversidade biológica para a natureza”.

Aí propõe o examinador:
Todos reconhecem a riqueza da diversidade no planeta. Mil aromas, cores,
sabores, texturas, sons encantam as pessoas no mundo todo; nem todas,
entretanto, conseguem conviver com as diferenças individuais e
culturais. Nesse sentido, ser diferente já não parece tão encantador.
Considerando a figura e os textos acima como motivadores, redija um
texto dissertativo-argumentativo a respeito do seguinte tema “O desafio
de se viver com a diferença”

Não é uma proposta de redação, mas um teste ideológico. Um dos meus
sobrinhos, filho da minha irmã, fez a prova: “Mandei ver, tio. Falei que
índio praticar infanticídio é uma diversidade que eu não respeito”. E
eu: “Cara, você fez isso? Então já se danou (eu empreguei outro verbo,
confesso...)” E ele: “Claro que não, né, Tio? E eu sou besta? Tava na
cara que era para elogiar a diversidade. Era uma prova petista do começo
ao fim. Escrevi tudo o que eles queriam ler". Sábio rapaz. Já percebeu a
semente do estado policial.

Mistificação paulo-freiriana
Há muito tempo a patrulha paulo-freiriana e adjacências vêm forçando a
mão sobre os vestibulares — que exigiriam o conhecimento em disciplinas
estanques. Aí o Enem faz o quê? Sem que as escolas tenham mudado (mantêm
professores especialistas, felizmente), o governo aplica uma prova
supostamente “interdisciplinar”. Há, por exemplo, sete questões que
poderiam ser consideradas de “interpretação de texto” não fossemaior o
propósito de marcar uma posição ideológica do que o de testar o
entendimento do que está escrito.

Sabem aquele papo do “saber integral”? Então. Um texto sobre canavieiro
serve a questões de estudos sociais, interpretação de texto, geografia,
química, biologia e, bem..., matemática!!! Vejam que gracinha.
Informa-se, por exemplo, que um cortador de cana ganha R$ 2,50 por
tonelada e que, por dia, ele corta oito toneladas. Aí, então, o
estudante é chamado a fazer uma conta. Leiam a questão quatro:

Considere-se que cada tonelada de cana-de-açúcar permita a produção de
100 litros de álcool combustível, vendido nos postos de abastecimentoa
R$ 1,20 o litro. Para que um corta-cana pudesse, com o que ganha nessa
atividade, comprar o álcool produzido a partir das oito toneladas de
cana resultantes de um dia de trabalho, ele teria de trabalhar durante
A - 3 dias.
B - 18 dias.
C - 30 dias.
D - 48 dias.
E - 60 dias.

Fez a conta, Mané? É isso aí. É a matemática achada na rua. O estudante
tem de concluir que o cortador é uma pobre vítima desse capitalismo
podre. Afinal, precisaria trabalhar 48 dias para comprar o combustível
que o seu trabalho “produzira” em um!!! Como a gente sabe, cana nasce
como mato, certo? Não é preciso preparar a terra, adubar, plantar,
financiar o plantio, a colheita, a produção, o transporte até a usina,
cuidar da parte industrial, ter laboratório de pesquisa, transportar
depois o produto final, nada disso. É chegar, passar o facão naquele
"mato" e ver escorrer o álcool. Trata-se apenas de uma estupidez. Ah,
claro, vocês sabem: a diferença entre os R$ 20 (R$ 2,50 X 8) que o
cortador ganha por dia e os R$ 960 que rendem em álcool as oito
toneladas que ele cortou (R$ 1,20 X 100 X 8 = R$ 960) deve ser o que o
marxismo chulé brasileiro chama "mais-valia"...

E como uma coisa puxa a outra, ainda ligado ao tema, temos, então, a
questão 7, de interpretação de texto, notavelmente casada com a questão
quatro, que seria de matemática. Oferece-se, então um mau poema de
Ferreira Gullar para uma questão que beira um teste de demência:

O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
[dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
(...)
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

A antítese que configura uma imagem da divisão social do trabalho na
sociedade brasileira é expressa poeticamente na oposição entre a doçura
do branco açúcar e
A - o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar.
B - o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca.
C - o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se produz o açúcar.
D - a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale.
E - o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras.

Entenderam? A prova é toda ela feita desses encadeamentos — leiam o
original. Trata-se de um exame temático — biocombustíveis, aquecimento
global, respeito às diferenças e um pouco de, sei lá, saneamento talvez.
Esses assuntos pautam todas as questões, a larga maioria, acreditem, no
campo do que, no meu tempo, se chamava geografia — não a física, mas a
humana. Convenham: não dá pra brincar de luta de classes na geografia
física, a menos que se proponha a revolta da planície contra o Planalto
— o que não seria má idéia, se é que me entendem...

Vamos falar um pouco de história? Aí vem este texto: “Após a
Independência, integramo-nos como exportadores de produtos primários à
divisão internacional do trabalho, estruturada ao redor da Grã-Bretanha.
O Brasil especializou-se na produção, com braço escravo importado da
África, de plantas tropicais para a Europa e a América do Norte. Isso
atrasou o desenvolvimento de nossa economia por pelo menos uns oitenta
anos.” É de Paul Singer, economista petista e auxiliar de Lula .

É evidente que não é proibido usar texto de um auxiliar do Apedeuta.
Ocorre que o que vai acima não é história, mas ideologia. No caso,
marxismo — expresso de forma explícita, para quem conhece, no trecho
destacado em vermelho. Os “oitenta anos”, com a devida vênia, sãopuro
chute. Não há um modelo para medir isso. Até meados do Segundo Império,
o Brasil não ficava a dever aos EUA. As coisas degringolaram depois.
Quando se trata de debater a escravidão, o texto de referência é doe
militante negro Kabengele Munanga, um professor da USP com graduação em
Antropologia Cultural na Universidade Oficial do Congo.

As escolas e o Enem
Muito se debate a melhoraria da escola pública brasileira. Nos últimos
tempos, o discurso oficial fala na “revolução da qualidade”. A prova do
Enem evidencia de que qualidade se está falando. É perfeitamente
possível ter um desempenho apreciável no exame sendo um idiota em língua
portuguesa, matemática, história, geografia, geometria, biologia,
física, química...

Se o sujeito for razoavelmente alfabetizado, ele só precisa demonstrar
que é uma “boa pessoa” e que defende as mesmas causas abraçadas, ao
menos no discurso oficial, pelo regime. Basta, em suma, ser
politicamente correto, amando a natureza, os pobres, a igualdade, o
planeta e as diferenças culturais (quem sabe o infanticídio
ianomâmi...). E, acima de tudo, é preciso odiar a injustiça social.
Ainda que seja incapaz de dizer quanto é 9 vezes 7. Afinal, vocês sabem:
aula de matemática agora serve à liberdade. Depois da "etnomatemática",
temos a "etanol-matemática"... No caso da geografia, não é preciso mais
ensinar a ver uma mapa ou a ler uma escala. Basta discutir cotas raciais
e textos do professor Munanga.

O desempenho no Enem serve para selecionar alunos para o ProUni, que
chamei ontem aqui de “supletivização” do ensino universitário. O exame,
leiam lá, faz a apologia da ignorância militante. Com um pouco de
concentração, Lula acerta as 63 questões. E isso prova do que estamos
falando.

Só pra lembrar e encerrar
Naquele vídeo que postei aqui sobre o 3º Congresso do PT, a mocinha fala
que não basta chegar ao poder para mudar a sociedade; é preciso, diz,
mudar a sociedade para chegar ao poder. Não há dúvida de que há uma
mudança em curso. Noto que a cerviz de muitos já está vergada. Maisum
pouco, começaremos a usar os nossos membros dianteiros para correr com
mais agilidade.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007


Retirado de
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/


Recebi de "Milton Naranjo"

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Fa
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"Binóculo é aquele instrumento que tem dois olhos numa ponta e
a janela da vizinha na outra." - Max Nunes
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