Eu conheço alguém quase assim, que só existe socialmente graças à Internet e à 
sua paixão por bacalhau... :-)

[]s
Sandro Campos Mancini

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  From: AKA 
  To: [EMAIL PROTECTED] ; [email protected] 
  Sent: Monday, November 12, 2007 9:35 AM
  Subject: [gl-L] A auto-reclusão dos japoneses - Veja


  tem doido para tudo


  ---------- Forwarded message ----------


  A auto-reclusão dos japoneses
  De costas para a vida

  Quem são os hikikomoris, jovens japoneses
  que se recusam a sair de casa e chegam a ficar
  até vinte anos trancafiados no quarto

  Thaís Oyama, de Tóquio

  Paulo Vitale

  PRISIONEIROS DE SI PRÓPRIOS
  80% dos hikikomoris são homens, metade tem mais de 30 anos e quase
  todos se isolaram depois de experimentar pequenos fracassos

  Kazutaka Tashiro tinha 32 anos quando brigou com seu chefe e abandonou
  o emprego que tinha como instrutor de mergulho em uma escola de
  Tóquio. Por um ano, viveu só de bicos, pintando paredes. Ao final
  desse período, algo que ele não sabe definir aconteceu: "Um fio dentro
  de mim se quebrou". Tashiro cortou relações com o mundo. Parou de
  trabalhar, de falar e de sair de casa. Trancou-se em seu quarto e lá
  permaneceu por dois anos sem nem sequer abrir a janela. O pai, com
  quem ele morava, depois de algum tempo não suportou a situação: vendeu
  a casa e deu ao filho parte do dinheiro, dizendo que, se ele quisesse
  continuar vivendo daquele jeito, que fosse viver sozinho. Tashiro,
  então, alugou um pequeno apartamento – onde continuou sua reclusão por
  mais oito anos: dormindo durante o dia, montando quebra-cabeças à
  noite e saindo para comprar comida de madrugada, de modo a não ser
  visto por vizinhos e não ter de falar com ninguém.

  O governo japonês estima que existam entre 600 000 e 1 milhão de
  pessoas como Tashiro no Japão. Os hikikomoris, termo que significa
  "pessoas reclusas" ou "isoladas da sociedade", são, em 80% dos casos,
  homens. Metade deles tem mais de 30 anos, e quase todos registram, no
  período anterior ao início do enclausuramento, um fracasso de alguma
  ordem: perderam a namorada, falharam na tentativa de entrar na
  faculdade, foram demitidos do emprego. "O gatilho que aciona esse
  comportamento varia enormemente, mas a sensação de não conseguir
  corresponder à expectativa da família ou da sociedade está sempre
  presente no hikikomori", diz o psiquiatra Tamaki Saito, criador do
  termo que serve para designar tanto o distúrbio quanto a pessoa que
  sofre dele. Até o início dos anos 90, não se falava em hikikomoris no
  Japão. Embora haja registros da existência deles desde os anos 70, só
  passaram a chamar atenção no fim da década de 90 – não por
  coincidência, o período em que a recessão e o desmantelamento do
  tradicional regime de trabalho japonês, aquele do emprego garantido e
  praticamente vitalício, produziram hordas de jovens sem trabalho fixo.
  Numa sociedade influenciada sobremaneira pelo confucionismo, em que o
  estudo e o trabalho são valores supremos, esses jovens se
  transformaram numa nova espécie de pária, condição em que muitos
  hikikomoris de fato se encaixam. "É como se eles fossem peças que não
  passaram pelo controle de qualidade", afirma o publicitário Masayuki
  Okuyama, cujo filho, Yoichi, se tornou recluso aos 15 anos. Nessa
  idade, ele parou de ir à escola. Mais tarde, deixou de sair de casa.
  Tempos depois, começou a atacar fisicamente os pais. Por mais de uma
  vez, Okuyama teve de chamar a polícia para contê-lo ou foi obrigado a
  dormir com a mulher em um hotel, para escapar das suas agressões. Há
  três anos, o publicitário tomou a decisão de expulsar o filho de casa.
  Hoje, Yoichi tem 28 anos, vive em um apartamento comprado pelos pais e
  não mantém nenhum contato com eles. "Eu não tinha outra opção. Havia
  violência na minha casa", diz Okuyama.

  Paulo Vitale

  DE JANELAS BEM FECHADAS
  Kazutaka Tashiro (na foto, ao lado das cartas que ajudaram na sua
  recuperação) ficou sem sair de casa por dez anos, dois dos quais viveu
  encerrado no quarto, sem abrir as janelas. Ele conta que passava dias
  e noites na penumbra, montando quebra-cabeças e jogando videogame. O
  pai deixava as refeições para ele atrás da porta. "Eu sabia que
  precisava sair de lá, mas não conseguia"

  Mesmo nas situações que não envolvem agressão física, o publicitário
  acredita que afastar o hikikomori dos pais pode ser a única opção para
  ele. "Há famílias que mantêm filhos nessa situação por quinze ou mesmo
  vinte anos. No fim, eles acabam se transformando em bichos de
  estimação que você alimenta três vezes por dia. Mandá-los embora,
  muitas vezes, é a única forma de forçá-los a voltar à vida." Okuyama
  diz, no entanto, ressentir-se do fato de que, no período em que Yoichi
  atravessava sua pior fase, a família não encontrou ninguém a quem
  pudesse pedir orientação. Foi pensando nisso que ele fundou há dois
  anos a Associação de Pais de Vítimas de Hikikomori. A organização já
  reúne 10 000 pessoas em todo o Japão, e seu criador considera o número
  ainda pequeno. "Não faz parte do estilo japonês procurar ajuda. As
  pessoas preferem esconder a situação com medo do que os vizinhos vão
  dizer", afirma.

  O governo do Japão demorou a acordar para o problema. Só no ano
  passado é que programas de apoio aos hikikomoris passaram a funcionar
  de forma sistemática na rede pública. Além de serviços de
  aconselhamento de pais e oferta de estágio em empresas visando a
  reintegrar os hikikomoris ao trabalho, o governo criou postos de
  consulta voltados exclusivamente para tratar do assunto: são cinqüenta
  unidades instaladas em 26 províncias do país. No ano passado, esses
  postos atenderam 35 000 pessoas – em sua maioria, familiares de
  hikikomoris, já que os próprios raramente vão à procura do serviço.
  Neste ano, entre os meses de abril e julho, o número de consultas
  subiu para 38 000 – o equivalente a apenas 6% do contingente mínimo
  estimado de doen-tes. Bem à frente das ainda tímidas iniciativas
  governamentais estão algumas ONGs especializadas no assunto. A New
  Start, por exemplo, criou as "irmãs de aluguel": estudantes de
  psicologia, artes e outras matérias que, contratadas para visitar
  hikikomoris em sua casa, têm como missão arrancá-los de lá – e, mais
  tarde, integrá-los aos programas de lazer e capacitação de emprego que
  a entidade mantém. Foi por meio de uma dessas "irmãs de aluguel" que
  Kazutaka Tashiro saiu de sua reclusão de dez anos. Quando o dinheiro
  que recebeu do pai acabou, a ponto de ele não ter mais como comprar
  comida, Tashiro pensou em suicidar-se. Chegou a subir no parapeito da
  janela de seu quarto. Desesperado, decidiu pedir ajuda à mãe, que, por
  sua vez, procurou a New Start. A partir daí, uma "irmã de aluguel"
  passou a mandar cartas e postais a Tashiro. No começo, ele mal os
  abria. Foi só depois de oito meses de correspondências insistentes que
  ele concordou em receber uma visita da "irmã". Hoje, considera-se
  recuperado e trabalha ele próprio como funcionário da New Start,
  ajudando na recuperação de outros hikikomoris. Sua história é uma das
  raras com final feliz. A taxa de recuperação entre os portadores do
  distúrbio, segundo especialistas, não chega a 30%.

  Paulo Vitale
  O SEU TORMENTO É O
  MEU TORMENTO
  O filho adolescente do publicitário Masayuki Okuyama decidiu
  trancafiar-se em casa aos 15 anos. Permaneceu assim por quase dez
  anos, até que começou a agredir os pais. Depois de ver a mulher ser
  espancada, Okuyama expulsou o filho de casa. Hoje, dedica-se a uma
  associação destinada a dar aos pais de hikikomoris o apoio que ele não
  teve

  Seriam os hikikomoris um produto exclusivo da competitiva sociedade
  japonesa? O psiquiatra Saito não acredita nisso. Ele conta que, há
  cinco anos, uma equipe da BBC, rede inglesa de televisão, esteve no
  Japão para produzir uma reportagem sobre o assunto. Quando o programa
  foi ao ar, a emissora recebeu dezenas de telefonemas de espectadores
  dizendo ter problema parecido na família. "Na Coréia do Sul e na
  Itália também há pessoas em situação semelhante. Recebo muitos e-mails
  de lá", afirma Saito. "Todo país tem jovens com dificuldades de
  adaptação." Mas há uma diferença. Para o jornalista Yutaka Shiokura,
  autor do livro Hikikomori, a juventude enfrenta uma realidade mais
  perversa no Japão: "A sociedade japonesa não tem espaço para as
  diferenças – é como um trem de um único vagão. Quem não consegue
  embarcar nele fica na plataforma para o resto da vida".

  Postado por Artigos às 12:20 AM

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