Do Financial Times, hoje:

13/11/2007
Greve dos roteiristas: Hollywood precisa de resposta criativa para evitar final 
triste

Stefan Stern

O Writer's Guild of America (WGA), sindicato de roteiristas dos EUA, alcançou 
algo que, até agora, se provara além dos poderes dos piores criminosos e 
terroristas sanguinolentos do mundo. Eles pararam o relógio de Jack Bauer.

Bauer, interpretado por Kiefer Sutherland, é herói da série de aventura de 
televisão "24", que mostra em "tempo real" como as forças de segurança 
americanas lutam para salvar o mundo de atos criminosos. O drama se desenrola 
durante um dia literalmente incrível de desastres e quase desastres, enquanto 
um relógio na tela marca o tempo.

Cada uma das seis temporadas anteriores de "24" foram feitas de episódios de 24 
horas. Mas a estréia da sétima temporada -um terço da qual já foi filmado- foi 
adiado pela greve feita pelo WGA.


       
      Membros da Writers Guild of America fazem greve diante dos estúdios da 
Paramount 


A Fox, produtora do programa, decidiu adiar a transmissão desse "sétimo dia", 
que deveria começar no início do ano, pois não quer interromper a série depois 
de começada. Se não houver roteiro, não haverá programa. E não há sinal algum 
de que um dinâmico terceiro partido va surgir para atravessar as janelas 
corporativas e resolver a briga entre estúdios e roteiristas.

A briga é em relação a dinheiro, é claro, mas também sobre princípios. Os 
roteiristas argumentam que não estão sendo adequadamente compensados por todo o 
material extra que hoje produzem -para DVDs, episódios da Web e similares. Eles 
também alegam que deveriam estar recebendo maior participação da receita que os 
produtores agora estão recebendo com as vendas de DVDs e com propaganda on-line.

Os estúdios apontam para um acordo feito após a última grande greve, em 1988, 
quando o sindicato dos roteiristas parou de trabalhar por 22 semanas. Depois, 
admitiu-se que os roteiristas tinham direito a uma pequena percentagem do preço 
das vendas de vídeos. Os dois lados vinham convivendo mais ou menos em paz, até 
o final do mês passado, quando um acordo expirou. Agora, porém, as canetas 
foram tampadas e os laptops fechados.

De certa forma, essa é uma história clássica de patrões contra sindicato, com 
os dois lados lutando com as conseqüências de novas tecnologias e as mudanças 
na demanda dos consumidores. Mas também oferece um caso de estudo interessante 
em outro dilema cada vez mais comum: como lidar com esses sujeitos criativos 
difíceis.

Em um mundo no qual, aparentemente, hoje somos todos "talentos" e onde 
"trabalho de conhecimento" detém a chave de riquezas, uma gangue de roteiristas 
prima-donas é meramente uma versão mais extrema do tipo de força de trabalho 
que muitos administradores têm que lidar.

Neste caso, porém, as histórias são antigas. Em Hollywood, a briga entre 
roteiristas e produtores sempre foi feroz. Na era das máquinas de escrever 
manuais, conta-se que um chefão do estúdio esperava do lado de fora da sala dos 
roteiristas, ouvindo o som vigoroso da datilografia. Se jamais a sala ficasse 
em silêncio, ele imediatamente entrava e questionava: "Por que vocês não estão 
escrevendo?!" Esse aspecto da era de ouro de Hollywood permanece, perfeitamente 
reproduzido no memorando enviado para a equipe da EMI pelo diretor da Terra 
Firma, Guy Hands, no final do mês passado. "Trabalhem mais, se não...", foi o 
que entenderam alguns artistas da firma.

Os roteiristas são bucha de canhão. Na comédia dramática (agora eliminada) de 
Aaron Sorkin, "Studio 60 on the Sunset Strip" -uma série que era uma homenagem 
ao ramo de escrever para a televisão- um veterano se lembrou da brutalidade do 
trabalho nos programas de comédia ao vivo em sua era de ouro.

Era conhecida como a "matança da sexta-feira à noite", explicou, referindo-se 
aos últimos minutos de cortes nos materiais para formar a programação final. 
"Antigamente", disse ele, "se o seu esquete não entrasse no ar, eles o mandavam 
pelado lá em baixo vender limonada. Vestido apenas com o seu fracasso, você 
tinha que explicar por que não era bom o suficiente."

Os roteiristas merecem compensação justa por seu trabalho. Mas devem tomar 
cuidado com o que desejam. Com um aumento nos custos de produção, os produtores 
acharam o charme da televisão de realidade barata irresistível. Alguns 
roteiristas trabalhadores e produtivos ainda podem nos salvar de "Help! My Boob 
Job is Killing Me!", ou o que quer esteja no cenário para a programação de 2008.

Só o que estou dizendo é para dar aos criadores uma chance. (Pedido especial? 
Muito bem, então, pedido especial.) Mas veja o que podem fazer por você quando 
têm essa chance. No início dos anos 50, a NBC reuniu uma equipe de roteiristas 
-Woody Allen, Mel Brooks, Larry Gelbart, Carl Reiner e Neil Simon- para criar 
"Your Show of Shows", de Sid Caesar. O programa dominou as transmissões por 
anos e lançou uma nova geração de atores.

Era uma equipe de rara capacidade, mas também foi um modelo de colaboração 
altamente produtiva (e às vezes abrasiva). Como Neil Simon explicou: "Ia para 
casa assistir os programas e ria e ria, e minha mulher diz: 'Essa piada é sua, 
não é?' Eu respondia: 'Não sei'. Nunca sabíamos. Elas vinham tão rápido."

"There is no business like show business", como cantou Ethel Merman. Mas na 
"economia do entretenimento", todos nós temos que atuar. Ethel nos deu a 
missão: continuemos com o espetáculo! 

Tradução: Deborah Weinberg 

   http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2007/11/13/ult579u2295.jhtm

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