Capturado assassino do irmão de humorista da Globo 

Ao ficar frente a frente com o homicida, ator Cláudio Manoel demostrou toda a 
sua revolta


Marcelo Brandão

"Do fundo do meu coração, espero que você apodreça na prisão", desabafou o 
humorista Cláudio Manoel, o "seu Creysson" do Casseta e Planeta, ao ficar 
frente a frente com o assassino de seu irmão, o ex-detento Sidclay Costa Silva, 
23, preso ontem de madrugada, em Sergipe, por agentes da 7ª Delegacia (Rio 
Vermelho). Emocionado, fez um apelo para que as pessoas tomem cuidado ao se 
relacionar, independentemente de sua orientação sexual.

Mauro José Mascarenhas, gerente de documentação e pesquisa do Instituto de 
Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), foi encontrado morto a facadas no 
banheiro de seu apartamento, no bairro da Federação, dia 5 deste mês, horas 
depois de acertar um "programa" por R$50 com Sidclay, que mal acabara de 
conhecer em um restaurante do Porto da Barra. O humorista admitiu que seu irmão 
foi imprudente ao levar um desconhecido para sua casa, mas advertiu que "não 
podemos responsabilizar a vítima por um crime monstruoso".

O ator falou sobre o sofrimento da família, principalmente de sua mãe, que na 
segunda-feira completou 81 anos. "Fiquei com medo dela não agüentar a tristeza. 
Já é difícil para mim, imagine para ela", desabafou. Mesmo emocionalmente 
abalado, atendeu pessoas que foram a seu encontro na delegacia e fez questão de 
abraçar, um a um, todos os agentes que se empenharam para a captura do 
assassino, destacando o trabalho do comissário Paulo Portela e da delegada 
Maria Dahil.

Prisão - A polícia conseguiu localizar o homicida em Aracaju, na madrugada de 
ontem, depois de rastrear as ligações do telefone da vítima com autorização 
judicial, tendo flagrado uma ligação para o celular de um amigo do acusado. 
Segunda-feira à tarde, policiais do Serviço de Investigação da 7ª DP 
localizaram o proprietário do telefone, no município de Jaguaripe, distante 
240km de Salvador.

Essa pessoa, que teve o nome preservado, contou para os agentes que apenas 
emprestou seu CPF para Sidclay comprar um chip de celular. Ele disse ainda que 
não sabia o paradeiro do ex-detento, mas levou a equipe ao encontro de um 
cunhado dele, o vendedor ambulante Paulo César Almeida, que vende milho verde 
no bairro da Piedade.

Paulo César, que já tinha sido roubado pelo ex-detento anteriormente, levou os 
policiais até a casa de sua mãe, no Bairro Industrial, em Aracaju, onde Sidclay 
foi preso, por volta das 6h de ontem. Em seguida, os agentes retornaram a 
Salvador, conduzindo o assassino para a 7ª DP, depois de cerca de 24 horas 
consecutivas de diligência policial e mais de 600km percorridos.

Latrocínio - Ao prestar depoimento, o homicida contou que manteve relação 
sexual com Mauro José e que o matou porque ele se negou a pagar. Acrescentou 
que se desentenderam por ter se recusado a atuar como passivo. Mas a delegada 
Maria Dahil Sá Barreto, titular da 7ª Delegacia (Rio Vermelho), acredita em 
latrocínio (roubo seguido de morte), por ter o acusado roubado pertences da 
vítima. Com antecedentes criminais por furto, tendo passado três meses no 
Presídio de Salvador, Sidclay disse ter conhecido a vítima horas antes ao 
crime, num bar situado no Porto da Barra.

Revelou que conheceu Mauro José no Bar Macau, no Porto da Barra, onde acertaram 
o "programa", seguindo para seu apartamento, no Condomínio Vereda do Bosque, 
localizado na Rua Pedro Gama, fim de linha da Federação. O ex-detento disse que 
beberam duas garrafas de vodca e depois fizeram sexo. Mas acabaram se 
desentendendo depois.

Acrescentou que Mauro José pegou a faca de cozinha para atacá-lo e os dois 
entraram em luta corporal, mas a polícia não acredita nesta versão, pois não vê 
sentido em a vítima ter tentado matá-lo dentro do próprio apartamento. Além 
disso, o fato de ele não apresentar marcas no corpo, enquanto Mauro sofreu 
várias facadas e apresentava hematomas, enfraquece sua história.

Depois de matar Mauro José, Sidclay roubou o celular e o aparelho de DVD dele, 
revistou guarda-roupas e móveis à procura de valores e fugiu. Ele alegou que 
jogou o DVD no Dique do Tororó, mas a polícia acredita que tenha vendido ou 
passado para algum comparsa. No dia seguinte, retornou a Sergipe.

Jornal Correio da Bahia - Aqui Salvador 




 GGB vê 'estado de calamidade pública' 


Somente neste ano, 14 homossexuais foram assassinados no estado, a maior parte 
em Salvador. A média anual fica entre 20 e 25 mortes, todas de natureza 
violenta. Os dados são do Grupo Gay da Bahia (GGB) e, segundo o presidente da 
entidade, professor Marcelo Cerqueira, 36 anos, configuram "um estado de 
calamidade pública". Afinal, para ele, os crimes que têm gays como vítimas são 
motivados unicamente pelo preconceito e, independentemente da motivação 
apresentada, são impulsionados pelo ódio e pela discriminação. 

Nem mesmo o alegado comportamento de risco atribuído ao homossexual masculino - 
quase sempre assassinados por parceiros eventuais - pode explicar o quadro, 
enfatiza Cerqueira. "Quantos heterossexuais levam pessoas que acabaram de 
conhecer para dentro de casa?", questiona. "Todos nós conhecemos homens e 
mulheres que saem com prostitutos", argumenta, "mas, quantos deles são 
assassinados barbaramente como acontece com o gay?", desafia.

Confessando seu desalento, ante a impunidade associada a esses crimes, ele 
sequer diz ter comemorado a prisão, ontem, do ex-detento Sidclay Costa Silva, 
23, autor confesso do assassinato de Mauro José dos Santos, 46, gerente do 
Irdeb. Para ele, a elucidação do caso foi meramente casual e não resultado de 
uma investigação efetiva.

Como forma de reverter a impunidade, gerada por inquéritos policiais 
inconsistentes e processos recheado de falhas (inclusive no que se refere a 
provas periciais), Cerqueira propõe a criação de um foro especial para conduzir 
casos dessa natureza. Na sua opinião, órgãos como a Secretaria Municipal de 
Reparação Social e a Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos 
poderiam instituir núcleos voltados para a questão.

Afinal, observa, "a intervenção do estado, como instituição, além de reduzir a 
impunidade poderia contribuir para mudar o olhar da sociedade para com o 
homossexual". Em outras palavras, conclui Cerqueira, essa seria uma forma de 
dar ao gay assassinado o status de vítima e não de co-autor do próprio crime, 
como ocorre hoje.

Jornal Correio da Bahia - Aqui Salvador 

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