Oi

Você desconfia?


Praticando a desconfiança: um guia prático


Com que freqüência você duvida das coisas que ouve? Seja dos amigos, dos 
seus professores, mãe e pai, televisão, jornal, revista e dos blogs que 
lê - quantas vezes você termina de ouvir ou ler algo e se questiona se 
tudo aquilo é verdade? Você tem por hábito procurar informações que 
contradigam as coisas em que você acredita desde sempre? Acha que isso é 
loucura?

Provavelmente a maioria das pessoas pensa que é confortável - e até acha 
correto, em certos aspectos - se acomodar em uma opinião. Sempre me 
disseram que acreditar em algo e defender aquilo é ter personalidade 
forte, caráter, não ser volúvel e nem influenciável.

Mas de alguns anos para cá, por influência da faculdade de jornalismo e 
do exercício da profissão, eu adquiri um novo conceito sobre o que é ter 
‘personalidade forte’ (se é que isso é importante). Eu sou, com muito 
orgulho, uma pessoa altamente flutuante nas minhas convicções.

Quero dizer o seguinte: eu desconfio. Eu desconfio de tudo o que ouço, o 
que vejo, o que leio. Tenho por hábito a desconfiança. E ela é 
fundamental para que possamos entender que todas as estórias têm faces 
que que dificilmente serão exibidas se você não se der ao trabalho de ir 
buscá-las.

Quando eu percebo que há um interesse genuíno de alguém ou algo em me 
influenciar a acreditar em algo, acendo o duplo alerta da desconfiança. 
Se eles querem que eu acredite, então existem ainda mais motivos para 
duvidar.

Eu duvido pelo prazer de questionar aquilo em que eu mesma acredito. E 
depois duvido da dúvida que eu criei. Eu duvido das pessoas e apresento 
para elas, com freqüências, argumentos contrários ao que elas acreditam, 
e perfeitamente plausíveis, pelo prazer de ver a cabeça delas dando um 
nó. É uma espécie de hobbie cruel e sádico. Eu duvido às vezes sem 
concordar de fato com a dúvida que surgiu, só porquê acho fundamental 
que todo mundo se questione todos os dias sobre suas convicções, sempre. 
Desde muito tempo, às vezes tenho a nítida sensação de que é para isso 
que estou aqui: fazer com que as pessoas se perguntem sobre o que elas 
acreditam.

Gostou da idéia, mas não sabe por onde começar? Confira as regras de 
ouro da desconfiança para uma vida mais crítica e questionadora (e um 
pouco mais complicada, mas sem dúvida mais divertida):

     * Regra de Ouro da Desconfiança #1: quanto mais presente um assunto 
estiver nas manchetes e na boca do povo, mais desconfiado dele você deve 
ficar.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #2: se você perceber que estão 
tentando te convencer de algo sem que isso lhe seja dito diretamente, 
você tem aí o principal motivo para não se convencer desse algo.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #3: vídeos e aspas não provam nada. 
Pessoas mentem, erram, são imprecisas e suas declarações podem ganhar 
teor diferente em diferentes contextos.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #4: o Google é seu melhor amigo.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #5: Fique longe da Veja.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #6: Sério. Fique longe da Veja. E 
nem é discursinho pronto de estudante, ok? Não vou dizer ‘a Carta 
Capital sim é boa’, aliás nem tenho saco para a Carta Capital. Apenas 
fique longe da Veja. A revista é nojenta.

     * Regra de Ouro da Desconfiança #7: Espalhe a semente da 
desconfiança. Conteste as convicções das pessoas ao seu redor por 
esporte. Mas faça tudo parecer uma grande brincadeira em uma dicussão 
saudável. Não queremos que você afaste as pessoas, não é?

Apenas fique atento para fugir da armadilha do niilismo. Não é negócio 
duvidar da própria existência, até porquê um autêntico duvidador tem a 
certeza de que duvida, e se duvida, logo existe.

Para todas as coisas existem não dois, mais muitos lados. E vai ser 
muito difícil percebê-los se a gente se acomodar nas coisas que 
acredita, que a gente lê na Veja, que o jornal nos diz. Duvidar não é 
algo simples de se fazer, porque dá um trabalhão, claro - é mais fácil 
engolir as coisas como estão, prontinhas. Mas eu acho que vale a pena.

De qualquer forma, você já pode começar duvidando desse texto.

Ana Paula Freitas


Retirado de
http://olhometro.com/2008/10/23/praticando-a-desconfianca-um-guia-pratico/


Recebi a dica de "João Sérgio"
-- 
Beijins
Fa
----------------------------------------------------------------
"O dinheiro não é tudo. Mas quando você tem muito dinheiro,
ninguém te chama "Hei, você aí!" - Millôr Fernandes
----------------------------------------------------------------
no mail with banners


Responder a