Ubaldo solta o verbo em livro político
Um dia antes da eleição, ele lança o ácido A Gente se Acostuma a Tudo
Antonio Gonçalves Filho
Por sua franqueza política, João Ubaldo Ribeiro < http://tinyurl.com/h6u7j> pode ter seu sigilo bancário quebrado a qualquer momento, mas isso provocará, segundo ele, frouxos de riso nos bisbilhoteiros. Ele tem a consciência e a conta bancária limpas, mas não pode falar o mesmo dos políticos. Já disse, por exemplo, que o governo demonstrou não ser digno de confiança, que o chefe do Executivo é um fanfarrão, oportunista, enganador, demagogo, evasivo, cara-de-pau e ardiloso, mas ainda há quem - por incrível que pareça - não leia suas crônicas publicadas aos domingos no caderno Cultura do Estado. Como o acadêmico baiano é insistente, um dia antes das eleições, ele resolveu dar mais uma chance aos leitores: acaba de lançar o livro A Gente se Acostuma a Tudo < http://tinyurl.com/jk8yv> (Ed. Nova Fronteira, 224 págs.).
Como o próprio título indica, o livro fala do Brasil, que se acostumou com presidentes alienados, corrupção, balas perdidas, narcotráfico, seqüestros e menores abandonados. São 48 crônicas publicadas no Estado e no Globo desde que Lula, o metalúrgico, foi a candidato a presidente nas últimas eleições. Se o livro saiu político demais, João Ubaldo pede desculpas, mas não pretendia ocupar o lugar dos cronistas da área. 'Gostaria de não ter escrito o que escrevi, mas como democrata, me sinto obrigado a falar dessas coisas.'
Para o poeta Ferreira Gullar, crítico que empurrou o Brasil para a modernidade ao redigir o Manifesto Neoconcreto em 1959, João Ubaldo, mais que um cronista, é um educador. 'Sei que ele vai soltar uma de suas gargalhadas ao ler isso, mas sabe que tenho razão, ele educa, a começar por sua franqueza, que muito nos ensina', escreve Gullar no prefácio do livro. Nele, o leitor vai encontrar denúncias contra falcatruas, impostos provisórios que viraram permanentes (leia-se CPMF), promessas de políticos e, principalmente, a palavra sincera de um homem cuja independêndia ideológica incomoda direita e esquerda, centro e periferia.
'Não tomei partido expresso de ninguém nessas eleições, não sou porta-voz de políticos e não obedeço a palavras de ordem', diz Ubaldo. 'Sou apenas um brasileiro consciente', conclui, condenando o descaramento de quem insiste em ignorar um problema grave de ordem moral, o de 'saber que o presidente sabia de tudo e mesmo assim não liga para isso, votando nele outra vez'.
Loucura e falta de senso, aliás, parecem mesmo fazer parte do cardápio brasileiro, a julgar pelo encontro casual entre o cronista baiano e uma fã que mal sabia seu nome: 'O senhor não é o João Uvaldo Vieira?', perguntou a mulher. Acostumado a ser João Paulo de Oliveira, Ubaldo encarou o desafio de ingressar na família Vieira com bom humor. 'Ah, que alegria conhecer o senhor', continuou a fã leitora, desfiando o rosário: 'O resto do jornal só tem essas coisas horrorosas, mortes, balas perdidas, atentados, guerras, doenças novas.' Dito isso, recomendou a leitora: 'O senhor não deve nunca parar, deve sempre escrever assim, o senhor é um oásis.'
Manter essa condição de 'oásis', mesmo sem fazer jus a essa avaliação, diz ele, está cada vez difícil nesses tempos bicudos. 'Agora não se pode falar mal do Lula, porque tudo é golpe, mas ninguém foi tão rigoroso como na época do movimento Fora FHC', observa o escritor, um dos primeiros a apoiar o governo Lula - e também a se desiludir com o mesmo. 'A verdade é que, diante da falta de projeto e das falcatruas do mensalão, João Ubaldo acordou e, sem meias palavras, acabou com essa história de que quem nunca leu um livro sabe mais do que quem leu muitos', analisa Ferreira Gullar.
'Fui, realmente, um dos primeiros a apoiar Lula e um dos últimos a fazer críticas, algumas simpáticas, sem querer ofender, outras nem tanto.' O povo, diz ele, foi engabelado por cestas básicas e bolsas mil, enquanto as reformas que prometeu não vieram.
Assim, se o brasileiro não fosse obrigado a votar amanhã, certamente iria para a praia ou o piscinão para refrescar a cabeça e não ser obrigado a esse direito 'perfeitamente dispensável', segundo o escritor. Mudança de regime? 'Não sei se o parlamentarismo iria mudar alguma coisa', responde, cético, temendo que o futuro, no mundo globalizado, possa ser pior do que prevêem os 'mais pessimistas roteiristas e diretores de Hollywood' . Ubaldo gosta mesmo é de ex-presidentes. FHC não foi, na sua opinião, um bom presidente, mas é um ótimo ex-presidente, como Jimmy Carter. Lula, sem sombra de dúvida, segundo ele, 'já é um dos melhores ex-candidatos de nossa História'.
Se ele denuncia os erros com sarcasmo, explica Gullar, 'é porque sabe que sem a ética o convívio social se torna inviável'. O inconformismo de João Ubaldo é o mesmo de milhões de brasileiros que se sentem traídos. E devem protestar amanhã nas urnas.
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