CARLOS DE MEIRA MATTOS

A defesa de nosso país não pode deixar de merecer a maior atenção do futuro
governo, mas os candidatos têm preferido ignorá-la.



Neste período eleitoral em que tudo se discute, assistimos a um vazio sobre
a defesa nacional.

Será a preocupação com a defesa da nação uma questão tão insignificante que
não merece figurar nas preocupações de um estadista? Será que o Brasil, país
pacífico, por não estar enfrentando, no momento, nenhum conflito externo
mais grave, pode negligenciar a preparação de sua defesa para uma
eventualidade? Será que, neste mundo agitado por tantas ambições, conflitos
e guerras, estaremos imunes de ameaças ambiciosas sobre nossos imensos
recursos naturais improdutivos, dos quais os chamados "grandes" carecem?

"Nenhum estadista de bom senso pode ignorar a defesa de seu pais", proclama
o histórico pacifista Woodrow Wilson, famoso estadista internacional,
patrono e professor da Universidade de Princeton.

Não é possível ignorar que várias ameaças já manifestadas claramente pesam
sobre nossa soberania e nossa integridade territorial. Em favor da
globalização, do neoliberalismo e da política de mercados, inúmeras ONGs
européias e internacionais vêm aumentando a pressão sobre seus governos e
organismos internacionais com a tese "Amazônia, patrimônio da humanidade",
segundo a qual a região ser administrada por uma autoridade internacional.

Tal tese vem ganhando adeptos fervorosos entre instituições ambientalistas,
antropólogos, naturalistas, indigenistas da Europa e América do Norte. As
mais importantes, como a inglesa "Survive", já instalaram inúmeras agências
na Amazônia, onde, sob o pretexto de desenvolver programas científicos e
proteger as populações indígenas, fazem a pregação constante de sua tese de
internacionalização da região "no interesse da humanidade".

Vários chefes de Estado e autoridades estrangeiras já têm se pronunciado a
favor da tese da internacionalização da Amazônia, entre os quais citamos: o
ex-presidente da França François Mitterrand, o ex-presidente dos EUA Bill
Clinton, o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, Gorbatchov e membros da casa
real britânica.

Mais recentemente, o sr. Pascal Lamy, secretário-geral da Organização
Mundial de Comércio, declarou: "O Brasil precisa aceitar a soberania
relativa sobre a Amazônia". E, há poucos dias, o secretário do Meio Ambiente
do governo inglês, David Miliband, divulgou em Monterrey, no México, num
congresso internacional que reuniu representantes de 20 países, "um plano
para transformar a Amazônia em uma grande área privada administrada por uma
autoridade internacional". Garantiu que a proposta inglesa conta com a aval
do primeiro-ministro Tony Blair.

Outro perigo não declarado, mas que deve ser considerado pelo futuro
governo, é o desequilíbrio da antiga estabilidade militar sul-americana.

Novas situações vêm acontecendo nos países nossos vizinhos. Na Colômbia, uma
organização guerrilheira poderosa, as Farc, ligada ao narcotráfico, domina
uma parte do território e constitui constante ameaça nas nossas fronteiras;
no Paraguai, os Estados Unidos estão criando uma base militar; a Venezuela,
não se sabe para quê, acaba de comprar muitos milhões de dólares de material
de guerra ultramoderno, com o qual se transformará na maior potência militar
da América Latina; na Bolívia, um presidente despreparado e atrabiliário já
fez várias ameaças aos nossos interesses no país, desrespeitando acordos
solenemente firmados com governos anteriores.

São fatos, não suposições, que exigem de qualquer estadista chefe de governo
uma atenção vigorosa, o acionamento de órgãos de inteligência e uma
diplomacia ativa e atuante, capaz de defender os nossos interesses soberanos
antes que qualquer ameaça de agressão se concretize.

Mas, seguindo a lição do patrono do Itamaraty, o barão do Rio Branco, nas
crises graves, para que uma negociação diplomática tenha êxito, ela precisa
estar apoiada por um poder militar adequado. Em particular, no caso da
Amazônia, precisamos dispor de uma força militar de dissuasão estratégica,
do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, composta de efetivos e material
bélico apropriado à guerra na região, capaz de oferecer um custo alto a
qualquer aventura contra a nossa soberania. Essa força de dissuasão deve ser
equipada de material de fabricação nacional. Na hora da crise, não podemos
estar sujeitos aos embargos, à aquisição de material bélico estrangeiro.
Temos de revitalizar a industria bélica nacional, que foi abandonada pelos
últimos governos. Defesa nacional é dever inerente, inseparável da soberania
de qualquer Estado.

Esse é, numa visão atual, o quadro de defesa de nosso país, cuja política
não pode deixar de merecer a maior atenção do futuro governo, mas que os
atuais candidatos têm preferido ignorar -pondo em risco a nossa soberania.

CARLOS DE MEIRA MATTOS , 93, doutor em ciência política e general reformado
do Exército, é veterano da Segunda Guerra Mundial e conselheiro da Escola
Superior de Guerra.


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