O pai da crian�a
No come�o do m�s passado, resolvi comprar o novo livro escrito pelo
Linus Torvalds, "Just For Fun" (co-autoria com David Diamond, que o
convenceu a escrever o livro). Se existe algu�m que n�o sabe (e ainda assim
estaria lendo esta coluna - talvez meus pais!), Linus � o criador do Linux.
Aqui cabe um esclarecimento: "linux" se refere ao "kernel", um programa
carregado logo na inicializa��o da m�quina e respons�vel por criar uma
camada intermedi�ria entre o hardware e os outros aplicativos. O kernel
fornece ao restante do sistema fun��es para lidar com arquivos e
dispositivos, como abrir, ler, escrever etc. Al�m disso, no kernel ficam
drivers para dispositivos, suporte a diferentes sistemas de arquivo (o que
permite, por exemplo, acessar uma parti��o do MS Windows de dentro do Linux)
e mais uma s�rie de funcionalidades de "baixo n�vel". Essa � a parte do
sistema inicialmente desenvolvida pelo Linus, e atualmente desenvolvida por
um grupo coordenado por ele.
Quando dizemos que instalamos "Linux" em uma m�quina, na verdade
estamos instalando o kernel (o programa realmente chamado "linux"), mais uma
s�rie de aplicativos, como processadores de texto, navegadores, servidores
web ou de e-mail etc. Como n�o h� uma �nica empresa ou grupo por tr�s de
todas as partes, o conceito pode ficar um pouco confuso para quem vem de
sistemas operacionais propriet�rios. Especialmente porque, por comodidade,
normalmente chama-se o conjunto todo simplesmente de "Linux".
"Distribui��es de Linux", de forma geral, s�o grupos ou empresas que
juntam todas essas "pe�as" (kernel e aplicativos), desenvolvem mecanismos de
instala��o e gerenciamento de pacotes, eventualmente acrescentam melhorias e
distribuem (e/ou vendem) esse conjunto. H� uma enorme lista de distribui��es
no "Linux Weekly News", um excelente site de not�cias relacionadas a Linux.
Voltando ao livro: como acabara de ser lan�ado nos Estados Unidos,
imaginei que n�o chegaria aqui t�o cedo e fiz um pedido pela Internet. Dois
dias depois, recebi um e-mail da "Editora Campus" informando que eles j�
haviam lan�ado o livro no Brasil, traduzido, sob o nome de "S� Por Prazer",
e me oferecendo um exemplar! A tradu��o est� bem-feita, apesar de claramente
realizada por algu�m de outra �rea. Como o livro n�o � t�cnico, os equ�vocos
n�o comprometem a compreens�o do texto e proporcionam uma divers�o � parte.
Por exemplo, John 'maddog' Hall", presidente da "Linux International", uma
organiza��o dedicada a divulgar o Linux e promover seu uso, � chamado de
"John Cachorro Louco Hall".
O livro � contado em primeira pessoa pelo Linus, no mesmo estilo
sincero e sarc�stico de seus e-mails e discursos. A proposta do livro n�o �
ser prof�tico ou profundo, mas entreter. Logo no come�o do livro h� uma
transcri��o de um e-mail do Linus, dizendo: "Se voc� [David Diamond] acha
que podemos fazer um livro engra�ado e, acima de tudo, se acredita que
podemos nos divertir ao escrev�-lo, vamos em frente". Os objetivos parecem
ter sido plenamente alcan�ados, pois David Diamond levou Linus para saltar
de p�ra-quedas, para acampar e para uma sauna finlandesa; e o livro �
realmente muito interessante! A hist�ria vai desde a inf�ncia na Finl�ndia,
o complexo pelo tamanho do nariz e a calculadora eletr�nica do av�, at� a
lend�ria "troca de farpas", com "Andrew Tanembaum", professor de Ci�ncia da
Computa��o em Amsterdam e autor de livros como "Computer Networks" e
"Operating Systems: Design and Implementation". Tanembaum escreveu e
mantinha (ainda mant�m) um sistema operacional chamado "Minix". Como o Minix
era uma ferramenta acad�mica e n�o para uso cotidiano, a maioria das
mudan�as sugeridas por seus usu�rios n�o era implementada pelo Tanembaum.
Foi, em grande parte, a frustra��o com essa situa��o que levou Linus a
come�ar a escrever o que se tornaria o Linux. Um dia, Tanembaum resolveu se
manifestar, dizendo que o Linux era obsoleto. A discuss�o que seguiu �
interessante tanto do ponto de vista hist�rico quanto t�cnico. At� porque,
hoje, o Linux est� onde est� e o Minix pode ser baixado livremente na
Internet.
No in�cio da segunda parte do livro, "Nascimento de um Sistema
Operacional", h� um aviso de "linguagem *geek* de n�vel intermedi�rio".
"*Geek*" � uma express�o americana, normalmente pejorativa, que designa o
que aqui normalmente chamamos de "*nerds*". Mas, com a explos�o da Internet
e a conseq�ente valoriza��o dos profissionais de tecnologia, o termo passou
a ser empunhado com um misto de ironia e orgulho pela comunidade t�cnica. O
"Jargon File", uma esp�cie de dicion�rio de termos utilizados pelos
aficcionados por computadores, cont�m uma "defini��o mais extensa de geek".
O documento de forma geral � interessante e curioso, vale uma olhada.
O Jargon File, a prop�sito, foi escrito por "Eric Raymond", autor do
famoso "The Cathedral and the Bazaar". Esse texto descreve o modelo de
desenvolvimento de "software livre", ou "software de c�digo aberto", em
oposi��o ao modelo tradicional, propriet�rio e controlado. Descontados
eventuais lapsos de mod�stia do autor, o texto � bem escrito e d� excelente
embasamento ao modo como o Linux � desenvolvido e distribu�do. Leitura
recomendada (e eu diria mesmo obrigat�ria) para curiosos, c�ticos,
entusiastas e, especialmente, desenvolvedores de software.
De qualquer maneira, apesar da se��o "geek", o livro do Linus nunca
efetivamente entra muito a fundo em detalhes t�cnicos. Isso �, em princ�pio,
um pouco frustrante. Mas, por outro lado, leitores menos experientes e mesmo
aqueles sem qualquer inclina��o t�cnica, mas com interesse no "fen�meno
Linux", v�o se sentir confort�veis com a leitura. E, para o resto de n�s,
que via de regra acabamos lendo muita documenta��o e pouca literatura, � uma
boa e justific�vel fuga. Em suma, um livro muito gostoso de ser lido.
A prop�sito, o aspecto hist�rico desta coluna vem bem em tempo: no dia
25 de agosto de 1991, Linus enviou uma mensagem ao grupo de discuss�o
comp.os.minix dizendo que estava trabalhando em um sistema operacional
livre, e que seu novo sistema j� rodava bash e gcc (um interpretador de
comandos e um compilador de C, respectivamente). Dez anos depois, estou
escrevendo uma coluna no "IDG Now!" gra�as ao Linus estar errado sobre
quantas pessoas viriam a utilizar seu sistema :)
Finalmente, a "se��o t�cnica" desta coluna fala do comando "find" e
discute um pouco seu uso. E gostaria de agradecer � Editora Campus pelo
envio do livro, espero que continuem traduzindo esse tipo de publica��o.
Rodrigo Bernardo Pimentel que normalmente atende por 'rbp', usa Linux
desde 1995. Atualmente � presidente da LinuxSP e consultor de tecnologia na
filial S�o Paulo da Conectiva. Cr�ticas ou sugest�es podem ser encaminhadas
para [EMAIL PROTECTED]