Como diria Juscelino Kubitschek, aquele que o presidente Lula às vezes 
tem veleidades de imitar, “soltaram o monstro”. O monstro de Kubitschek 
era o eleitorado. Esse mesmo que acaba de dar ao "não" 60 milhões de 
votos. Muito mais do que deu a Lula em 2002. Ele está solto. Cutucado 
com vara curta pelo referendo sobre o comércio de armas, ele saiu da 
toca antes da hora prevista. E dificilmente voltará à jaula antes de ir 
às urnas novamente daqui a um ano, quando estarão em jogo a presidência 
da República, os governos dos estados e a maioria do Congresso Nacional. 
Aí, sim, o “não” vai ter a chance de dizer a que veio.

Daqui para a frente, portanto, os políticos que se cuidem. A decisão 
desse domingo tem tudo para não mudar em nada a segurança das ruas 
brasileiras. Mesmo porque, votou-se para manter as coisas como estão, 
por piores que estejam, em vez de fazer de conta que o “sim” era capaz 
de mudá-las. Logo, a vida pública no país nunca valeu tão pouco como 
agora. É verdade que, em dia de eleição, ela não vale muito mais do que 
a nossa. Mas, nas outras eleições, a desvalorização é coisa que dá e passa.

Nesses casos, depois do resultado vem a festa, depois da festa a posse 
e, com a posse, as nomeações. Assim, até que as decepções reponham as 
coisas em seus devidos lugares, os eleitos levam para o poder o bafo das 
urnas, porque o próprio calendário eleitoral providencia os ritos de 
mudança. Desta vez, não há nada para fazer. Dizendo “não”, o país deu um 
urro com quase 60 milhões de bocas. Mas, pela lógica do referendo, isso 
significa que não há nada de automático ou simbólico que as autoridades 
possam providenciar, para dar a impressão de que entenderam seu recado. 
Essa votação foi uma deseleição. E por isso, como o 1968 de Zuenir 
Ventura, tem toda a cara de que tão cedo não vai acabar.

O que sobra do plebiscito é pura indignação represada. Não deve haver, 
não pode haver 60 milhões de brasileiros querendo comprar armas. O que 
eles querem é outra coisa. Mais governo, se possível. Vingar-se do 
governo, se não tiverem escolha. O placar da Justiça Eleitoral ainda 
estava girando, quando a deputada Jandira Feghali, vice-presidente da 
Frente Brasil Sem Armas, que pregava o “sim”, espremeu numa entrevista 
para a rádio CBN o suco azedo da derrota, enquanto ao fundo uma voz de 
criança chamava “mamãe”. Aquilo, disse ela, foi um “não”geral ao governo 
“em todos os níveis”. Acertou na mosca. O que o brasileiro procurou 
nesse referendo mal-explicado e inútil foi um jeito de dizer “não”a tudo 
o que está aí. Fabricou-se, com R$ 270 milhões de investimento em 
campanha e montagem de urnas eletrônicas, uma versão local, pacífica e 
ordeira do slogan “que se vayan todos”, gritado a toque de panela pelos 
argentinos quando lá a coisa parecia mais preta do que aqui.

E esse “não” começa por Lula. É claro, como ressalvou a deputada, que 
Lula não tinha nada a ver com uma consulta gerada num acordo parlamentar 
para a aprovação do Estatuto do Desarmamento. E ele até tirou o corpo 
fora do plebiscito, quando a maré virou de agosto para cá e o “sim”caiu 
de 80% para 35%. Mas Lula também não teve nada a ver com o que o 
ministro José Dirceu fazia no gabinete ao lado. Ou com o dinheiro que o 
tesoureiro Delúbio Soares pôs em sua eleição. Nem sequer com o surto de 
febre aftosa.

Mas um presidente que nunca tem nada a ver com nada acaba tendo a ver 
com o que menos espera. A partir desta semana, seus índices de 
popularidade serão inevitavelmente projetados contra o fundo escuro dos 
65% de reprovação genérica que os brasileiros dedilharam domingo nas 
cabines. Dissolveu-se de uma vez por todas – ou pior, pulverizou-se – a 
frente de três anos atrás, que somou fiéis de Lula a eleitores capazes 
de votar em qualquer coisa para declarar o que pensavam sobre os oito 
anos de Fernando Henrique Cardoso, para inflar um presidente que subiu 
no palanque depois da campanha e dele só desceu para embarcar no Aerolula.

O eleitorado mudou de rumo, derrubando na virada tudo o que passou por 
seu caminho. Os institutos de pesquisa, que davam 80% ao ‘sim” em agosto 
e foram incapazes de vislumbrar o tamanho do “não”. Os formadores de 
opinião pública, que gastaram suas biografias numa campanha que punha, 
do outro lado, o deputado Luiz Antônio Fleury e o coronel Ubiratan 
Guimarães, dois veteranos de Carandiru. Os meios de comunicação, que só 
na última hora desistiram de liderar uma cruzada contra as armas de fogo 
para cobrir um plebiscito que estava pronto para dizer outra coisa. E 
sobretudo os autores da pergunta, que convocaram o brasileiro a proibir 
votando “sim”, truque inédito, para que nada pudesse dar errado num 
referendo onde deu tudo errado.

Aliás, tudo não. Dele se tira uma advertência, que talvez faça Lula 
perder o encanto com as facilidades da democracia direta, que inveja na 
Venezuela do coronel Hugo Chávez. O “monstro” de Kubitschek é menos 
domesticável do que se pensa. E, obrigado a se mexer, pôs-se em 
movimento. Para onde vai, só a eleição do ano que vem poderá dizer. Há o 
risco de que, livre da obrigação de se dividir entre “sim”ou “não”, ele 
se disperse. Nesse caso, levará seu rancor para longe das velhas 
candidaturas, sendo velhas todas as que ele já conhece. Foi o que fez em 
1989. E deu no que deu. Foi aquela eleição presidencial que encurralou o 
país entre Lula e Fernando Collor. E por pouco não o espremeu entre 
Fernando Collor e Leonel Brizola. Primeiros turnos que encontram o 
“monstro” solto, ressentido e sem saber para onde ir são ótimos para 
tirar do nada os candidatos a desastrosos presidentes.

http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=8&textCode=19043&date=currentDate&contentType=html

        

        
                
_______________________________________________________ 
Promoção Yahoo! Acesso Grátis: a cada hora navegada você
acumula cupons e concorre a mais de 500 prêmios! Participe!
http://yahoo.fbiz.com.br/


Para facilitar a procura de assuntos anteriores, utilize o nosso arquivo de 
e-mails:

http://www.mail-archive.com/[email protected]/

Na janela de "Find" digite a palavra para procura. 
Links do Yahoo! Grupos

<*> Para visitar o site do seu grupo na web, acesse:
    http://br.groups.yahoo.com/group/n_gage/

<*> Para sair deste grupo, envie um e-mail para:
    [EMAIL PROTECTED]

<*> O uso que você faz do Yahoo! Grupos está sujeito aos:
    http://br.yahoo.com/info/utos.html

 


Responder a