|
Direito_Sa�de e Bio�tica --
22.09.2001
_______________________________
Geopol�tica da vingan�a
C�sar Benjamin* Em estado de choque - pelos seus mortos e pela s�bita descoberta de sua vulnerabilidade -, os Estados Unidos desejam uma retalia��o imediata, de car�ter militar, e v�o lev�-la adiante, ao arrepio de normas e leis. � ing�nuo, no entanto, imaginar que uma opera��o de tamanho porte, como a que est� em marcha, obede�a apenas a impulsos emocionais e seja desencadeada sem que tenha rela��o com metas estrat�gicas muito bem definidas. O Estado americano acumulou extraordin�rio poder nos dois �ltimos s�culos exatamente por sua capacidade de nunca perder de vista objetivos de longo prazo, articulados entre si, subordinando a eles cada decis�o relevante. O ataque maci�o que se prepara contra o Afeganist�o � um aparente non sense. Os Estados Unidos n�o apresentaram nenhuma evid�ncia de que os afeg�os tenham rela��o com os atentados, e a acusa��o contra bin Laden foi feita de forma propositalmente vaga e inconsistente, de modo a tornar imposs�vel que o Taleb� aceitasse extradit�-lo. A decis�o de atacar, claramente, j� havia sido tomada. Para as autoridades americanas, dada a gravidade do crime, submeter uma pessoa ( ou um grupo) a julgamento, meses a fio, seguindo os procedimentos formais, seria uma resposta civilizada, mas fraca. O mais intrigante, por�m, � que � primeira
vista o Afeganist�o parece ser um p�ssimo alvo. Chegar em seu
territ�rio, longe do mar, j� � uma encrenca. Combater l� � uma
encrenca muito maior. Sua topografia �
montanhosa. Suas estradas s�o poucas e p�ssimas. Sua popula��o est� dispersa no meio rural. Ao contr�rio do Iraque e da S�rvia, o pa�s n�o possui infra-estruturas fixas e instala��es produtivas que mere�am ser bombardeadas com m�sseis que custam US$ 200 milh�es. Quanto �s anunciadas opera��es de comando, os generais americanos n�o s�o imbecis para acreditar que rapazes recrutados na Calif�rnia encontrem bin Laden nos grot�es de um pa�s hostil em que a metade da popula��o usa barba e turbante, enquanto a outra metade anda com o rosto coberto. Coisas assim s� funcionam bem no cinema. A resposta a esse enredo confuso pode ser rastreada. Por seu potencial e suas dificuldades, a �sia � a grande inc�gnita do sistema-mundo nas pr�ximas d�cadas. De um lado, tem a segunda maior economia nacional (o Jap�o), a pot�ncia emergente (a China), grandes massas demogr�ficas dotadas de alta laboriosidade, elevado dinamismo tecnol�gico, experi�ncias de desenvolvimento r�pido, empresas e bancos de grande porte, Estados nacionais ciosos de sua independ�ncia, capacidade militar (e nuclear) ascendente. Por tudo isso, ser� uma jogadora de grande peso no s�culo que se inicia. Mas tamb�m tem problemas imensos: est� longe de criar uma �rea econ�mica ou politicamente integrada, abriga grandes popula��es em estado de pobreza, permanece dividida por um sem-n�mero de contenciosos de todos os tipos. A ordem mundial americana n�o foi - e n�o ser� - capaz de enquadrar esse continente "ex�tico", grande demais e forte demais para ser engolido (como a Am�rica Latina), marginalizado (como a �frica), dominado (como o Oriente M�dio) ou derrotado (como a ex-Uni�o Sovi�tica). Mas, pelo manejo de suas contradi��es internas, pode mant�-lo contido. O Pent�gono considera que o quarto objetivo estrat�gico da geopol�tica americana � o mais dif�cil de ser mantido no longo prazo. Ele � assim definido: "Que nenhum poder do hemisf�rio oriental [ leia-se, �sia ] possa desafiar o dom�nio norte-americano sobre os oceanos." Compreende-se a preocupa��o: o controle simult�neo dos oceanos �, de longe, o elemento central na supremacia militar em escala mundial. Tendo-o conquistado, os Estados Unidos det�m o monop�lio da capacidade deslocar e projetar suas for�as. Ora, criar uma marinha de guerra exige recursos imensos,
incompat�veis com manter grandes ex�rcitos envolvidos com problemas
territoriais. Da� o permanente esfor�o americano de fazer com que
seus competidores potenciais - especialmente os asi�ticos - mantenham-se �s
voltas com amea�as terrestres, que os pr�prios Estados Unidos, por sua posi��o
geogr�fica, n�o enfrentam. Quando os sovi�ticos come�aram a desenvolver uma
marinha de guerra de alcance mundial, os americanos, em um lance de
g�nio, os atra�ram para uma prolongada guerra terrestre, exatamente no Afeganist�o. O resultado todos conhecem. Uma tens�o duradoura no cora��o da �sia - ampliando-se a guerra civil latente na regi�o - se ajusta perfeitamente aos interesses estrat�gicos dos Estados Unidos. Eis uma pista para entender o que vai ocorrer. O Afeganist�o tem fronteiras com o Ir�, o Paquist�o, a China e ex-rep�blicas sovi�ticas, al�m de ficar muito perto da �ndia e da R�ssia. � ideal para quem deseja criar uma zona de turbul�ncia capaz de manter seus advers�rios voltados para dentro. Depois da incurs�o, os Estados Unidos se retirar�o em suas embarca��es, tendo punido os representantes do mal e, principalmente, semeado uma ciz�nia que Ir�, Paquist�o, R�ssia, China e �ndia ter�o de administrar por muitos anos. Enquanto isso, a grande esquadra continuar� a navegar pelo mundo. * C�sar Benjamin � editor e autor de A op��o brasileira ( Contraponto Editora, 1998 ). --- Outgoing mail is certified Virus Free. Checked by AVG anti-virus system (http://www.grisoft.com). Version: 6.0.281 / Virus Database: 149 - Release Date: 18/9/2001 Endere�os da lista: Para entrar: [EMAIL PROTECTED] Para sair: [EMAIL PROTECTED] -----------------------------------
| ||||||||

