MÚSICA

Fonte: http://dyn1.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_39.htm


Gênio de corpo inteiro

Caixa com sete álbuns duplos abrange a obra completa de Noel Rosa. São 229 canções em primeiros registros, com vários intérpretes notáveis, principalmente da primeira metade do século 20

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Clara Arreguy
Da equipe do Correio
Arquivo/JB

Noel Rosa viveu apenas 26 anos e compôs centenas de sambas e canções

Noel Rosa foi um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Basta dizer que, embora tenha composto durante pouquíssimo tempo – morreu com pouco mais de 26 anos –, ficaram registros de 229 canções, grande número de obras-primas, muitos sambas que apontavam o gênio eclético tanto para a ironia quanto para o lirismo. Não é à toa que, quando surgiu na cena musical nacional, no início dos anos 1960, Chico Buarque foi comparado a Noel, pela similar capacidade de fazer a crônica do cotidiano e o poema de amor.

Nascido em 11 de dezembro de 1910 e morto em 4 de maio de 1937, Noel de Medeiros Rosa viveu pouco, porém intensamente. Deixou não apenas o legado de centenas de canções, mas também o de milhares, milhões de fãs. Um deles, o pesquisador Omar Jubran, começou em 1987 um esforço de 10 anos – tempo que levou para garimpar todas as primeiras gravações de Noel. Em 1997, o fruto do trabalho estava pronto para vir à luz. Mas o projeto só teve lançamento em 2000 (quando se celebraram os 90 anos do artista), numa parceria entre o Ministério da Cultura e a gravadora Velas.

Agora, a caixa Noel pela primeira vez, que reúne o resultado do trabalho de Jubran, ganha relançamento pela Velas, desta vez em conjunto com a NovoDisc. São sete álbuns duplos, com as 229 gravações originais e mais versões até então inéditas, trechos de programas de rádio antes nunca registrados em disco, um material completo para o fã de Noel ou para os interessados em tomar contato com sua obra. Além dos sambas e canções – obras-primas como Feitio de oração, Palpite infeliz, Conversa de botequim, Três apitos, Último desejo, Com que roupa, Coisas nossas –, a coleção permite tomar contato com a voz do compositor, que aparece em grande número de faixas (ele não era propriamente intérprete, nunca gravou algo que não fosse de sua autoria), e ouvir grandes vozes do passado e do presente, notáveis intérpretes da obra de Noel.

A grande amiga Aracy de Almeida, Francisco Alves (considerado o Rei da Voz na primeira metade do século 20), Sílvio Caldas, Orlando Silva, Ismael Silva, os parceiros Ary Barroso e Lamartine Babo, o cantor Mário Reis (que, pelo estilo contido, inspirou João Gilberto na busca da interpretação da bossa nova), Marília Baptista e Aurora Miranda (irmã de Carmen Miranda, que comparece pouco na coleção) são alguns que ajudam a traçar o mais amplo painel de sua musicografia. Das gerações mais novas, que aparecem no CD final, em registros recentes, despontam, entre outros, o grupo Coisas Nossas, o instrumentista Henrique Cazes e a cantora Ná Ozzetti.

Completa a caixa Noel pela primeira vez um livreto com todas as letras das músicas, um texto introdutório de João Máximo e outro de Omar Jubran, anotações sobre as gravações usadas, o ano de composição das faixas, o ano de lançamento, a identificação dos intérpretes, enfim, informações para o ouvinte não deixar de situar histórica e artisticamente.


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NovoDisc Midia digital da Amazonia/Divulgação


NOEL PELA PRIMEIRA VEZ

Caixa com sete álbuns duplos contendo 229 criações de Noel Rosa, por diversos intérpretes. Velas e NovoDisc, organização de Omar Jubran. Preço da caixa: R$ 250 (não haverá venda dos discos em separado). Informações: www.velas.com.

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Memória

Um cometa que passou

Noel Rosa de Medeiros (1910–1937) nasceu e viveu em Vila Isabel, bairro popular do Rio de Janeiro. Teve uma vida conturbada, rápida e intensa. Aos 19 anos, começou a fazer sucesso com os sambinhas que compunha, marcados pela verve cômica, mas ainda em tom urbano e de classe média. Foi por suas mãos que o samba branco do asfalto encontrou o morro, a cultura negra e mestiça, à medida que conheceu e se tornou amigo e parceiro de sambistas de origens diversas das suas.

Também na questão das letras e temáticas, ajudou a renovar e modernizar a música popular brasileira, ecoando da Semana de Arte Moderna à urbanização crescente do país. Os pobres e seus problemas sempre renderam assunto para a criação de Noel, que ajudava a fazer troça e poesia das mazelas pessoais ou sociais. Em pouco tempo, enquanto compunha compulsivamente e o rádio se tornava o grande veículo de comunicação da época, assumiu lugar especial junto ao público pelo Brasil afora.

O estilo de vida largado, a dissipação na boemia, os amores malsucedidos foram se acumulando para deteriorar rapidamente a saúde de Noel. Tuberculoso, tratava-se, mas não levava muito a sério os cuidados de que precisava. Até mesmo uma temporada em Belo Horizonte (então conhecida pelo clima adequado ao tratamento da tísica) passou, mas trocava o sanatório pela Rua da Bahia, onde confraternizava com artistas.

De volta ao Rio, sua saúde não resistiu e ele morreu antes de completar 27 anos, já um ídolo popular e um dos maiores gênios que a música brasileira produziu.

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Disco a disco

Volume 1 – CD 1
A primeira gravação registrada entre todas é a canção Ingênua, de Glauco Vianna e Noel, na voz do primeiro. Aqui, já aparece um dos clássicos do compositor, Com que roupa, em que ele exibe todo o espírito crítico, numa crônica de costumes que viria a se tornar sua marca registrada. São duas versões, uma do próprio Noel e outra de I. G. Loyola, com participação do autor. Outras legendárias são Gago apaixonado (com Noel) e A. B. Surdo, dele e Lamartine Babo, com Olga Jacobina e participação de Lalá.

CD 2
Clássicos não faltam no repertório de Noel. Neste disco, há pelo menos três: Picilone, na interpretação de Noel e João de Barro; A.E.I.O.U., dele e Lamartine Babo, com Lalá; e Só pra contrariar, dele e Manuel Ferreira, com Almirante.

Volume 2 – CD 3
Nesse hino de amor à cultura nacional, com a devida dose de ironia e humor, a primeira versão de São coisas nossas surge na voz do autor (“O samba, a prontidão e outras bossas/ São nossas coisas/ São coisas nossas”). Detalhe: prontidão era a gíria da época para dureza, falta de grana. Outra pérola: Mulher indigesta.

CD 4
Dois destaques em meio a tanta fartura: Quem dá mais, de e com Noel; e Mulato bamba, na voz de um dos bons intérpretes de então, Mário Reis (inspirador de João Gilberto na criação da bossa nova).

Volume 3 – CD 5
Entre os destaques, Até amanhã, com João Petra de Barros; e Primeiro amor (de Noel e Ernani Silva), que reúne as vozes de dois grandes cantores do período, Mário Reis e Francisco Alves
(considerado, então, o Rei da Voz).

CD 6
Um clássico abre o disco: Fita amarela novamente junta Mário Reis e Francisco Alves. Outra pérola, muito adequada ao espírito satírico do compositor, é Onde está a honestidade, que ele próprio defende.

Volume 4 – CD 7
Logo no começo, uma obra-prima: Feitio de oração, da parceria com Vadico, em interpretação de Francisco Alves e Castro Barbosa e num andamento bem sambinha. Filosofia, de Noel e André Filho, surge na voz de Mário Reis. A raridade é Julieta, de Noel e Eratóstenes Frazão, com Castro Barbosa. Em Positivismo (de Noel e Orestes Barbosa, na voz de Noel), os autores brincam com conceitos filosóficos.

CD 8
Mário Reis canta a nostálgica Meu barracão. Um clássico com a cara da lírica de Noel: O orvalho vem caindo, dele e de Kid Pepe, na voz de Almirante. Outra obra-prima, Feitiço da Vila (da parceria com Vadico), em duas versões: a de João Petra de Barros e uma gravação particular de Orlando Silva. O disco fecha com uma imortal marchinha de carnaval na voz de Petra, Linda morena (posteriormente relançada como Pastorinhas), de Noel e João de Barro, que fez modificações na letra após a morte de Noel.

Volume 5 – CD 9
Pelo menos três expoentes da criação de Noel: Conversa de botequim (com Vadico), na voz de Noel; Palpite infeliz (na voz da amiga Aracy de Almeida), ambas parte do bate-boca que o autor mantinha com o “adversário” Wilson Batista em defesa da Vila Isabel; e Pierrot apaixonado, carnavalesca composta com Heitor dos Prazeres e aqui nas vozes de Joel & Gaúcho.

CD 10
O disco começa arrasador, em tom festivo, com De babado (parceria com João Mina), com Noel e Marília Baptista, e os dois novamente dividindo os vocais em Cem mil réis (Noel e Vadico). Orlando Silva interpreta a lúgubre Dama do cabaré. Em defesa agora do Estácio de Sá, O xis do problema vem na voz de Aracy de Almeida.

Volume 6 – CD 11
Com a marca da amiga Aracy, grande intérprete da obra de Noel, estão presentes neste disco gravações como Último desejo e Três apitos. Na voz de Sílvio Caldas, aparecem Pastorinhas, na versão que ficou famosa, e Pra que mentir.

CD 12
Uma curiosidade é a violonista Rosinha de Valença cantando Você é um colosso. Outra: João Nogueira com Ao meu amigo Edgar (co-autoria dele e de Noel) e a divertida versão ao vivo de Sílvio Caldas para Cabrocha do Rocha (também dele e de Noel).

Volume 7 – CD 13
Neste penúltimo disco da série, surgem versões modernas, registradas por grupos e músicos como o Conjunto Coisas Nossas e Henrique Cazes, além dos atores Grande Otelo e Marília Pêra, intérpretes da opereta A noiva do condutor, da qual saiu grande parte das faixas.

CD 14
Encerrados os registros das primeiras gravações de Noel, o último disco da caixa guarda homenagens ao compositor, principalmente em programas de rádio, como um, de 1951, pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com intérpretes como Almirante e Jamelão, e outro, de 1992, pela Cultura AM de São Paulo, com vozes de Ná Ozzetti, Vânia Bastos e Carlos Didier.


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