Olá,
O pior de todos os juízes é aquele que acredita num só lado da moeda.
Mesmo assim, desejo-te toda a felicidade do mundo.




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> From: [EMAIL PROTECTED]
> To: [email protected]
> Date: Thu, 26 Oct 2006 12:23:54 -0200
> Subject: [S-C] O mundo é um moinho (correioweb)
> 
> Fonte: http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cidades/pri_cid_119.htm?
> 
> O mundo é um moinho 
> 
> Ele ergue a vida tijolo a tijolo, na poesia do samba e no cotidiano simples 
> de um pedreiro em construção 
> 
> --------------------------------------------------------------------------------
> Marcelo Abreu
> Da equipe do Correio 
> Gustavo Moreno/Especial para o CB 
>  
> Em 2007 Sérgio lançará seu primeiro CD, com 14 faixas inéditas, gravado com 
> ajuda de amigos que reconheceram o talento do mestre-de-obras 
>  
>   
> Ele faz música como se erguesse uma parede. E admite, com a voz pausada, 
> sentado sobre uma lata de tinta, com as pernas elegantemente cruzadas, na 
> varanda da casa que termina de construir: “A gente constrói casa e constrói 
> música. E constrói sonhos”. O homem que acaba de dizer essa frase é um 
> mestre-de-obras. Desses que preparam a massa, assentam cerâmicas e levantam 
> obras. Esse homem, além de pedreiro por formação, é um compositor de sambas. 
> Por pura intuição. E demasiada inspiração. É um compositor de samba de 
> primeira qualidade. Desses que fazem o interlocutor se perguntar: De onde vem 
> o talento desse homem? Que dom é esse? Onde cabe tanta sensibilidade? 
> 
> São onze da manhã chuvosa de quarta-feira. Lá está ele, em Sobradinho, na 
> região da Fercal, levantando mais uma obra. Junto dele, seus auxiliares. A 
> casa está quase pronta. Falta apenas o acabamento. Enquanto examina mais uma 
> cerâmica assentada e mede a espessura da parede, a música o invade. É sempre 
> assim. E num átimo, como se fosse mesmo uma inspiração divina, vêm a música e 
> letra, juntas. E o samba, como milagre, brota. Ele corre para um velho 
> gravadorzinho portátil que carrega na sacola e grava o que acabou de compor. 
> “Se não fizer isso, esqueço mesmo”, conta. Está pronta mais uma obra. Os 
> outros pedreiros se entreolham. Acabam de assistir a uma cena emocionante. 
> 
> Na manhã de ontem, antes de começar a entrevista, uma pergunta se fez 
> inevitável: O que é melhor, construir casa ou música? Ainda sentado sobre a 
> lata de tinta, ainda de pernas cruzadas, ele confessa: “O melhor mesmo é 
> construir. Construir sempre. A casa termina. A música nunca tem fim, nunca 
> está acabada”. 
> 
> Esse homem que constrói casa com esmero e faz música com tanta paixão se 
> chama Sérgio Magalhães, é carioca de 42 anos e há 13 está radicado em 
> Brasília. Mora em Sobradinho II, casou-se pela segunda vez, tem dois filhos e 
> é pedreiro de profissão. Para entender a história dele, é preciso voltar ao 
> Rio de Janeiro, mais precisamente a Duque de Caxias. De família muito pobre, 
> aos cinco anos de idade, o menino perdeu o pai, um pedreiro que trabalhava 
> pesado para sustentar mulher e os oito filhos. A mãe, doméstica, teve que ir 
> à luta. Desdobrou-se para que nenhum dos filhos passasse fome. Não foi 
> sobreviver. 
> 
> Aos 14 anos, ele mesmo virou pedreiro. Era preciso trabalhar para ajudar no 
> sustento da família. E não teve escolha: abandonou a escola no ensino 
> fundamental. Começou como ajudante de pedreiro. E aprendeu todo o ofício de 
> uma obra. Enquanto erguia e pintava paredes, ouvia, em velhos rádios 
> impregnados de poeira num canto da casa, músicas de Nelson Cavaquinho e 
> Jamelão. 
> 
> Aos 17 anos, começou a participar de rodas de samba, junto com amigos do 
> lugar onde morava. Ainda nessa idade, compôs a primeira música Verdade, amor 
> de malandro, (ah, quando eu a conheci, ah foi tudo tão bonito, vi o céu 
> descer para festejar um amor tão bonito…os teus olhos cor de terra, teus 
> cabelos cor de noite, teu corpo feito violão, amor…). O samba ganhou o 
> segundo lugar no festival de música do bairro. 
> 
> Mudança de vida 
> Os anos se passaram. Sérgio trabalhou como nunca. Construiu casas sem parar. 
> E compôs suas músicas, quase sempre sem mostrar a ninguém. Eram apenas dele. 
> Em 1993, cansado da vida agitada no Rio de Janeiro, se deu um tempo. Escolheu 
> Brasília, cidade onde tinha conhecidos, para ficar um mês. Aqui, de cara, 
> apareceu uma obra para ele tocar. Não hesitou. Pegou a empreitada e ergueu 
> mais uma casa. Os trinta dias viraram meses. A música, de repente, aparecia 
> no meio do barulho da construção. E ele corria, como de costume, para o 
> gravador. “Nunca sentei para escrever uma letra. Tudo sempre foi de forma 
> intuitiva”, conta ele. 
> 
> Em 1995, depois de participar de um festival de música do Núcleo Bandeirante, 
> um amigo que ouviu seus sambas o aconselhou a investir mais na música. 
> Disse-lhe que ele tinha talento. O pedreiro acreditou. Sem falar a ninguém, 
> foi até a Escola de Música de Brasília (EBM), na 602 Sul. Soube que ali 
> poderia conseguir uma vaga em algum dos cursos. Inscreveu-se. Enfrentou um 
> sorteio com mais de dois mil inscritos. Havia apenas seis vagas. “Eu pensei: 
> ‘só preciso de uma’”. Uma das vagas foi dele. 
> 
> Foram três anos de cursos. O pedreiro começou a estudar canto, violão e 
> teoria musical. Conheceu dois professores que apostaram nele e reconheceram o 
> talento do homem que erguia paredes. Maria de Barros e Jaime Ernest Dias, 49 
> anos, mudaram os rumos de Sérgio. Apresentaram-lhe músicos. Fizeram-no crer 
> que sua música era importante. Mais uma vez ele acreditou. “Ele tem muito 
> talento e riqueza melódica fabulosa”, elogia Jaime. 
> 
> Durante o dia, Sérgio trabalhava incansavelmente nas obras. À noite, seguia 
> para a Escola de Música. “Colocava minha beca (a melhor roupa) na sacola e da 
> obra seguia para a aula”, lembra o pedreiro. O esforço deu certo. O primeiro 
> CD independente está em fase de gravação. Serão 14 músicas, todas de sua 
> autoria. “Treze bases já estão prontas. Parte foi gravada no Rio de Janeiro. 
> Tá ficando muito bonito. Tem quarteto de cordas, piano, bateria e baixo”, 
> adianta, orgulhoso. Todos os músicos que estão participando do projeto 
> engajaram-se na causa sem cobrar nada. Os professores da EMB cuidam dos 
> detalhes. E o lançamento? Será num grande teatro em Brasília, no início do 
> ano que vem. “Brasília me recebeu de braços abertos. Aqui, construí amigos, 
> crio meus dois filhos e sou feliz”, diz o sambista. E o que é felicidade? Ele 
> responde: “Todos os meus sambas foram feitos em momentos de felicidade”. E 
> brinca: “Acho que deu samba…” 
> 
> Na manhã chuvosa de ontem, Sérgio recebeu a equipe do Correio. No meio da 
> obra onde faz os últimos acabamentos, um violão, emprestado pelo grande 
> amigo, Jaime Ernest. Sentado sobre uma lata de tinta, o pedreiro soltou a voz 
> mansa. É como se levitasse. E deixasse apenas a música invadir sua alma. Num 
> determinado momento, o filho Marcos Vinícius, de 17 anos, que estuda violão, 
> pega o instrumento e toca um canção do pai. Sérgio canta o samba. O rapaz, 
> emocionado, reconhece: “Ele é meu ídolo”. O pai devolve: “Ele é um garoto e 
> tanto. Faz a harmonia das canções”. 
> 
> Essa é a história do homem que , ainda menino, chorou ao ouvir Dia de Graça, 
> um samba de Candeia (“aos 12 anos, senti a maior emoção da minha vida”). Que 
> gosta de Drummond, Tom Jobim, Chico Buarque. Que chama Paulinho da Viola de 
> “príncipe”. Que leu recentemente O Código Da Vinci. E que constrói casas e 
> músicas, com a mão impregnada de cimento. Essa é a história do pedreiro que 
> fez da poesia sua maior e mais emocionante obra. 
> 
> Contato 
> 9912-3101, Sérgio Magalhães 
>  
> 
> --------------------------------------------------------------------------------
> Na trilha dos mestres
> 
> A trajetória de Sérgio Magalhães é semelhante a de outros grandes mestres do 
> samba que começaram a vida como pedreiro. O carioca do Catete Agenor de 
> Oliveira, o Cartola, antes de estourar no cenário da música brasileira, 
> ergueu muita parede. Foi como pedreiro que ganhou o apelido de Cartola. 
> Vaidoso, não gostava que o cimento sujasse seus cabelos. Passou, então, a 
> usar um enorme chapéu. Seus amigos da construção não hesitaram. Apelidaram-no 
> de “Cartola”. O homem que compôs O mundo é um moinho (“ainda é cedo amor, mal 
> começaste a entender a vida…) sabia que a música um dia lhe colocaria no 
> lugar merecido. 
> 
> Em Pedreiras, no Maranhão, outro homem fez dos tijolos o início de sua vida. 
> João do Vale, que tempo depois comporia Carcará e Pisa na fulô (“um dia 
> desses fui dançar lá em Pedreiras, na rua da Golada, e gostei da brincadeira. 
> Zé Caxangá era o tocado, mas só tocava pisa na fulô. Pisa na fulô, pisa na 
> fulô, pisa na fulô não maltrata meu amor…). Nos anos 1960, João do Vale saiu 
> do Maranhão, tentou a vida no Rio de Janeiro e se tornou amigo e parceiro de 
> grandes nomes da música popular brasileira, como Chico Buarque, Nara Leão e 
> Maria Bethânia. (MA)
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