oi, MW (desculpe, só sei o seu e-mail)
você escreve muito bem
mas no fim de seu texto, tive a impressão de que há um ressentimento contra
as pessoas que gostam de samba mas não gostam de pagode. e isso porque o
pagode reabriu o mercado para o sambanãopagode.
você realmente acha que o pagode tem que ser admirado porque a sua
popularidade abriu mercado?
acredito que deva ser respeitado, como todos devem ser, mas o mercado não
pode ser medida para se avaliar beleza, concordamos?
o axé abre mercado para a música brasileira na França hoje. e aí vai...
um abraço
Remo Pellegrini
----- Original Message -----
From: "MW ProduÇões" <[EMAIL PROTECTED]>
To: "tribuna" <[email protected]>
Sent: Sunday, January 07, 2007 11:17 AM
Subject: [S-C] Tribuneiros
Tribuneiros.com (C.A.)
Houve um tempo, não faz muito, em que o samba, qualquer samba e mesmo aquele
enfezado, de malandro, do morro, era tocado nas adocicadas bases
bossa-novistas, cheio de nove horas mui comportadas, com baixo, piano e
bateria, numa inversão de influências imposta naturalmente a partir dos
estúdios das grandes gravadoras, onde já pontificava o engodo-embrião do que
seria em breve o asqueroso executivo da tal indústria da música - a
definição exata de onipotência.
Não por acaso era o tempo em que ia a Lapa oba-oba bem morta e enterrada,
terra arrasada, terreno da bandidagem sem talento e sem navalha. Era o tempo
em que de Ismael Silva ninguém se lembrava. Quem? Nem de Noel Rosa. Nem de
Ataulfo Alves. Nem de Geraldo Pereira. Nem de Wilson Batista. (Who)? (Qui)?
Era o tempo em que Cartola lavava carros na porta do Jornal do Brasil -
Cartola, leitor! (Tempo aliás em que o JB tinha porta - tempos idos). Era o
tempo enfim do samba elitizado, nada de faca no prato, nada de partido-alto.
Maysa, sim. Muita técnica vocal. Johnny Alf - também. E, ah, Dick Farney.
(Yes, baby)! (Oui, monsieur)! Era o tempo deles.
Foi Martinho da Vila o grande-grande reacionário, o estopim do renascimento,
surgindo monumental na Vila, no morro dos Macacos, lá pelos fins da década
de sessenta, a gravar discos de samba novamente batuqueiros, o som do couro
arregaçado, a voz de quarta dose necessariamente sem aulas de canto, a
fundamental divisão improvisada - e foi um tremendo susto. (God, quanto
primitivismo)! (Quel horreur)!
Em seguida, já nos anos setenta, aprofundando a pegada, vieram os pagodes em
fundos de quintal, cujo centro irradiador, o Cacique de Ramos, fez brotar,
na virada para os oitenta, o gênio partideiro de Almir Guineto, a
sofisticação musical de Jorge Aragão, a capacidade agregadora de Neoci, os
versos de rima inesperada de Luís Carlos da Vila, e depois Arlindo Cruz,
depois Jovelina, depois Pagodinho. Veio então o disco "Tendinha", de
Martinho, o " Clube do samba", de João Nogueira e o extra-classe "De pé no
chão", de Beth Carvalho, com "Vou festejar" e o pagode então nas ruas,
inescapável, primeiro no Rio, après, no Brasil inteiro - o auge da
percussão, do couro na mão, o som preenchido nos dedos do Ubirany sobre o
repique, a marcação instigante do tantã do Sereno, o banjo quase tamborim do
Guineto, o violão multiplicador do Aragão.
Foram eles, sim, os pagodeiros, oui, oui, que fizeram reaparecer a obra de
Cartola. Foram eles que regravaram os compositores esquecidos do Salgueiro,
do Império Serrano, da Portela - foram eles: Beth Carvalho, grupo Fundo de
Quintal, Zeca Pagodinho etc. Foram eles que resgataram a inestimável Ivone
Lara, parceira de Jorge Aragão em "Tendência". Foram eles, sim: os que
plantaram o trigo para rapaziada, hoje, comer o pão - o pain au chocolat da
Lapa.
A Lapa: eis que chego à Lapa (que "também tem a sua igreja"): uma miríada de
rodas de samba: a Lapa do samba mais uma vez elitizado, do cavaquinho nada
rasgado, mas toujours comedido, do pandeiro tocado baixo, com elegância,
quiçá com vergonha; a Lapa do repertório clássico anos quarenta, muito
Wilson, Geraldo e Noel, muito Ismael Silva, muito Nelson Cavaquinho, muito
Cartola, muita Ivone Lara e, cependant, curiosamente, um enorme desprezo,
vendido no entanto como desinteresse, na verdade estupidez ou imbecilidade
ou pop-burrice, pela turma dos pagodes em fundos de quintal - a turma que,
não se engane, ao tocar, cantar e gravar os sambas dos compositores da
antiga, agora tão-tão cultuados, fazendo-os enfim ouvidos une fois plus,
reabriu as portas da própria Lapa tal qual se conhece hoje, o mel da vida
jovem-alternativa-descolada da cidade - e cruz credo.
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