Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0502200707.htm
Desde que o samba é samba
Gênero musical chega aos 90 anos ainda marcado pelas fusões do início, o que
sempre o envolveu em polêmicas
Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Marcelo D2 brinca com um celular e um aparelho antigo em alusão ao samba
"Pelo Telefone"
LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO
Gravado pela Casa Edison, na voz de Baiano, como "samba carnavalesco", "Pelo
Telefone" fez jus ao adjetivo: estourou no Carnaval de 1917.
O sucesso foi tamanho que se tornou marco inicial do substantivo: o samba
nasceu oficialmente há 90 fevereiros -embora outras músicas já tivessem sido
registradas antes como samba.
Na verdade, a composição assinada por Donga e Mauro de Almeida ainda tem
muito do maxixe, ritmo hegemônico na época, e vira cantiga nordestina em um
dos trechos.
A história do samba, portanto, já começou marcada pelas misturas que sempre
envolveram o gênero em polêmicas: puristas de um lado, apologistas das
fusões do outro. Da bossa nova ao samba-rap, todo experimento com esse
símbolo nacional faz barulho.
"O nosso gênero-base, renovando-se a cada década e sempre dando uma rasteira
na colonização cultural, ainda é o grande símbolo da identidade musical
brasileira. E isso, por sua diversidade, variedade e capacidade de
"fagocitar" tudo", afirma o compositor e escritor Nei Lopes, conhecido por
sua aversão a "híbridos" como o mangue beat.
Entre as boas "fagocitoses", Lopes cita o que o então Jorge Ben fez nos anos
60 com o rock e o que Leandro Sapucahy faz hoje com o rap -"de um jeito que
o [Marcelo] D2 não quis ou não soube fazer", ressalta ele, para quem o
rapper, "apesar de um artista carismático e importante no seu segmento, não
aprofunda a fusão porque realmente nunca foi sambista".
"As pessoas que eu gostaria que tivessem respeito por mim no samba têm. Sou
amigo de Zeca [Pagodinho], Beth [Carvalho], Arlindo [Cruz], Alcione. Tem um
ou outro que rejeita, mas acho que a maioria vê que não cheguei bagunçando,
não vendi milhões ou fui no programa do Faustão fazer playback com calcinha
de lycra", diz Marcelo D2.
Fusões divulgam
Ele critica o tom "agoniza mas não morre" e afirma que "o samba está no seu
devido lugar e ainda vai longe". Conta que um dos momentos mais importantes
de sua vida foi quando um menino de oito anos lhe disse que estava ouvindo
João Nogueira por causa dele. "Fiquei com a sensação de missão cumprida",
lembra D2.
Zélia Duncan, que mergulhou no gênero no CD "Eu Me Transformo em Outras",
diz que divulgação é o que de melhor o pop pode dar ao samba. "Musicalmente,
o pop precisa mais do samba do que o samba do pop. A rigor, o samba nunca
precisou do pop", diz.
Ela conta que, nos shows que fez com os Mutantes no exterior, o momento de
maior empolgação era um samba, "Minha Menina". "É, sem dúvida, uma carteira
de identidade. Mas não preciso estar com um pandeiro na mão para ser
brasileira. Esse estereótipo é muito chato", diz ela, para quem "tudo o que
é purista é perigoso".
Autor de "O Mistério do Samba", estudo sobre a transformação do gênero em
símbolo nacional, o antropólogo Hermano Vianna é um notório defensor das
fusões.
"O samba se garante, mas a fusão está no fundamento de sua história. Por que
não se misturar mais? Mistura e manda", diz Hermano.
Para ele, o sucesso do "pagode mais pop" é benéfico para o "samba de raiz",
e há qualidade em grupos como Exaltasamba e Revelação. "É samba, sim, e,
algumas vezes, samba do muito bom. Qual seria a definição de samba? Quem
define? Quem tem o poder de definir?", provoca o antropólogo.
Curiosamente, é Leandro Sapucahy, praticante de fusões e que já produziu
muitos discos de pagode pop, quem investe contra essa vertente do samba.
Mercado no romântico
"Ter feito meu disco ["Cotidiano'] foi uma crítica a tudo o que eu sofri
quando fazia esse gênero. Eu achava que ia mudar tudo, mas não dá. O mercado
te joga no romântico. É uma música mais descartável. Não pretendo nunca
gravar romântico. Não quero falar de outro assunto que não seja o que a
população vive", marca posição.
O poeta e compositor Herminio Bello de Carvalho defende que se ponham os
rótulos de lado para entender o samba "como o fenômeno de massa que ele é".
"Acho que o tempo é uma peneira que vai, sabiamente, expurgando aquilo que é
moda, que não se fixa na memória. Vejo com muito cuidado essas flutuações,
no mais das vezes impulsionadas pelo comércio. Quando elas se dão de baixo
para cima, sem imposições mercadológicas, o tempo é ainda o melhor
conselheiro."
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