Poucas vezes vi na mídia matéria tão equivocada. FOLHA DE SP de hoje:

"Quando subirem juntas, amanhã, ao palco do Credicard Hall, em São Paulo, a brasileira Maria Rita, 30, e a argentina Mercedes Sosa, 71, estarão relembrando um raro capítulo em comum entre a música popular brasileira e a hispano-americana: o da folclórica, engajada -e hoje totalmente kitsch- canção de protesto."

kitsch ?!?!?!?!?!?!? Olhar só pelo viés político/temporal a música andina sem se dar conta da beleza intrínseca da música de protesto é um erro elementar.

"Para o jornalista Marcelo Tas, que encarnou o repórter Ernesto Varela no fim do regime militar, aos olhos de hoje, todo o cenário da música engajada parece fazer parte de "um programa de humor".

Programa de humor?!?! É muita insensibilidade! Estamos falando de música... e música do melhor quilate. Não posso acreditar que tanto desconhecimento do unuverso da música andina possa ocupar a página principal do caderno cultural da Folha.

"Quem gostava desse tipo de música nos anos 70/80 era o pessoal de "barba e bolsa"

Caro Marcelo, vai estudar um pouco de música... Conheça, por favor, compositores como Silvio Rodríguez, Daniel Viglietti, Horácio Salinas...

E o grande Fagner, o que diz?

"A música brasileira de protesto sempre foi muito superior artisticamente do que a desses outros países. É por isso que a brasileira resistiu e a latino-americana parece hoje uma caricatura."

Depois dessa, o que falar?

Ainda bem que temos esta página da Tribuna para espernear...

Abraço a todos (para quem se interessa, a matéria completa que saiu hoje no jornal Folha de São Paulo segue abaixo)


A volta da poncho music
Na era Chávez e Morales, Maria Rita canta com Mercedes Sosa, em show amanhã, no Credicard Hall, e revive os áureos tempos da música de protesto latino-americana

France Presse
A cantora argentina Mercedes Sosa, em show realizado na Guatemala


SYLVIA COLOMBO
THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

Quando subirem juntas, amanhã, ao palco do Credicard Hall, em São Paulo, a brasileira Maria Rita, 30, e a argentina Mercedes Sosa, 71, estarão relembrando um raro capítulo em comum entre a música popular brasileira e a hispano-americana: o da folclórica, engajada -e hoje totalmente kitsch- canção de protesto. O momento é mais do que oportuno para Maria Rita. Com a nova onda esquerdista latino-americana reconquistando "corações de estudantes" e defensores de um "outro mundo possível", associar-se a um ícone revolucionário como Sosa é chance de ouro para expandir seu mercado pelo continente. A cantora acha que essa onda toda é "muito positiva". "Música que faz crítica social sempre tem espaço", disse à Folha. "Hoje há um certo patriotismo, um respeito à cultura nativa, uma tentativa de fazer um impedimento ao imperialismo cultural dos EUA, que é perigoso para a nossa identidade." A artista acha ainda que governantes como os presidentes Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chávez (Venezuela) têm uma "ligação muito forte com o indígena, com o que é nativo", algo que, diz ela, falta ao Brasil.

Canção de protesto
Mas será que a canção de protesto, que tentou desafiar ditaduras e promover a revolução socialista na base da flauta, do poncho, dos tambores e de uma poética de elogio ao homem do povo, ainda dialoga com a realidade do continente? Para o jornalista Marcelo Tas, que encarnou o repórter Ernesto Varela no fim do regime militar, aos olhos de hoje, todo o cenário da música engajada parece fazer parte de "um programa de humor". "Quem gostava desse tipo de música nos anos 70/80 era o pessoal de "barba e bolsa", que já formava um estereótipo naquela época. Eles invadiam a aula para convocar assembléia, era engraçado. Por outro lado, não os condeno, pois acho bom as pessoas serem radicais numa fase da vida. Hoje, é claro, parece tudo muito ingênuo." A própria Mercedes Sosa acha que foi injustamente limitada pelo rótulo do engajamento. "Acho injusto exigir de um artista que cante a mesma coisa a vida toda. Hoje eu me sinto livre para gravar o que quiser, um tango, uma música brasileira. É uma relação mais direta com o público", conclui, dando pistas sobre o repertório que apresentará no show de amanhã.

Movimento estudantil
O militante da Libelu ("Liberdade e Luta", corrente do movimento estudantil nos anos 70) e hoje crítico gastronômico da Folha, Josimar Melo, lembra que havia uma divisão entre quem curtia música de protesto e quem preferia o rock. "Nós, trotskistas, achávamos que a arte deveria ser independente da política. Não éramos contra a música popular, o sambão ou a Mercedes Sosa, só não achávamos que era preciso gostar disso para ser revolucionário. Os stalinistas, o pessoal do PC e do PC do B gostavam de canção de protesto, mas a gente preferia ouvir Led Zeppelin ou Rolling Stones." O líder do conjunto Raíces de América, o argentino Willy Verdaguer, concorda que a expressão "canção de protesto" tenha ficado datada. "Caiu em desuso, ficou um ranço com relação ao nome. Mas a música em si segue agradando. A diferença é que hoje ela funciona para encorajar e reivindicar outras coisas, como a democracia." Com 27 anos de vida, o Raíces ainda faz shows regularmente. Neles, os hits mais pedidos são as clássicas "Guantanamera" (poema de José Marti) e "La Carta" (Violeta Parra). No dia 27/4, o grupo tocará no Memorial da América Latina.

Muito maior
Líder de uma comunidade no Orkut em homenagem a Mercedes Sosa, o advogado João Marcelo de Andrade, 28, diz que "embora não haja mais um regime ditatorial para combater, as pessoas de anseios esquerdistas se vêem retratadas pelas músicas de Sosa". Essa identificação do trabalho da cantora com a causa socialista ainda incomoda o amigo e parceiro Raimundo Fagner. "As gravadoras erraram ao querer enquadrá-la nesse rótulo. Ela é uma artista muito maior." O cantor diz que, nos anos 80, quando fez parcerias com ela, Rafael Alberti e Paco de Lucia, concordava politicamente com a causa, "mas o que me interessava mesmo era a música. Esse discurso político que tomou conta dela esgotou-a do ponto de vista estético". Para Fagner, aquele momento foi interessante porque houve um intercâmbio entre a música brasileira e a latino-americana. Mas só por isso. "A música brasileira de protesto sempre foi muito superior artisticamente do que a desses outros países. É por isso que a brasileira resistiu e a latino-americana parece hoje uma caricatura."

Engajamento no Brasil foi mais indireto
DA REPORTAGEM LOCAL

A música de protesto latino-americana começou a se constituir como fenômeno mais nítido no final dos anos 50, principalmente na Argentina, no Chile e no Uruguai. O período de ditaduras nesses países, nos anos 70 e 80, reforçou seu caráter de enfrentamento aos regimes e de defesa do socialismo. Para Marcos Napolitano, professor de história da Universidade de São Paulo e estudioso das relações entre cultura popular e regime militar no Brasil, o que caracterizava esse gênero era uma mistura de folclorismo rural e urbano, uma poética lírica com mensagens políticas, uma performance despojada e o uso de instrumentos acústicos, além da recuperação de gêneros musicais tradicionais. Os temas predominantes nas letras são representações de coragem do homem do povo, de camponeses e estudantes. Napolitano aponta diferenças entre o gênero que se consolidou na América hispânica e a MPB. "Ambos dialogaram com a indústria fonográfica e tiveram como nicho o público estudantil de classe média. Mas, no caso da MPB, a relação com a indústria foi mais profunda e o público se expandiu nos anos 70." O historiador aponta, ainda, que a música brasileira nunca se configurou como "canção de barricada" como nos outros países. A exceção teria sido Geraldo Vandré. "Nosso engajamento era mais sutil, difuso e indireto, talvez menos mobilizador do que nos outros países." (SC)

HÁ POUCOS INGRESSOS PARA O SHOW
O repertório do show de Maria Rita e Mercedes Sosa, amanhã, será variado. Terá músicas dos álbuns mais recentes de ambas, "Segundo", de Maria Rita, e "Corazón Libre", de Sosa, canções de Elis Regina, clássicos da MPB e do cancioneiro latino-americano. As duas cantarão algumas músicas sozinhas e outras em dueto. Até o fechamento desta edição, ainda havia poucos ingressos para a apresentação no Credicard Hall (av. Nações Unidas, 17.955, São Paulo; tel. 0/XX/11/6846-6010). Preços entre R$ 60 e R$ 160.

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