Não vou entrar na questão do preconceito, porque particularmente, não tenho mais saco pra
falar sobre isso; Porém existe uma diferença muito claro entre um critério matemático,
exato e irrefutável (que mesmo quem não queira, se seguir sua receita o comprova, pois é
um fato real, ou simplesmente: é verdadeiro) e um critério (como no caso) utilizado para
avaliar questões "humanas" ou biológicas. Meu pai mesmo cansa de dizer que na
medicina, nem sempre 2+2 =4, ás vezes são 3... outras 5... Enfim!
Na discussão em questão então, nem se fala. O gosto pessoal fala muito mais forte do que avaliações científicas que,
por questões naturais, não têm como servirem de "referencial-infalível" para parâmetros de um critério
objetivo, que dizer então de um "subjetivo" em uma ciência não-exata. O Brasil é um país muito grande,
formada por uma população muito complexa; muito além de brancos, negros, índios, ricos, pobres, favelados e
universitários. Se uma análise musical, do ponto de vista técnico - estudo da rítmica brasileira por exemplo, já não
consegue ser uma ciência exata, que será então de uma análise para definir o que é "brega" do que é "boa
música". No caso de Belém (e daquela região em que se misturam Norte e Nordeste), brega tem um significado bem
definido: é um estilo musical com suas características próprias, interpretado e consumido por uma determinada parcela
daquela população sócio-cultural (o que não impede, claro, que um Caetano rasgue elogios, enfim!). Mas
brega, assim como várias palavras, pode possuir mais de um significado. E sem
levar isso em consideração, fica complicado seguir adiante esse assunto. Pode
significar também cabaré (puteiro), pode significar cafona. Para ser mais exato:
BREGA: Substantivo masculino e feminino
1.Bras. N.E. Pop. V. zona (11).
Substantivo de dois gêneros
2.Bras. Pop. Pessoa brega.
Adjetivo de dois gêneros
3.Bras. Pop. Deselegante, cafona.
Possui um outro verbete também:
[Do gót. brikan, pelo esp. brega.]
Substantivo feminino
1.Taur. Toureação.
E é interessante também analisar essa palavra Toureação
TOUREAÇÃO:
[De tourear + -ção.]
Substantivo feminino
1.Bras. S. Ato de tourear; lide, toureio. [Var.: toireação.]
que puxa...
TOUREAR
Verbo transitivo direto
1.Correr ou lidar (touros) em um circo ou praça.
2.Perseguir, atacar.
3.Zombar ou escarnecer de; chacotear.
4.Provocar, desafiar.
5.Bras. S. V. namorar (1).
Verbo intransitivo
6.Correr touros. [Var.: toirear. Conjug.: v. frear.]
Quer dizer, de uma maneira ou outra, está tudo meio interligado (quem quiser taí uma boa sugestão pra Tese de Doutorado...).
O que eu tenho lido até agora, não são análises criteriosas (que têm obrigação de ignorar a opinião daquele que analisa), mas sim defesas (ferrenhas! é verdade!) de pontos de vistas (o plural é esse mesmo?) PESSOAIS.
A ótica de cada coisa depende ás vezes de quem observa, outras de onde está observando. Sendo assim, cada um vai opinar de acordo com sua realidade/experiência de vida, de acordo com seu contexto pessoal.
Do mesmo jeito eu posso travar uma discussão infinita com o meu amigo japonês de que nesse momento, está de dia (não - dirá ele - está de noite!) ou então:
- Você está de cabeça pra baixo!
- Não! é vc quem está!
Entra aí a Relatividade... (quem não tem muito a ver com Tantinho não é verdade?)
Mas gostaria de atentar para uma coisa dita pelo José Luis Vivas Frontana:
"Nunca vi nem ouvi ninguém do "povão" dizer que não há diferença entre o
bom e o ruim. Só turma de universidade defende essas coisas."
Na verdade, ou melhor, na minha opinião,
É completamente diferente (deve ser!) uma frase dita pelo povão (ou pela elite), de uma
dita pela turma da universidade - pelo menos enquanto estiverem exercendo um estudo
universitário. Na universidade têm-se a obrigação de pesquisar, apurar como as coisas são
e a partir daí utilizar o conhecimento desenvolvido para alguma coisa útil. Não cabe aí
nesse momento, o universitário dizer se é brega, pagodeiro, erudito ou roqueiro. Ele deve
ser um pesquisador; Imparcial e investigativo; aberto aos fatos e muitas vezes
desprezando toda a sua opinião pessoal. Tenha certeza que depois que bater o horário de
ir embora, esse mesmo investigador vai tomar uma gelada com a galera e mudar o nível da
conversa de pesquisador, para o de "rábula famigerado" que não quer saber se
está certo ou errado - só quer ter razão (foi mal Eduardo não resisti...) e defender a
unhas e dentes a sua verdade (que nesse momento, não tem muita obrigação de ser
verdadeira, pois é uma verdade pessoal,
completamente diferente de uma verdade científica)
Aliás, Cristo perguntou:
- E o que é a verdade?
E se Cristo, tribuna, que foi quem; foi não sabia a resposta, eu é que não vou tentar provar quem é que está com a razão. rsrsrsrsrs
Falei!
Marcelo Neder
José Luis Vivas Frontana <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Poderia explicar-nos em que preconceito se baseia a tese de Broch?
Critérios "objetivos" formais não existem pra nada, em tudo participa a
faculdade do juízo, até nas provas matemáticas. Isso não quer dizer que
nada seja melhor ou pior. Esse "dogma" de que tudo é igual, de que não
existem critérios, esse relativismo radical é justamente o que vem
imperando nas universidades e nos centros intelectuais do Ocidente há
mais de 30 anos. O pós-modernismo não foi inventado nas favelas.
Nunca vi nem ouvi ninguém do "povão" dizer que não há diferença entre o
bom e o ruim. Só turma de universidade defende essas coisas.
JLV
Eduardo S. Martins wrote:
José Luis, teses estas escritas com base naqueles preconceitos ao qual me referi antes. O Marcelo
falou do Chico Buarque, mas se você for aqui do lado nas pequenas cidades, como Jardinópolis e
Jurucê, gênio é Tião Carreiro e não Chico Buarque. Não existe critério "objetivo" para se
definir o que é ou não é de bom gosto, o que é ou não é kitsch, existe apenas critérios subjetivos,
baseado no gosto pessoal de cada um. Este "dogma" criado pela turma da MPB universitária
precisa ser desfeito, pelo seu caráter preconceituoso e limitativo.
abs.
Eduardo Martins
----- Original Message -----
From: "José Luis Vivas Frontana"
Acho que você está enganado. Brega é uma forma de kitsch, fenômeno
altamente estudado. Recomendo artigo do escritor e crítico austriaco
Hermann Broch, "Algumas considerações acerca do problema do kitsch". A
norte-americana Susan Sontag também escreveu um trabalho muito mais
conhecido sobre isso, mais asequível, mas bem inferior na minha opinião
e no fundamental uma cópia do trabalho de Broch. Brega, camp, kitsch,
são expressões do mesmo fenômeno nas artes: a busca do efeito pelo
efeito, maneirismo, o inautêntico. 90% do MPB é brega. Já o samba,
produto coletivo muito depurado, quase nunca é, mesmo quando é ruim. O
problema é que enquanto o samba cresceu de forma orgânica, adotando
elementos musicais de diversas procedências distintas por criterios
puramente estéticos, o MPB é básicamente um produto comercial que
mistura elementos estranhos à música brasileira por imposição do
mercado, não por necessidade estética, e o resultado naturalmente só
podia ser kitsch. É irônico, mas o MPB só sofre influência do pop
angloo-saxão, jamais, por exemplo, da música latina, que seria muito
mais assimilável. Por motivos estéticos teria sido muito mais sensato
adotar elementos da música de Cuba, de Porto Rico, do Caribe em geral,
do landô peruano, cumbia colombiana, etc. Mas no Brasil quase ninguém
sabe o que é isso.
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