A artistinhas de araque não têm culpa de nada, são apenas vítimas do sistema de sucessos instantâneos imposto pelas gravadoras. São milhares deles, de vez em quando um estoura e ganha muito dinheiro (pros seus padrões, que se diga, pois a maior partes dos dividendos fica mesmo é com a gravadora) por alguns meses e voltam a ser os artistinhas de araque. E hoje em dia a moda nem é mais gravar CDs, a moda é se inscrever em um programa de televisão que vai escolher o próximo "ídolo" a alcançar a "fama". Depois as gravadoras entulham as rádios e programas de auditório de jabás e esses, por sua vez, bombardeiam nossos ouvidos até que a coisa penetra no cérebro por osmose, até que apareça o próximo artistinha. Quem faz música pra ganhar dinheiro não é artista, é um fantoche da mídia. Pode ser que todo mundo queira ganhar muito dinheiro, mas nem todos estão dispostos a abrir mão de sua liberdade de criação e de seus valores por isso.
Aquele abraço, Gabriel Gomes -----Mensagem original----- De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Ney Gastal Enviada em: quarta-feira, 13 de junho de 2007 16:39 Para: "[EMAIL PROTECTED]"@samba-choro.com.br; [email protected] Assunto: Re: Re: [S-C] Re:Artistas X Mídia X Público "Finalmente, este negócio da "filosofia da vida capitalista" é meio bater em rótulos superados. Nenhum país comunista teve, jamais, liberdade de criação artística. Neles, a repressão era prévia, na criação. No capitalismo é posterior, na comercialização. É quase a mesma bosta, só que no capitalismo sempre restam os meios alternativos de divulgação. No comunismo, só resta pegar um avião e fugir para outro país." Ney, por favor só não confunda comunismo com ditadura. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Repressão na criação tivemos no Brasil (e das piores) e o país nunca foi comunista. *>>> Concordamos, mas veja bem: não ataquei o comunismo (autointitulado por seus criadores como "DITADURA do proletariado", é bom não esquecer), apenas fiz um contraponto à sua observação de que a culpa de tudo está em nossa sociedade capitalista. Minha tentativa foi de mostrar que, na verdade, a origem de tudo está no exercício do poder, seja por parte de que doutrina for. Em todo o caso, mesmo em nosso período da ditadura militar - ou, para irmos um pouco mais longe, até alí ao lado, na terrível ditadura argentina onde até hoje restam tantos "desaparecidsos" - no terreno da criação houve uma repressão menor do que na maioria das ditaduras comunistas da mesma época. Tomemos Chico, o exemplo mais óbvio: ele escrevia e compunha o que bem entendia e mandava para a censura, que cortava o que bem entendia e mandava de volta para ele, que refazia tudo e mandava de volta para ela e assim por diante. Um horror, é verdade, mais menos do que na China, onde durante a "revolução cultural" dos anos 60 e 70, segundo dados do próprio partido comunista chinês, mais de 80% dos músicos e poetas do país foram executados e a maioria dos restantes deportados para as montanhas do Himalaia. Se quiser usar um exemplo diferente de ditadura comunista, use o do Chile de Allende, onde nunca houve repessão à criação. E se quiser usar um exemplo de ditadura capitalista diferente, use o do mesmo Chile de Pinochet, onde em pleno Estádio Nacional cortaram as mãos de Victor Jara (na época chamado justamente de "Chico Buarque do Chile"), depois jogaram-lhe seu violão e dissem: "Canta agora, continua cantando se puderes". Ele morreu se esvaindo em sangue e os milicos de lá saíram a caçar todos os criadores que julgassem "de esquerda". O ser humano é podre, quando abancado no poder, seja em nome do que for. * O sentido em que coloquei o capitalismo foi menos como filosofia política, mais pelo lado econômico. São rótulos, concordo, mas é a visão de lucro que norteia nossa produção fonográfica de massa. *>>> Tudo bem, mas só para implicar um pouco: os artistas tocam de graça ou também visam o lucro? A escala é outra, mas, no fundo, "todo mundo precisa viver". Agora que os torrents se espalham pelo mundo, distribuindo música de graça, gravadoras e artistas estão unidos como nunca, gritando pelos seus lucros, tão deproporcionais, que estão ameaçados. Neste caso, fico mais com os independentes que gravam seus discos por conta, vendem na porta de seus shows e torcem para que suas músicas sejam espalhadas pela internete, para ficarem conhecidos e fazerem mais show. O problema é de escala. Todo mundo quer fazer MUITO sucesso, ser conhecido no país, no mundo e, como os bandidões do cinema, conquistar o Universo. Como é muita gente querendo isso, não é possível. Não existe espaço pra todo mundo. Se cada um se satisfizesse em fazer sucesso em seu bairro, acabaria sendo conhecido em sua cidade, depois, talvez, no estado, depois no país e quem sabe até no mundo. Uma carreira, lenta, construída. Mas não. Hoje qualquer artistinha de araque grava um CD e vai para o Rio ou São Paulo tentar aparecer em rde nacional sem que sequer seus vizinhos antigos saibam que ele gravou o disco. Resultado: precisa se subordinar ao padrão da mídia, que para disputar audiência baixa o nível, e assim vai. Resulta tudo numa grande diarréia boiando no oceano das artes, onde nosso artistinha será sempre um mero e pequeno cocozinho tentando agradar a todos os lambarís que tentam comê-lo. * Espero seu comentário paralelo... >>> Ok. Aquele abraço, Gabriel Gomes _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta _______________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
