Caros,

Peguei a discussão meio atrasado, meu tempo é pouco então me permitam dar um 
pitaco.
Em primeiro lugar acho muito gostoso que rolem essas discussões paralelas 
(chiiiiii Paulo, vai começar tudo de novo!). Outro dia um amigo me perguntou 
sobre o meu gostar do samba e eu disse que o samba era tão universal que era 
difícil algum tema já não ter sido falado em algum samba.
Bom Ney, sem mais lesco-lesco. Acho que quando vc. fala em comunismo até agora 
não citou nenhum país comunista, mesmo porque quase tudo que rolou até agora 
foi um grande arremedo do que ativistas e pensadores ao longo da História 
chamaram de Comunismo. Comunismo real, socialismo real, pra mim são balelas, 
arremedos burocráticos que hoje, exatamente por não terem dado certo, são 
citados por seus opositores como exemplos reais e  negativos. Tem uma figura de 
linguagem que serve muito bem pra exemplificar isso aí, só que eu não me lembro.
E aí entro numa outra fala sua que conduz à negação de qualquer tipo de poder. 
Creio que sua formulação é válida quando o poder é exercido em nome de castas, 
classes sociais ou burocracias.
Infelizmente a utopia socialista está cada vez mais longe, parece só restar a 
segunda alternativa proposta pelo titio, ou seja, a barbárie. Creio que só nos 
resta colocar o mp3 no ouvido e ficar ouvindo um samba do Aldir.

Abraços,

Valdir

PS: Curti a sua história. Parece que as situações, como as sogras, só mudam de 
lugar e de nome. Também vivi pedaços bem parecidos aqui em São Paulo nas 
décadas de 60 e 70.

De:[EMAIL PROTECTED]

Para:[email protected]

Cópia:

Data:Thu, 14 Jun 2007 14:29:27 -0300

Assunto:Re: [S-C] Re:Artistas X Mídia X Público

> *Bueno:
>
> Vou responder a mais esta questão, até para não ficar parecendo um ogro
> reacionário furiosamente anticomunista, mas depois acho bom nos redirigirmos
> ao fóco de discussão desta lista, da qual nos afastamos para este
> interessante porém dispersivo (culpa minha) debate.
>
> Antes de mais nada, uma rápida apresentação: tenho 56 anos, sou jornalista
> e filho de um jornalista que foi o responsável pela criação do Clube de
> Cinema de Porto Alegre (o mais antigo ainda am atividade no Brasil), do
> Festival de Cinema de Gramado, do Festival de Coros de Porto Alegre (década
> de 60) e de outras coisas que não vêm ao caso. Virei jornalista, também, fui
> editor cultural do Correio do Povo na década de 70, fiz a única entrevista
> concedida e publicada na imprensa naquela época com Geraldo Vandr, e
> amanheci no xilindró. Exagero, mas precisei dar depoimento e explicar como
> me atrevia a publicar - ainda por cima em um domingo - a entrevista de
> alguém cuja simples menção do nome estava proibida
>
> Meu pai sempre foi de esquerda. O Clube de Cinema, anos a fio presidido por
> ele, promovia nas décadas de 50 e 60 repetidos festivais de cinema tcheco,
> polonês, soviético e cubano, além de outros "menos comprometedores". Quando
> houve o golpe de 64, tinhamos em casa um saco (um baita saco, coisa de metro
> e meio de altura e sabe-se lá quanto de peso) de filmes de propaganda
> cubana. Morávamos no centro, a quadra e meio do QG do Exército e três do
> Correio do Povo. Depois de alguns meses de preocupação com aquela verdadeira
> bomba escondida no quartinho de empregada, uma noite ele aproveitou o carro
> do jornal e levou tudo para um depósito do Auditório Araújo Vianna, aqui de
> Porto Alegre, então recém inaugurado e do qual ele era o primeiro
> administrador. Deu zebra. Menos de um mês depois a Banda dos Mariners dos
> EUA, que participavam da "Operação Unitas" com a Marinha Brasileira,
> marcaram apresentação em Porto Alegre, justamente no auditório.
>
> Em nova operação noturna o saco foi removido na véspera da varredura de
> segurança feita pela Polícia Federal no local da apresentação (na época a PF
> avisava com antecedência o dia em que faria este tipo de operação) e nunca
> mais ouvi falar dele.
>
> Em meu quarto, a prateleira de livros infantis guardava na fileira de trás
> obras proibidas de todos os tipos, que, a partir de 68 começaram (pelo menos
> as mais perigosas, como as de Guevara), a ser "desaparecidas"
> preventivamente. Mas em meados da década de 70 o Clube de Cinema voltou a
> fazer festivais soviéticos e voltamos a conviver com o pessoal da Embaixada.
> Anos mais tarde, um colega de trabalho, fora do jornal (na verdade na
> Universidade Federal) me mostrou uma foto em que eu aparecia conversando com
> o adido cultural da Embaixada da URSS, anos antes, e me disse que, na época
> (anos 70), este tipo de encontro era monitorado.
>
> Voltando aos anos 50 e 60: tínhamos projetor de 16 milímetros em casa, e foi
> em sessões domésticas que assisti "O Encouraçado Potenkin", "Outubro",
> "Alexandre Newsky" e uma infindável lista de curta-metragens tchecos,
> poloneses, canadenses, americanos, franceses, enfim, coisas de todas as
> origens, muitas delas que a censura não autorizava a exibição pública. Meu
> pai visitou a Alemanha Oriental, Tchecoeslováquia, Polônia a convite de seus
> governos, e só não foi a URSS porque meu avô adoeceu na época em que tinha
> sido convidado, e ele precisou voltar da Alemanha.
>
> Em resumo, convivi e acreditei muito nisto tudo. Assisti aos bons filmes
> feitos por lá, e até hoje busco em DVD, VHS ou o que for, uma cópia do
> famoso filme de bonecos tcheco que conta a história de um motociclista e que
> muito me marcou. Alguém sabe onde posso conseguir?
>
> O que pretendi com esta introdução sobre minha infância e adolescência, para
> não ter de falar nas dificuldades que foi enfrentar a censura no início da
> vida profissional adulta, durante os anos 70, foi mostrar que até por
> formação, acreditei e ainda acredito que uma sociedade mais justa é, sim,
> possível e desejável, mas que pelo contato direto aprendi, também, que o
> caminho para ela não passa por qualquer regime de força. Como o comunismo é,
> conceitualmente, a "ditadura do proletariado", hoje em dia prefiro manter
> distância.
>
> Quando, nos textos anteriores, evitei citar Cuba, estava esperando que ela
> surgisse como argumento. Cuba tem o melhor programa de saúde pública do
> mundo, mas não tem a mesma expressividade na área cultural e,
> principalmente, não tem o que era o ponto central de nossa discussão, que é
> a liberdade de expressão.
>
> A escola internacional de cinema de San Antonio de los Baños foi criada com
> o objetivo prescípuo e assumido de ensinar a fazer filmes de doutrinação. Tá
> na placa de seu saguão. Se assim é, não conta. Aliás, tanto o cinema cubano
> quanto a música cubana só conseguem produzir obras de protesto se forem
> contra situações estrangeiras. Sim, existem bons filmes e músicas sobre a
> situação de países africanos, de países latino-americanos, de injustiça
> social e política nos mais diferentes quadrantes do mundo, menos, claro, em
> Cuba. Ora bolas, a liberdade se mede pela possibilidade de alguém se
> expressar dentro de um país sobre o que acontece neste país. Sílvio
> Rodrigues, por exemplo, tem belas canções de cunho social, mas sempre
> falando na injustiça alheia. É como se Chico Buarque, durante a ditadura
> brasileira, cantasse sobre as questões da China, da Albânia ou da própria
> Cuba. Fosse assim, é claro, não teria sido perseguido e censurado. Como
> Sílvio não é.
>
> Não há país nem grupo social que não tenha descontentes. Cadê os de Cuba?
> Quando se está lá, procurando bem até se encontra alguém que toque baixinho
> uma musiquinha debochando da barba ou da oratória do Fidel. Mas só na
> camufla.
>
> Os velhinhos do Buena Vista e outros tantos de sua geração fazem uma música
> legal, mas nascida nos cabarés quando Cuba era - com perdão pela palavra -
> um puteiro dos Estados Unidos administrado pela máfia, uma ditadura ainda
> pior que a atual. Só que uma ditadura pior não justifica uma outra ditadura,
> assim como o assassino de uma pessoa não é melhor do que o assasino de duas.
>
> Sobre a Polônia, é diferente, ela (como a Hungria e a então chamada
> Iuguslávia) nunca aceitaram plenamente os regimes comunistas, que na
> realidade eram dirigidos de fora. Por isso, nestes países, sempre houve um
> pouco mais de condescendência nacional para com seus críticos, ainda que,
> dos diretores citados, um (Polanski) praticamente nada fez lá dentro (seu
> primeiro filme importante, "A faca na água", já é inglês) e os outros dois
> passaram a vida às turras com o governo e sofrendo perseguições capitaneadas
> pelas interventores soviéticos.
>
> Em resumo, como escrevi lá no início deste debate quando ele ainda era mais
> limitado, cada um sabe melhor de sua cidade do que das outras. No caso dos
> regimes políticos, cada um sofre mais os problemas daquele onde vive do que
> dos outros. As uvas do quintal do vizinho sempre parecem mais verdes. A
> melhor forma de se analisar à distância sem paixão nem sectarismo um regime
> ou um governo, é ver como ele trata sua oposição, e até que ponto permite a
> liberdade de criação artística, principalmente quando esta lhe é crítica.
> Este, para mim, me parece o único critério possível de ser observado com
> relativa facilidade. E, sob ele, os governos comunistas geralmente perdem
> feito para os outros.*
>
> *E se a nossa mídia aqui é complicada, imaginem a que é administrada pelo
> governo, em um país sem liberdade e onde o pensamento único é imposto à
> força dentro de um também único (seja qual for) parâmetro, não admitindo em
> hipótese alguma a possibilidade de estar errado? Consegue? Já estivemos
> muito perto disso. É aterrorizante. Nestes lugares, nem uma lista de
> discussão como esta seria permitida...
> E sobre este assunto, pego minha trouxinha e vou embora. Abraços a todos.
>
> Ney
>
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