O grande trunfo da revolução cubana, foi não ser amparado somente por 
ideologias políticas, mas representar para o povo cubano a liberdade que nunca 
tiveram quando colônia espanhola e durante a invasão americana.


Aquele abraço,
Gabriel Gomes



-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de José Luis Vivas 
Frontana
Enviada em: quinta-feira, 14 de junho de 2007 20:32
Para: [email protected]
Assunto: Re: [S-C] Re:Artistas X Mídia X Público

Bien: 

Ney Gastal wrote:

>  Como o comunismo é,
> conceitualmente, a "ditadura do proletariado", hoje em dia prefiro manter
> distância.


Meu caso é mais simples: eu jamais simpatizei com o comunismo, nem ontem 
nem hoje.

>
> Quando, nos textos anteriores, evitei citar Cuba, estava esperando que 
> ela
> surgisse como argumento. Cuba tem o melhor programa de saúde pública do
> mundo, mas não tem a mesma expressividade na área cultural e,
> principalmente, não tem o que era o ponto central de nossa discussão, 
> que é
> a liberdade de expressão.

Discordo totalmente, acho a arte cubana atual imcomparável.  Os melhores 
músicos eruditos, grandes instrumentistas que estão tocando pelo mundo 
tudo, os melhores pianistas de jazz da atualidade (Rubalcaba, Chucho 
Valdés), as melhores  bandas do continente (Van Van) etc etc. Até 
escritores malditos como Pedro Gutierrez, que descreve Cuba como a nova 
Sodoma e Gomorra, e continua vivendo em Cuba sem grandes problemas 
(traduzido ao português opra quem quiser comprovar). 

>
> A escola internacional de cinema de San Antonio de los Baños foi 
> criada com
> o objetivo prescípuo e assumido de ensinar a fazer filmes de doutrinação. 

Você acha os filmes do español Benito Zambrano,  que saiu dessa escola, 
filmes de doutrinação. Seu filme Solas, aclamado no mundo todo, 
doutrinação? O filme Habana Blues dele, tremendamente crítico com Cuba e 
filmado em Cuba, filme de doutrinação? Morango e Chocolate então? Não 
trata Morango e Chocolate de Cuba? Não é um filme crítico com a 
realidade cubana? Acho que você não está acompanhando muito bem o que 
acontece por ali. 


>  Ora bolas, a liberdade se mede pela possibilidade de alguém se
> expressar dentro de um país sobre o que acontece neste país. Sílvio
> Rodrigues, por exemplo, tem belas canções de cunho social, mas sempre
> falando na injustiça alheia.

Também não é verdade. Por outro lado, você acha ruim criticar a invasão 
do Iraque? A ditadura chilena? Criticar o Império é criticar "injustiças 
alheias"? Seria então o embargo feroz que sofre Cuba algo "alheio"? Não 
entendo. Você está criticando aqui Cuba, não é?

> É como se Chico Buarque, durante a ditadura
> brasileira, cantasse sobre as questões da China, da Albânia ou da própria
> Cuba. Fosse assim, é claro, não teria sido perseguido e censurado. Como
> Sílvio não é.

Você quer dizer que Silvio Rodríguez é covarde?  Olha, Silvio é 
provavelmete o artista mais reconhecido das Américas,  enche o Estadio 
Nacional de Santiago do Chile quando toca lá, o Zócalo da capital 
mexicana, ele atrai facilmente  50 mil pessoas nesses paises. Sabe a 
grana que esse cara iria ganhar se ele pulasse fora? Se ele fosse pra 
Miami? Sabe quantas vezes devem ter oferecido a ele milhões de dólares 
pra ele abandonar Cuba e virar "dissidente"? Mas ele segue em Cuba, 
vivendo a penúria de seu povo, que é grande, e como você sabe, se você 
conhece um pouco a situação cubana, ninguém se livra da penuria por lá, 
nem artistas famosos. Em Miami ele podia viver com o rei Midas, jamais 
teria que se preocupar que um dia Miami fosse invadida e ele fosse 
enviado para algum estádio de futebol - e não exatamente pra bater uma 
bola. Sugerir que Silvio é covarde é o fim da picada.

Quem quiser ouvir o que ele mesmo pensa sobre Cuba, sem censuras de 
nenhum tipo, e com ele se declara fortemente crítico com muitos aspectos 
do regime, é só acessar a entrevista que está nestes URLs:

http://youtube.com/watch?v=HAQ3vsjLJ1U&mode=related&search=
http://youtube.com/watch?v=MJ6N3ZZ5ACg&mode=related&search=
http://youtube.com/watch?v=Cs-tMOFZUaU&mode=related&search=
http://youtube.com/watch?v=Y0h_ZQG5ToY&mode=related&search=


>
> Não há país nem grupo social que não tenha descontentes. Cadê os de Cuba?

De novo, você não está acompanhando o que acontece em Cuba. Os 
dissidentes cubanos costumam se reunir, com grande estardalhaço da mídia 
internacional, na Havana, em muitos locais. Você não ouviu falar das 
"Damas de Blanco"? De Marta Beatriz Roque, Oswaldo Payá, Vladimiro Roca? 
Eles não param de encher o saco  se reunindo na capital cubana e a midia 
internacional não para de falar neles.

Descontentes em Cuba? Estão por todas partes. É só você conversar com 
alguem nas ruas da Havana pra ver o que é descontentamento, eles não 
perdem uma ocasião de malhar o regime, em voz alta, pra todo mundo 
ouvir, já que cubano não sabe falar baixo. Ninguem em Cuba tem medo de 
dizer o que pensa.

> Quando se está lá, procurando bem até se encontra alguém que toque 
> baixinho
> uma musiquinha debochando da barba ou da oratória do Fidel. Mas só na
> camufla.

Você está fora de órbita companheiro, vai só ver um dos inúmeros 
stand-ups e shows cômicos na Havana, como o do Robertico: geniais, e 
eles não param de malhar tudo o que acontece em Cuba. Você acha que 
ninguem ouve? Uma hora eu vi como  um desses cômicos começa a fazer 
piada sobre uns caras com camisa xadrês, e eu boaindo perguntei pro meu 
anfitrião, militar de alto escalão, veterano da guerra de Angola, 
outrora mmbro do serviço se segurança de Castro, atualmente gerente 
daquele local onde eu estava vendo o show, quem eram esse caras de 
camisa xadrês. No meio de gargalhadas, ele me explicou: os caras com 
camisa de xadrês são os agentes "secretos" da policia, eles sempre levam 
camisa xadrês. Ele estava fazendo deboche da policia cubana. Se isso for 
na camufla...

>
> Os velhinhos do Buena Vista e outros tantos de sua geração fazem uma 
> música
> legal,

É só esse pessoal que você conhece na música cubana? Não é culpa de Cuba 
que os gringos resolveram fazer comércio comercio com esses velhinhos. 
Eles eram bons, mas Cuba tem muito mais que isso.


> Sobre a Polônia, é diferente, ela (como a Hungria e a então chamada
> Iuguslávia) nunca aceitaram plenamente os regimes comunistas, que na
> realidade eram dirigidos de fora. Por isso, nestes países, sempre 
> houve um
> pouco mais de condescendência nacional para com seus críticos,

A realidade é todo o contrário: em Cuba sempre ouve muito mais liberdade 
que em qualquer pais da cortina de ferro. Justamente porque o regime 
cubano sempre teve substancial apoio popular, como você mesmo sugere.


> Em resumo, como escrevi lá no início deste debate quando ele ainda era 
> mais
> limitado, cada um sabe melhor de sua cidade do que das outras. No caso 
> dos
> regimes políticos, cada um sofre mais os problemas daquele onde vive 
> do que
> dos outros. As uvas do quintal do vizinho sempre parecem mais verdes. A
> melhor forma de se analisar à distância sem paixão nem sectarismo um 
> regime
> ou um governo, é ver como ele trata sua oposição, e até que ponto 
> permite a
> liberdade de criação artística, principalmente quando esta lhe é crítica.
> Este, para mim, me parece o único critério possível de ser observado com
> relativa facilidade. E, sob ele, os governos comunistas geralmente perdem
> feito para os outros.*

Tá enganado: era muito pior na Alemanha nazista e na Espanha de Franco, 
por exemplo, e em todas as ditaduras da América Latina. Pega a tortura, 
por exemplo. Ela só existiu na Europa do Leste durante o regime de 
Stalin. Eu sempre perguntava pros meus amigos poloneses se eles 
conheciam alguem que tivesse sido torturado na Polônia : ninguém. 
Assassinados pelo regime? Menos ainda. Quantos foram assassinados na 
Guatemala? Ouço falar em 200 mil, meio milhão na América Central durante 
os anos de Reagan. Aí dizer que que a Polônia perde feio pra Guatemala 
não é sério. Eu contava pros meus amigos dissidentes as histórias de 
meus amigos argentinos, brasileiros, uruguayos, etc, que tinham sofrido 
o pau de arara, eletrochoques, etc, eles nem sabiam o que era isso. Os 
regimes conunistas eram ruins, sem dúvida, e eu, ao contrario de você, 
nunca tive ilusões a respeito, mas não eram nada comparável aos regimes 
militares da América Latina. Nem de longe. Você conhece algum artista de 
pais comunista - exceção feita ao  regime totalitário de Stalin - que 
tivesse sido torturado ou assassinado? Como Victor Jara e muitos outros? 
Se conhecer, me dá os nomes.

Você acha ruim que em Cuba não tem canção de protesto contra o regime 
cubano, e que Silvio Rodríguez só critica outros  regimes. Bom, agora 
mesmo você está criticando Cuba, não o  Brasil. Por quê? Você foi o 
primeiro a tocar no assunto do regime político cubano. Por quê? Você é 
brasileiro, né? Então por quê você acha aceitável criticar Cuba? Falta 
não faz, toda a mídia nacional brasileira não pára de criticar Cuba. 
Será por que a mortalidade infantil em Cuba é menos de 7 por mil, menor 
que a dos Estrados Unidos, e não pra lá de 30 como no Brasil, com um PIB 
per capita 5 vezes superior ao de Cuba? Será que é porque em Cuba jamais 
houve um só caso conhecido de assassinato político extra-judicial, de 
desaparecimento? Ou será porque a policia cubana jamais assassinou um 
cidadão seu nas ruas? - só no Rio parece que são 3 por dia, pra 
comparar. Será que é porque jamais houve esquadrões da morte lá? Ou 
porque não há um único caso comprovado de tortura nas prisões cubanas 
desde a revolução - coisa corriqueira em todas as cárceres brasileiras? 
Ou será porque Cuba mandou seu exército pra África pra acabar com o 
regime do Apartheid, o que conseguiram, enquanto no Brasil o exército se 
dedicava a torturar e assassinar seus cidadãos? Será que é porque eles 
não tem caveirão? Porque eles não mandam o exército invadir os bairros 
pobres? Porque não existiram Candelárias, Vigários Gerais, Carajás? 
Talvez isso explique também por que os artistas cubanos pensem 
diferentemente, e achem que em Cuba há mais coisas pra elogiar do que 
pra criticar.

É muito estranho que num contexto desses você ache que deva criticar 
Cuba, colocar a lupa na gota fora do pinico do regime cubano, enquanto 
na tua casa  acontecem mais tropelías contra os direitos humanos num só 
dia do que em quase meio século de revolução cubana.

Abraços,

JLV

 
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