Muito bom saber uma coisa destas...todos os anos eu passo algumas semanas em 
SP, na próxima ida já sei o que fazer aos sabados pela manhã.
  Valeu....
   
  Abraços,
  Freitas
   
   
  
Maria Inês Toledo Piza <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
  21/02/2006 - 17h26
Loja de instrumentos abriga a mais célebre roda de choro de São Paulo 
RODRIGO SIQUEIRA
especial para o UOL



Bandolins estão nas prateleiras e em mãos hábeis na antiga loja


Depois de inaugurar uma pequena oficina de consertos de instrumentos musicais, 
em 1958, o comerciante Miguel Fasanelli, 70, aos poucos inscreveu seu nome na 
história da dupla de ouro da música brasileira. Não pense o desavisado que a 
referência o vincule diretamente aos Chitões, filhos de Franciscos e outros 
assemelhados da música sertaneja industrial. Trata-se de um dos maiores 
incentivadores da dupla samba e choro na capital paulista. 

Localizada no número 46 da rua General Osório, a duas quadras da Sala São 
Paulo, a loja Contemporânea Instrumentos Musicais abriga uma das mais 
tradicionais rodas de choro da cidade. A nona vídeo-reportagem da série Samba 
SP, do UOL, partiu, numa chuvosa manhã de sábado, para conferir as harmonias e 
melodias que vibram todas as semanas nos fundos da loja. 

Imagine-se a hipotética situação de um músico aprendiz que, nos idos da década 
de 1960, entrasse numa loja de instrumentos musicais para comprar uma palheta e 
desse de cara com uma roda de choro formada por Jacob do Bandolim, Plauto Cruz, 
Peri Cunha e Darci Alves (os três últimos do time que acompanhava Lupicínio 
Rodrigues). O resultado não poderia ser outro. Qualquer cidadão que não fosse 
ruim da cabeça ou dos ouvidos pararia em um canto e ficaria ali horas e horas 
até que vibrasse a última corda de um violão ou de um bandolim. 

Como São Paulo tem doidos, mas também tem muita gente que aprecia a boa música, 
o hipotético aprendiz não ficou sozinho encostado no balcão. Centenas de outros 
aprendizes de verdade, músicos amadores e profissionais de altissimo gabarito 
formam, há cerca de 40 anos, a roda de choro da Loja Contemporânea, no centro 
de São Paulo. Uns tocam, outros apenas escutam e apreciam. 

A roda acontece todos os sábados entre 9h e 14h. Vêem-se sobretudo pessoas de 
cabeleiras brancas empunhando os violões de sete cordas, os cavaquinhos, 
pandeiros e bandolins. Alguns são músicos profissionais, outros, diletantes. A 
maioria tem longa ficha corrida no choro. "A loja abre às 9h e, quando dá 8h30, 
já tem gente esperando na porta pra tocar", diz Fazanelli, referindo-se aos 
seus grisalhos contemporâneos. 

De vez em quando, costuma aparecer um jovem talento desinibido para entrar na 
roda e acompanhar os experientes chorões. Mas tem de ser excelente músico para 
encarar a peleja. "Aquele que não sabe nem encosta para tocar", conta o dono da 
loja. 

O público, que fica em bancos na sala dos fundos da loja, é formado por gente 
de todas as idades e classes sociais, mas que tem a música como interesse 
transversal. É comum ver até uma dezena de pessoas com os olhos fechados, 
absorta nos longos solos improvisados de violão e bandolim. 

Samba e choro na beira do balcão

O espaço da Contemporânea extrapola as relações comerciais de compra e venda de 
beirada de balcão. Desde a década de 1960, a loja é um ponto de encontro de 
músicos profissionais e amadores de São Paulo e de outros Estados. A capacidade 
de Fasanelli de construir amizades entre os músicos foi o atrativo para que a 
sua loja se tornasse um ponto de referência na cidade. 

No começo dos anos 1960, as escolas de samba da capital amargavam grandes 
dificuldades para levar o Carnaval às ruas. Os representantes das agremiações 
costumavam passar uma taça nas ruas de comércio para levantar dinheiro para os 
desfiles. Mesmo assim, as escolas não conseguiam recursos para cobrir todas as 
despesas. "Eles não tinham verba, encomendavam os instrumentos, mas não tinham 
dinheiro pra pagar. Se um instrumento custava 10 e eles tinham 2, levavam o 
instrumento e pagavam bem depois. E assim a gente ia ajudando." 

Frequentador da Contemporânea "há mais de 40 anos", Airton Santa Maria, membro 
da velha guarda da escola de samba Camisa Verde e Branco, acrescenta que "até 
doação de instrumento ele fazia. A gente não tinha condição e ele ia até a 
Barra Funda (reduto da Camisa Verde e Branco) levar os instrumentos". 

A proximidade entre os batuqueiros e Fasanelli permitiu a formação de parcerias 
para desenvolver novos instrumentos de percussão. "As escolas de samba saíam 
com instrumentos de banda, de fanfarra, era instrumento pequeno. Então a gente 
desenvolveu o surdo de marcação, fez o surdo `treme-terra´, que era um absurdo 
pra época, de tão grande", revela. 

Outros instrumentos vieram depois, como a timba. "Eu fui um dos primeiros a 
tocar a timba feita pelo Miguel. Eu, o Waltão e o João Parahyba, do Trio 
Mocotó. Na época a loja era pequenininha", lembra Luis Carlos César, músico 
profissional há mais de 40 anos e também frequentador da General Osório. 

O começo da roda da Contemporânea data também dos anos 1960. Enquanto Miguel 
ajudava os sambistas paulistanos, dava ainda guarida musical aos que chegavam 
de fora. "Vinham os músicos cariocas fazer show em São Paulo, mas eles não 
tinham onde tocar de dia. A noite acabava cedo, então eles iam dormir e de 
manhã vinham tocar na loja." Fasanelli orgulha-se de ter recebido várias vezes 
nas rodas de samba de sua loja músicos como Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara 
Nunes, Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. 

Os chorões começaram a marcar ponto na loja pelo mesmo "problema" dos sambistas 
de fora de São Paulo. Quando Lupicínio Rodrigues vinha fazer shows (noturnos) 
na cidade, os músicos que o acompanhavam, Plauto Cruz, Peri Cunha e Darci 
Alves, entre outros, não tinham o que fazer durante os dias e baixavam na 
Contemporânea. 

Jacob do Bandolim, um dos maiores chorões que o Brasil teve, foi levado à 
Contemporânea por Antônio D´Auria, seu parceiro, que possuia uma loja de 
equipamentos de cinema na região e já frequentava a loja de Fasanelli. 

Povoada por compositores, instrumentistas, estudiosos e admiradores de música, 
a loja segue a alimentar os acordes harmônicos e o bater do pandeiro que atrai 
e enlaça as pessoas em torno das cordas dos bandolins e violões. Jamil Karan, 
que ostenta cabelos brancos e uma paixão pela música dignas da roda da rua 
General Osório diz que a freqüenta há 12 anos. "Eu fiquei sabendo por um amigo 
que tinha essa roda aqui e passei a vir todos os sábados", diz Karan. Paulo 
Cerantula, que comparece na roda há 8 anos, diz que descobriu a Contemporânea 
por um atributo nato dos chorões. "O chorão sempre sabe onde tem um bom choro, 
e onde tiver ele vai estar lá". 

Dona Inah, que estreou em disco aos 69 anos e venceu o prêmio Tim de Música 
2005 como revelação, aos 70, se diz atraída pela boa música da Contemporânea há 
mais de 10 anos. Aliás, música com a qual contribui. Com um "sete-cordas" na 
mão, o sr. Karan pergunta à reportagem: "está gravando? Então grave aí que esta 
é a melhor cantora do Brasil". 

E ela põe-se a cantar: "Todo verso triste que eu puser numa canção / é o meu 
coração que chora / E eu fiquei assim quando você / Sem dizer adeus foi indo 
embora / Pela minha voz e meu olhar todos verão / Como vivo triste agora / E eu 
não posso mais com a minha dor / Porque qualquer canção de amor / Me dá vontade 
de chorar." 


Roda de Samba e Choro
Loja Contemporânea 
Todos os sábados das 9h às 14 horas 
Grátis 
Rua General Osório, nº 46 - Centro de São Paulo

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