Extraído da Revista ISTO É, edição nº 1973 (22.08.20070
http://www.terra.com.br/istoe/
O jongo resiste
Ritmo africano mantém-se vivo em favela carioca e conquista jovens de classe
média
FRANCISCO ALVES FILHO
A tarde ensolarada de quarta-feira parece ainda mais alegre com o alarido
das crianças e dos adolescentes que sobem as vielas íngremes do Morro da
Serrinha, em Madureira, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. São 42
meninos e meninas a caminho de mais uma aula de dança. O som que os faz
mover o corpo não é o hip-hop ou o funk, cuja batida anima as noites de
sexta e sábado em clubes do lugar. É o jongo, ritmo ancestral trazido para o
Brasil pelos escravos e que deu origem ao samba. A garotada faz parte do
grupo Jongo da Serrinha, nascido para preservar essa manifestação cultural e
que tem como matriarca a simpática Tia Maria, 77 anos. Ao todo, cerca de 120
jovens recebem diariamente aulas de cultura brasileira e são responsáveis
por quebrar um triste clichê carioca. Enquanto as outras favelas são
conhecidas como territórios dominados pelo tráfico de drogas, a Serrinha
ficou famosa por suas rodas de jongo e pela resistência cultural. O grupo
que ajudou a fazer do ritmo um dos seis primeiros patrimônios históricos
imateriais do Brasil tem intensa agenda de shows, inclusive no Exterior, e
lançou um CD. Agora, chega às lojas o DVD, pela Rob Digital.
Nos dias de canto e dança, a vestimenta, inspirada naquela dos antigos
escravos, contrasta com o caos contemporâneo do cenário atual, formado pelo
amontoado de barracos e antenas de tevê. Formada a roda, o burburinho dos
jovens cessa quando a cantora Luiza Marmello levanta a voz firme para entoar
a primeira cantiga: Ah, eu fui no mato/ Eu fui cortar cipó/ Eu vi o bicho/
Esse bicho era caxinguelê (espécie de roedor). Daí para a frente, começa a
batida dos tambores e as crianças e os adolescentes repetem alegremente a
dança de seus antepassados. Eu me sinto orgulhosa, diz Suellen Tavares, 18
anos. Nos outros morros também tinha rodas como essa, mas agora a gente vai
procurar a cultura deles e não encontra. Suellen também gosta do samba e do
funk, mas o jongo é sua paixão. No começo, enfrentou o estranhamento dos
colegas de sua idade que moravam em outros lugares. Perguntavam se aquela
dança era macumba. Agora já estão começando a entender.
A caçula do grupo é Cailany Simões, quatro anos, empenhada em aprender os
primeiros passos. Essa renovação é observada com satisfação por Tia Maria.
No meu tempo, as crianças não podiam dançar, só olhar. O jongo é, para
ela, herança familiar transmitida pelos pais, que foram escravos. O grupo
atual foi criado pelo falecido Mestre Darcy em 1984. Também conhecido como
caxambu, o ritmo veio da África com os negros bantos trazidos para as
fazendas de café do Vale do Paraíba. Oriundo da época dos africanos
oprimidos, o jongo chega aos nossos dias sob o interesse da juventude de
classe média, que aprende os passos em shows na Lapa e outros locais.
Fazemos oficinas em vários lugares, diz Lazir Sinval, professora da dança.
Mas queremos sempre manter a sede aqui, no Morro da Serrinha. A regra
número 1 da resistência cultural é não perder a referência.
_________________________________________________________________
Mande torpedos SMS do seu messenger para o celular dos seus amigos
http://mobile.msn.com/
_______________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta