Extraído do Portal Terra Magazine
Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1829668-EI6621,00.html
Fabricando Tom Zé
Quarta, 15 de agosto de 2007, 08h03
Por: Paquito
Faz um mês que escrevi sobre o filme Noel Rosa, poeta da Vila e recebi
emails de leitores de São Paulo, perguntando quando o mesmo entraria em
cartaz nos cinemas da cidade. Pelo pouco que sei, o filme ainda não tem
distribuição, o que é um absurdo, já que a obra, além de méritos, tem apelo:
o papel de Ceci, o grande amor de Noel, cabe a Camila Pitanga, que é a Bebel
da novela Paraíso Tropical, da Globo. Enfim, Camila está popularíssima e é
um chamariz inequívoco, se a gente for usar um raciocínio tipicamente
comercial.
Ainda sobre cinema e música, ou melhor, cinema sobre música, assisti ao
documentário Fabricando Tom Zé, que entrou em cartaz, pelo menos, nos
circuitos das chamadas "salas de cinema de arte". O filme é bom porque dá o
que pensar. Tom Zé é provocativo, sua música é provocativa, e o filme ainda
trata da fase do ostracismo do artista, de 1973 até 90, quando seu trabalho
foi ignorado no Brasil, até ser redescoberto nos Estados Unidos, lançado por
David Byrne. Caetano, por exemplo, é corajoso em seu depoimento, ao
discorrer sobre o assunto e assumir posturas pouco confortáveis, sem dourar
a pílula. O próprio Tom Zé dá a medida da dor que passou ao dizer que às
vezes não tinha forças nem pra levantar a perna, ao acordar. Porém há que se
dizer que é simplificador demais atribuir a responsabilidade pelo ostracismo
de Tom Zé a Caetano e Gil. O próprio Tom Zé, aliás, já chegou a dizer que se
sabotou, o que também não dá conta da questão.
O fato é que a imprensa, ou como está na moda dizer, a "mídia" também o
ignorou, assim como o público, com exceção dos estudantes paulistas. Ou
seja, o Brasil, ou ainda "o ser do Brasil", pra usar a expressão de Caetano,
silenciou diante de Tom Zé, e, se há culpa, esta é de todo um consenso
tácito que houve na época em que, diga-se de passagem, o artista havia
produzido, até então, seus melhores trabalhos: Todos os olhos (73) e
Estudando o samba (76). É a partir destes discos que a obra de Tom Zé ganha
mais densidade, e acrescenta-se, ao lado satírico, a face do inventor de
canções estranhas e minimalistas, tirando o samba da "tradição embalsamada",
o que vai tornar a sua obra única. Além do que, é importante ressaltar, a
sua perfomance em palco, de expressividade ímpar.
Mas Tom Zé e o filme são muito mais que a história do ostracismo. O filme é
ele, e tudo que ele diz vem revestido de um modo próprio e poético de dizer
das coisas do mundo, típico de um interiorano que se espanta e se admira do
que vê com "os olhos livres". E, como o bom matuto, também cônscio de seus
valores e da solidez dos seus gestos, defende com unhas e dentes seu orgulho
e beleza, como na cena em que discute com um técnico de som na Suíça.
Tive contato com Tom Zé quando produzi, em parceria com Jota Velloso, o Cd
Humanenochum, de Riachão. Como o maior sucesso de Riachão era Cada macaco no
seu galho, gravada por Caetano e Gil em 72, por ocasião da volta ao Brasil,
queríamos uma opção pouco óbvia pra participar da gravação da música. Tom Zé
foi o escolhido porque, além de ser tropicalista, tanto ele quanto Riachão
passaram por períodos em que foram esquecidos, coincidência que daria à
faixa um significado especial; afinal, a letra da música marca posição firme
quanto à demarcação de um espaço próprio: "o meu galho é na Bahia/ o seu é
em outro lugar".
Durante os contatos e a gravação propriamente dita, Tom Zé foi colaborativo,
enriquecedor, e sempre demonstrou fazer questão de preservar esse lado
matuto. Pra que se tenha uma idéia, ele, que fizera parte da Tropicália e da
revolução dos costumes que aconteceu na década de 60, me chamava de
"cabeludo", como se ter cabelo grande fosse algo estranho a seu universo. E
é dessa forma que, no documentário, ele se refere à equipe de filmagem,
chamando-os de "vagabundos do Rio de Janeiro". O título do filme, Fabricando
Tom Zé, pode ser entendido como uma referência a esta auto-imagem cultivada
do sujeito do interior, que fala com graça toda própria, e se aproxima dos
outros de uma maneira diferenciada da gente da metrópole.
Aliás, é pela constatação desta especificidade e das suas fraquezas que Tom
Zé mostra sua força. Como, segundo ele mesmo, não sabia cantar nem compor
bonito, ele se afirmaria pela estranheza, pelo inusitado, por virar a beleza
de cabeça pra baixo. Um matuto, enfim, "muderno", como ainda se diz nas
cidades do interior da Bahia, onde nasceu o artista.
Paquito é músico e produtor.
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