Caderno PENSAR, do Jornal Correio Braziliense, de 25.08.2007 (Sábado)


http://www2.correioweb.com.br/cbonline/pensar/sup_pen_46.htm



Crônica inédita

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De Marcelo Mirisola



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Cartola, o filme do Brasil

Marcelo Mirisola
Especial para o Correio


Marcelo Mirisola
É autor de livros como O herói devolvido (2000), Bangalô (2003), Joana a contragosto (2005) e O recém-lançado O homem da quitinete de marfim. Ele estará em Brasília no dia 6 de setembro, como convidado da 26ª edição da feira do livro



O estado de podridão em que se encontra a criança ou o velho (mulheres grávidas e deficientes físicos igualmente) que me pede esmolas pode ser um critério trágico que estabeleci para dar ou não dar a esmola pedida. Todavia, falar em “critério” é algo meio obsceno, creio que seria mais decente se eu falasse em sobressalto, tristeza, compaixão, nojo.

Natural que o pedinte esteja fedendo muito, e que os líquidos lhe escorram pelas canelas. Se tiver uma plaquinha dizendo que é aidético... Ou se tiver alguma chaga exposta, bem, aí as chances dele são maiores. Quero dizer que o estado de podridão suplanta a humilhação do ato (a humilhação do pedido em si é ponto a favor em qualquer circunstância); agora, se, além da podridão, o pedinte souber manter a devida distância, e se for simpático e — na medida do possível — bem-humorado, terá uma possibilidade real de levar algum troco meu.

Não dá para fugir das palavras. O fato é que tenho critérios — e efetivamente os uso — para ir ao cinema e para ler um livro, para escolher minhas mulheres e fugir dos restaurantes por quilo. Sou chato mesmo, e não me convidem para ir a shows de rock e estádios de futebol.

Voltando ao pedinte. A próxima etapa é meter a mão no bolso. Enfiada a mão, é a sorte quem dirá o quanto de esmolas o miserável vai levar. Isso quando tenho algum no bolso, e eventualmente esse algum é uma moeda. Uma confissão: quando pego uma moeda graúda, logo faço a substituição por outra menorzinha. Me sinto um mágico. Uma vez só dei 1 realzão de esmola, e me arrependi imediatamente.

Pois bem, ontem à noite, eu estava ciscando na frente da boate Help, no calçadão de Copacabana. Um garoto veio correndo ao meu encontro, e eu não tive tempo sequer de fazer valer a primeira etapa da minha peculiar seleção: de sobressalto enfiei a mão no bolso. O garoto, apesar de ter escapado da primeira etapa do meu rígido controle antipedintes, deu azar. Fisguei duas moedinhas de cinco centavos.

Bem, digamos que ele ficou transtornado, e me xingou. Eu disse que quem devia xingá-lo era eu, por ele ter desautorizado minha corrupção, minha beatitude, pelo desaforo, sei lá. Discutimos, ele me ameaçou e outros pedintes me cercaram. O garoto — não, não vou chamá-lo de “garoto” — vou chamá-lo canalha, sim; isso mesmo: o canalha me jogou as moedinhas na cabeça. Se tivesse uma arma me queimaria, não tenho dúvidas. De certo modo, foi ele quem me concedeu a esmola.

Por causa dele, e a partir do ocorrido, estou aqui, na frente do computador: pedindo (ou esmolando) a atenção do leitor. Tento ser convincente. Pensei em minorias, e resolvi inverter o ponto de vista. Dane-se. Cheguei a uma conclusão curiosa: minoria sou eu!

Além do canalha que me jogou as moedas na cabeça, a quantidade de miseráveis ao redor — naquele momento, defronte a boate — era ostensiva, perigosa e visivelmente maior: muito maior. Não fosse o segurança da boate, eu teria sido triturado por aqueles miseráveis. Inacreditável, aliás, a quantidade de gente apodrecendo — tombada, ferida de guerra mesmo — nas ruas de Copacabana.

Bem, de qualquer forma, o meu intuito naquela noite não era exatamente “pagar por um programa” na Help. Estava dando uns tratos à bola. Um tempo. Queria ver o documentário sobre Cartola em Ipanema. Ainda era cedo, e logo depois de uma água de coco no quiosque no posto 6, meu plano era ir caminhando até o cinema de Ipanema. E fui. Tive que ir. Peguei o rumo do Arpoador, desviei dos turistas japoneses, e desviei da lua cheia que prateava a linda noite sobre o cocô dos mendigos deixados ao longo do meu caminho.

Até agora não sei o que foi mais nojento e ameaçador. As pústulas e as fezes dos mendigos ao longo do caminho, ou o público do Cine Estação Ipanema. O pior é que não posso falar sequer em contrastes. Daí que, por eliminação, resolvi escolher a lua cheia e seus desdobramentos prateados para me conduzir até o final dessa aventura carioca... Bonito, né?

Todos canalhas. Tanto os que apodreciam no calçadão de Copacabana quanto os que reluziam no cinema de Ipanema: garotos “sarados” de cabeleira loura encaracolada, e as respectivas namoradas low profile; assim: propositadamente meio largadas como se pudessem disfarçar o carro blindado estacionado irregularmente sobre a calçada da Visconde de Pirajá.

Sabiam na ponta da língua os sambas dos negões da antiga. Íntimos de Cartola, Donga, Pixinguinha, Nelson Sargento, Carlos Cachaça... Vale dizer: íntimos de todas as sífilis, bebedeiras e desgraças dos infelizes semi-analfabetos e fudidos sambistas da antiga, talvez avós e bisavós daqueles putos que há pouco me cercavam em Copacabana, defronte a boate Help. Tudo isso, inclusive e sobretudo o Brasil em volta, fedia muito, e apodrecia inopinadamente a olhos vistos.

Tive a convicção de que Cartola (ele mesmo, e não eu: sublinhe-se) sabia que os sambas que fazia — com exceção de um ou outro golpe de sorte — não eram lá grande coisa. Nelson Cavaquinho idem. Talvez o documentário propositalmente bêbado e desfocado tenha sido o responsável por essa falsa (ou verdadeira?) convicção, sabe-se lá.

Tirando a projeção da sombra do bonde de Santa Teresa sobre os Arcos da Lapa, a estética da coisa (vamos chamar de “estética”) não me agradou: a começar pelas citações desnecessárias ao fantasminha boboca de Machado de Assis, um roteiro confuso (outra vez: propositadamente confuso) que, a pretexto de falar de Cartola, misturava alhos com bugalhos o tempo inteiro. O diretor do filme — achando que só ele é malandro nessa vida, e talvez inspirado nas histórias que pretendia contar — recorreu até a um apagão no meio da projeção. Claro que já prevendo que o público bovino iria reclamar — e é evidente que houve tal reclamação...

Mas eu dizia que nem Cartola, nem nenhum dos sambistas — com razão — davam muita importância ao que faziam. Violão era caso de polícia. Engajamento — naquela época — somente no Exército, Marinha ou Aeronáutica. Devido ao recurso estiloso adotado pelo diretor de Cartola, descobrimos, aos trancos e sacolejadas, que Nelson Cavaquinho, por exemplo, traiu Cartola e vendeu uma música que os dois haviam feito em parceria. Nelson Cavaquinho não tava nem aí pra Cartola e nem aí pra música. A profissão de zelador e lavador de carros era uma vergonha para Cartola, não obstante um “dissabor” perfeitamente assimilado. Essa palavra “dissabor”, aliás, freqüenta várias letras do sambista, e é sintomática. Em algumas músicas, Cartola a usa como se fosse um atestado de sua pretensa sabedoria e insignificância adquiridas ao longo de uma vida piolhenta. Nem uma coisa, nem outra.

Um dado. A altivez e a postura de príncipe atribuída a Cartola por Nelson Motta, desconfio, foram a parte mais sórdida do filme, algo tão sórdido e repulsivo quanto as sífilis e gonorréias e o apodrecimento de Cartola em vida. Trata-se, a meu ver, de um discurso feito na medida — ontem e hoje, desde sempre — para o consumo do público asqueroso do Estação Ipanema. O mesmo público do Cine Unibanco (leia-se Waltinho Salles) da rua Augusta, em São Paulo. Aí em Brasília deve ter um lugar equivalente.

Uma bravata que serve, afinal de contas, para aplacar conscienciazinhas pesadas, e, repito, desde sempre rendeu subsídios simpáticos para aproveitadores do tipo. Darcy Ribeiro é o mestre do gênero. Hoje virou política de estado sob o Governo Lula; estamos, enfim, atolados até a medula nessa merda generosa — às vezes admirável e iluminada (reconheço) — chamada cultura popular brasileira. Corra — como diz o próprio Cartola — e venha ver o sol!

Gilberto Gil e Hermano Vianna resolveram incluir o hip hop no cardápio. Infelizmente o critério deles é diferente do meu.

Bem, depois de ter vomitado copiosamente no final da sessão, voltei para casa. Era um domingo, noite de Fantástico na tevê Globo. Glória Maria e Zeca Camargo — sem querer — chancelavam tudo o que acabei de escrever aí em cima. O personagem do domingo global era um garoto de no máximo 19 anos que orgulhava-se do seu dreadlock, cabelo carapinha trançado ou algo que o valha; para ele — e para os apresentadores, e para o Brasil inteiro —, aquilo era o diferencial, a identidade, a expressão de resistência.

Pensei: algo está errado, algo sempre esteve muito errado nesse país de vôos descontrolados. Depois, cantarolei baixinho: “o mundo é um moinho”, e rezei uma Ave Maria pedindo aos céus que o falecidíssimo Cartola descansasse em paz.

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