Extraído do jornal Brasil Hoje Em Dia

Apostas do choro em Brasília


Maria Júlia Lledó
Repórter

Uma estréia no cinema comprova: músicos de Brasília destacam-se nas rodas de choro nacional. Hamilton de Holanda, Gabriel Grossi e Rogério Caetano, referências no gênero, foram convidados pelo diretor finlandês Mika Kaurismäki para participar das filmagens de «Brasileirinho», documentário sobre o choro, primeiro ritmo genuinamente brasileiro, em cartaz na cidade. Os três músicos são pioneiros na geração de chorões que cresceram e começaram a trabalhar na capital federal. Hoje uma nova leva está porvir. Quem serão os próximos herdeiros do choro brasiliense?

Um dos marcos que separa a primeira da segunda geração é a Escola de Choro Raphael Rabello, criada em 1998. Primeira escola do gênero no país, a instituição, criada por Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro, começou com cerca de 100 alunos e hoje reúne mais de 300. «A escola se propõe a ensinar o jeito brasileiro de executar o instrumento. Acrescenta à técnica das aulas de cavaquinho, bandolim, violão e pandeiro o molho e a malícia», diz Reco.

Enquanto a primeira geração de músicos teve aulas particulares ou aprendeu com pais e amigos que dividiam a paixão pela música, os jovens aprendizes ganharam tempo: tiveram aulas com profissionais como Henrique Neto, Rafael dos Anjos, Marcio Marinho, Cacai Nunes e Evandro Barcellos.

As novas promessas da cidade são Pedro Henrique da Silva, Vinicius Vianna e Jackson Delano. A aposta é de Fernando César, violonista, professor e coordenador da Escola de Choro. O mais jovem do grupo é o clarinetista Jackson Delano, de 18 anos, que deixou a cidade de São José dos Cordeiros (PB) para investir na música.

Aos 11 anos, Jackson se impressionou com o som vindo do vizinho. Quando a banda da cidade passou a ensaiar num espaço junto à sua casa, pensou em tocar sax, mas foi o clarinete que o cativou. Para ele, o músico é o que escuta. «Se a gente escuta choro, um dia a gente acaba pegando a linguagem, o suíngue que a música necessita», considera.

Apaixonado pelo samba, Pedro Henrique da Silva, de 21 anos, começou a tocar cavaquinho aos 14 e sonha tocar no Rio de Janeiro. Estudante desde 2002, ainda divide seu tempo como monitor e professor substituto da escola de choro, assim como o violonista Vinicius Vianna, de 19 anos.

Vinicius, que também faz bacharelado em Música na UnB, demonstra admiração por Fernando César e tem como referências Raphael Rabello e Dino 7 Cordas. Ao contrário de Pedro, Vinicius não pretende ir embora. «Brasília é o melhor lugar para o músico se preparar, porque tem muita gente boa ensinando», avalia.

Dudu Maia prepara material didático e aguarda turnê nacional com AQuattro

As duas gerações tiveram condições diferentes para desenvolver a paixão pelo choro. «Quando eu e meu irmão (Hamilton de Holanda) começamos a tocar foi com o auxílio do meu pai e de discos. Tocávamos violino, que tem a mesma afinação do bandolim, mas faltava técnica. Hoje os alunos têm professores que trabalham com o choro. Queria ter tido isso na minha época», diz o violonista Fernando César. A história é parecida com a do bandolinista Dudu Maia. Na adolescência, era guitarrista de uma banda de heavy metal e escutava de Pink Floyd a Tom Jobim.

Mudou de time quando decidiu acompanhar os pais nas primeiras rodas de choro e assistiu a um show de Reco do Bandolim. Escolha nada fácil, pois o músico enfrentou dificuldades no aprendizado. «Quando saí do violão para o bandolim tive de quebrar a cabeça», brinca.

Um dos projetos do músico para o próximo ano é lançar material didático voltado a jovens interessados em bandolim. «Há uma carência muito grande de estudos em harmonia para o instrumento», afirma.

Outro projeto de Dudu Maia é com seu grupo AQuattro, que participa da turnê nacional do «30º Projeto Pixinguinha». Considerado um dos mais importantes eventos da música popular brasileira, revelou grandes talentos como Zizi Possi e Djavan. Foram feitas 547 inscrições, mas apenas 16 músicos e grupos foram selecionados.

Ansiosos pela data do início da turnê, o quarteto formado por Fernando César, Dudu Maia, Pedro Vasconcelos (cavaco) e Valerinho (pandeiro), comemora o resultado. Para Dudu Maia, é um reconhecimento e uma forma de mostrar o trabalho em outros lugares. No primeiro semestre, lançaram o CD com o qual foram escolhidos. Em «Bandolim Brasileiro - AQuattro toca Luperce Miranda», prestam homenagem ao músico pernambucano.

Nesta edição haverá o relançamento de discos e da biografia de Pixinguinha, escrita por Sérgio Cabral. Realizadora do projeto, a Funarte investiu R$ 4,6 milhões no evento que percorrerá 16 cidades. As datas dos shows ainda não estão marcadas, mas o AQuattro espera marcar presença na turnê de 2008.

Clube do Choro comemora 30 anos de história em setembro e reúne pioneiros

Formar-se na Escola de Choro Raphael Rabello virou sinônimo de trampolim para os jovens músicos que sonham se apresentar no Clube do Choro. «O local é imprescindível como lugar de resistência de um gênero musical que não é popularesco», diz o pianista João Donato, um dos precursores da bossa nova, assíduo convidado e freqüentador. Em setembro, o reduto brasiliense dos chorões comemora 30 anos com uma apresentação que promete reunir os fundadores. Entre os convidados estão Pernambuco do Pandeiro, Alencar 7 Cordas, Odete Ernest Dias e Nilo Costa.

Na casa já se apresentaram Paulo Moura, Guinga, Altamiro Carrilho, Pepeu Gomes entre outros grandes expoentes da música instrumental brasileira. «Hoje o Clube do Choro é uma espécie de paraíso, espaço cobiçado pelos músicos, porque há um carinho especial entre público e artista», afirma o bandolinista Hamilton de Holanda, que começou sua carreira no Clube do Choro. Considerado o maior bandolinista do mundo, Hamilton diz se sentir em casa no local. «Cresci dentro do clube e o vi crescer. Minha vida musical se confunde com essa história, por isso me sinto, ao mesmo tempo, pai e filho», aponta. Ele acredita ter alcançado êxito na carreira porque a casa sempre incentivou novos talentos.

A história do Clube do Choro começa com o interesse dos primeiros funcionários públicos que mudaram do Rio de Janeiro para a nova capital. Trouxeram consigo pandeiro, cavaquinho, violão, piano e outros instrumentos que compunham as famosas rodas de choro na casa de amigos. Na década de 70, conseguiram se apresentar em espaços públicos e chamaram a atenção do então governador Elmo Serejo Farias, que concedeu ao grupo um espaço antes abandonado. No antigo vestiário do Centro de Convenções foi instalado o Clube do Choro.

Como as instalações eram precárias, o local foi esquecido. Apenas em 1993, a diretoria do clube, presidida pelo músico e jornalista Reco do Bandolim, contestou o pedido de despejo e conseguiu regularizar sua situação junto à Terracap, dois anos depois. A recuperação do local ganhou impulso com a aprovação do projeto de revitalização feito pelo arquiteto Fernando Andrade, com o consentimento de Oscar Niemeyer.

Artistas como o violonista Raphael Rabello e o bandolinista Armando Macedo fizeram shows na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional para ajudar na recuperação do espaço. As reformas foram concluídas em 1997, mesmo tempo em que a diretoria do Clube do Choro passou a reunir músicos da cidade e convidados de outros estados.

Dez anos após a primeira reforma, o clube aguarda uma nova sede. Na semana passada foi anunciada pelo governador José Roberto Arruda a liberação de verba para a construção do novo espaço que o Clube do Choro e a Escola de Choro Raphael Rabello irão ocupar, ao lado do Centro de Convenções. «Existe uma compreensão por parte do GDF de que Brasília é a capital do choro e por isso temos fama e responsabilidade enorme», ressalta Reco.

O presidente do Clube do Choro adianta que a licitação das obras deve sair em outubro. Outra conquista da diretoria foi o fechamento de um acordo com a UnB, que prevê a construção de um Centro de Referência de Estudos do Choro e o intercâmbio entre as instituições. «Numa espécie de círculo virtuoso, o Clube do Choro continuará reconhecendo artistas da cidade, enquanto a escola formará novos talentos e uma boa safra de músicos que ainda vão longe», conclui.

Facetas do ritmo na tela

O longa-metragem «Brasileirinho» promove uma conversa entre diferentes gerações de chorões. A narrativa é amarrada por uma tradicional roda de choro formada pelos cariocas do Trio Madeira Brasil. Para conduzir a história, Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker e Marcello Gonçalves convidam bambas do cenário brasileiro para acompanhá-los na prosa musical.

Diretor musical do filme, o violonista Marcello Gonçalves explica que o longa surgiu da necessidade de mostrar a cara do choro contemporâneo, que hoje engloba diversos estilos. «Tem o choro camerístico, o cantado, aquele se aproxima do samba, o tradicional e o jazzístico», ressalta. O filme também mostra o burburinho atrás das coxias e rende homenagens a chorões como Joel do Bandolim, Jorginho do Pandeiro, Zé da Velha, Silvério Pontes, Zezé Gonzaga e Ademilde Fonseca. Acompanhar os frenéticos pés de Elza Soares enquanto a cantora interpreta «Formosa», de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Ou simplesmente rir do despojado Yamandú Costa tomando chimarrão e fazendo as unhas num salão de beleza antes de se apresentar no Teatro Municipal de Niterói. Essas são algumas das pérolas do documentário que finaliza com outro preceito: tudo termina em choro.


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