Revista E (do SESC - SP), edição nº 122, de julho de 2006
O músico e pesquisador comenta o preconceito racial no Brasil e fala de como
se tornou referência nas discussões sobre negritude
Num belo dia do ano de 1981, o sambista Nei Lopes decidiu que estava na hora
de teorizar todo o seu conhecimento empírico de samba, vida no morro e
relações raciais, e iniciou uma trajetória de intensa leitura sobre os
assuntos. "Comecei a ler de uma maneira compulsiva, comprava muitos livros,
fazia anotações e fichas", afirma na conversa que teve com a Revista E. Não
abandonou a música, mas acumulou aos títulos de músico e sambista também o
de pesquisador e escritor. A dobradinha vem rendendo frutos. São 17 livros
publicados - incluindo algumas ficções e um dicionário da língua banto - e
uma obra musical que inclui seis discos solos e mais outras tantas
composições e parcerias. As últimas com os jovens do Quinteto Em Branco e
Preto. Taurino de 9 de maio de 1942, nascido em Irajá, no Rio de Janeiro, o
músico conta que não acredita na rivalidade entre o samba paulistano e o
carioca, e afirma que há tempos as escolas de samba deixaram de representar
as comunidades. "Quem participa são a classe média e os turistas", declara.
É defensor de cotas para negros nas universidades e orgulha-se de ter seu
nome citado como fonte mais de 300 vezes no Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa. A seguir, trechos da entrevista, concedida no camarim do show
apresentado no Sesc Pinheiros.
Comentou-se que no Carnaval deste ano as escolas de samba cometeram alguns
equívocos na hora de falar da escravidão no Brasil. Você acredita que hoje
exista uma vontade de reescrever o assunto ou essa história é fruto de
desconhecimento sobre a questão?
Eu não vejo hoje a escola de samba como uma instância legítima para discutir
essas questões. O carnavalesco, muito apropriadamente, é um fantasista e
está muito a fim de efeitos cênicos. Por isso acho que é raro encontrar um
carnavalesco com uma proposta política, por assim dizer. Os únicos enredos
efetivamente políticos que conheço, uns dois ou três, foram os de Vila
Isabel: Quizomba [Quizomba, Festa da Raça - que deu o título de campeã à
escola em 1988] e Direito É Direito [que lhe rendeu o quarto lugar em 1989].
Fora isso, o carnavalesco está sempre buscando efeitos, e, quanto mais
sensacionalismo e mais possibilidades de criar coisas fantásticas, melhor
para ele trabalhar. E o que aconteceu neste ano foi exatamente isso. Há uma
certa dose de ingenuidade em relação à história. Isso foi discutido nos
jornais, até mesmo escrevi um artigo em relação a esse maniqueísmo que o
carnavalesco usa. Por exemplo, no caso da Beija-Flor, que cantou Áfricas: do
Berço Real à Corte Brasiliana, a escola apontou a África como uma coisa
maravilhosa, quando a gente sabe que houve uma parcela grande de culpa dos
próprios africanos na questão da escravização. O que eu escrevi nesse artigo
é que, por outro lado, está havendo hoje uma resposta dos racistas, e essa
resposta está sendo muito calcada na tônica de culpar exclusivamente os
africanos pela tragédia da escravidão. Ou seja, nem tanto ao mar nem tanto à
terra. Mas não dá para dizer que a África foi uma maravilha, que todos os
governantes africanos foram heróicos.
Você falou no seu livro Partido Alto: Samba de Bamba [Pallas Editora, 2005]
sobre a "desafricanização" do samba. Mas aí a questão que surge é a
seguinte: desde sua origem, o samba já não seria mesmo criação de um "mundo
urbano"?
Claro, o samba que a gente conhece hoje é um produto urbanizado, e
naturalmente já fruto de várias outras influências, inclusive da própria
musicalidade européia. Mas o que eu queria dizer é que houve uma resposta a
isso, uma retomada do caminho africano, não só no samba como em outras
vertentes da música. E a indústria cultural, pela sua própria composição,
pelo fato de ser dirigida de fora para dentro, não permite que isso ocorra.
Por exemplo, há uma vertente de meu trabalho que é muito voltada para a
denúncia do racismo e para a explicação de certos fatos históricos, mas
raramente consigo gravar esse tipo de música. A parte mais conhecida de meu
repertório são as crônicas de cotidiano, as coisas mais humorísticas e as
mais líricas - principalmente essas. Como a gente vive um momento de extrema
colonização - porque essa globalização em mão única acaba redundando na
colonização -, sabe-se que hoje a música no planeta inteiro tem o mesmo
playback, só é cantada em línguas diferentes, mas o playback é o mesmo. Se
você zapear a TV a cabo, vai ver que o cara que canta hip hop em Portugal
soa igual ao que está cantando na Indonésia. E essa orientação colonizadora
de globalização de mão única não admite discussão de questões polêmicas.
Então, o que caracteriza a música em escala planetária hoje? O amor, que é
uma coisa universal. Basicamente isso: a canção de amor.
O que o samba tem para que todo mundo o queira, mas ao mesmo tempo com o
intuito de "modernizá-lo"?
Acho que é a identidade brasileira no seu sentido mais forte. Quando o
Brasil quer se mostrar para fora, bota o samba de cara, porque é o que o
identifica logo. Mas na cabeça dessa produção cultural que está aí - essa é
a minha opinião - o samba é velho, "juventude não gosta de samba", "esse
tipo de música tem sua história ligada ao gueto" etc. Ou seja, o samba é
preto, velho e pobre. E eles pensam que não pode ser assim, então querem
pintá-lo de branco. Mas não se pode fugir da questão da identidade, o samba
é o traço mais marcante da identidade brasileira.
E o pagode, por exemplo, você acha que foi uma mutação do samba ou é uma
descaracterização mesmo?
A questão desse pagode, chamado de neopagode ou pagode brega, é realmente
uma agressão da parte das gravadoras. Algo como "vamos enquadrar o samba
dentro do pop". Uma vez eu estava num hotel vendo televisão e apareceu um
grupo cantando em playback, com aquele passinho e tudo mais. Terminou a
apresentação e logo em seguida entrou uma banda de rock. Era a mesma coisa!
A música era a mesma, só modificaram a levada. Isso ficou claro para mim,
houve uma interferência das gravadoras no sentido de levar o samba para esse
"esqueminha", e isso é uma completa descaracterização. Mas o samba tem
vitalidade, uma capacidade de dar a volta por cima, no meu entender. Em todo
momento estão surgindo formas novas. Observo que as gravadoras estão sempre
tentando renovar o samba, aí tentam fazer fusões, misturam com hip hop. Mas
aí surge um rapaz chamado Leandro Sapucaí - que tem um passado dentro do
samba, até conheço a família dele -, e que está fazendo um samba, até com
uma pitada de hip hop, mas que não deixa de ser samba. A própria
instrumentação que ele usa na apresentação não deixa de ser samba, tem
violão de sete cordas, cavaquinho, mas tem um momento lá que ele manda um
rap.
O que você acha do fato de hoje a música brasileira ser a mais vendida no
mercado nacional?
A gente tem de procurar estabelecer uma diferença entre o que é música
brasileira e o que é música feita no Brasil. Veja esses grupos de rock...
Faça-me o favor! Eles têm todo o direito de fazer o que queiram, mas, dizer
que é música brasileira, isso não dá. Só porque estão cantando em português?
Aí não. Música brasileira para mim é outra coisa.
E o que é música brasileira para você?
É a música que tem o DNA brasileiro. Por exemplo, por que o rap? O Brasil já
tinha seu repente, que é o coco-de-embolada, uma coisa muito mais elaborada
do que o rap. E já existia, então por que ter rap? Porque rapazes de grandes
cidades, como Rio e São Paulo, não conhecem esse ritmo brasileiro. O
coco-de-embolada é algo muito mais sofisticado do que o rap, pega um Caju e
Castanha, por exemplo, e bota ao lado de um rapper e vai ver o que vai
acontecer.
Mas o que você acha da cultura hip hop?
Acho que é o chamado protesto mentiroso, o protesto da moda, vamos dizer
assim. Aí vem a questão de que "o samba é alienado, não protesta". Mas a
verdade é que o samba tem um lado muito crítico, só que se utiliza da
ironia. Acho que surte muito mais efeito se você chegar no palco e mandar um
samba sacaneando o sistema com graça do que se você chegar no palco com a
cara emburrada, em geral com o microfone colado na boca, e ficar só na
"atitude". Quando um compositor como Barbeirinho do Jacarezinho, fornecedor
habitual do Zeca Pagodinho, manda: "Você sabe o que é caviar? Nunca vi nem
comi, eu só ouço falar". Pô, isso é uma cacetada. Ou o samba da parabólica,
que fala de uns caras que têm uma antena dessas no barraco e explicam como a
conseguiram: "Mas a parabólica foi trazida por um temporal, eu achei no mato
e botei no barraco na cara-de-pau". Tem muito disso, mas as gravadoras quase
não gravam esse tipo de produção.
Vamos falar um pouco sobre seus livros. Quais são suas fontes de pesquisa e
como você reúne material?
Não tenho nada muito ortodoxo, é muito na base da intuição. Seria melhor lhe
contar como isso começou. De 1980 para 1981, organizou-se um grupo de
pessoas ligadas à religião com quem me relacionava, como o Muniz Sodré, que
hoje é diretor da Biblioteca Nacional. Então houve um número especial de uma
revista chamada Vozes que foi sobre a cultura negra - não sei se essa
revista ainda existe, mas era uma publicação muito boa. Aí me pediram que
escrevesse sobre o meu universo de atuação mais específico, que era a escola
de samba. Com isso, fiz um texto sobre o que estava acontecendo com a escola
de samba naquele momento, ou seja, o espetáculo em detrimento da ligação com
as raízes comunitárias. Só que a escola de samba nasceu para legitimar suas
comunidades, isso era a primeira motivação. Então, escrevi um artigo sobre
essa questão, mostrando o que estava acontecendo e fazendo uma prospecção
sobre o que poderia acontecer - exatamente o que está acontecendo agora.
Bem, o Muniz Sodré havia publicado um livro chamado Samba, o Dono do Corpo -
pela Editora Codecri, que era a editora do Pasquim -, e perguntou se eu
gostaria de estender o meu artigo para fazer um livrinho. Eu topei a parada
e reescrevi o artigo em forma de um pequeno ensaio, que deu um livrinho de
cento e poucas páginas. Foi aí que as coisas começaram. E aconteceu, em 1981
também, de eu perder um filho tragicamente. Geralmente, nessas situações de
choques e traumas, as pessoas procuram derivativos, fugas. Poderia ter sido
o álcool ou uma série de coisas, mas não foi. Felizmente a minha fuga se deu
com a obsessão pela leitura. Comecei a ler de uma maneira compulsiva,
comprava muitos livros, fazia anotações e fichas. Depois de um tempo, já
estava escrevendo outro livro. Vim nesse embalo e já tenho 17 livros
publicados e mais três no prelo. Com o tempo fui me organizando, tinha uma
biblioteca pequena e comecei a freqüentar muitos sebos. Comprei muita coisa,
inclusive alguns livros raros. Tenho obsessão por dicionários, então comecei
também a fazer dicionários. Já publiquei três e tenho dois prontos, sendo
que um está no prelo e o outro, ainda em produção, sairá pela Record.
Você falou de obsessão por dicionários...
Dicionários de línguas africanas, por exemplo, que eu tenho aos montes,
encomendava-os para amigos que viajavam, e fui construindo meu acervo dessa
forma. Também retirei coisas interessantes dos jornais. Recortava coisas que
estavam dentro da minha área de interesse e organizava tudo. Quer dizer,
houve um trabalho de organização, e isso me facilitou muito. Durante um bom
tempo fui acumulando esse acervo que acabou redundando, em 2004, em um
calhamaço que se chama Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana [Editora
Selo Negro]. Além disso, tenho um tremendo banco de dados que eu continuo
alimentando e corrigindo muita coisa. A enciclopédia mesmo já está na
segunda edição, mas não acredito que a gente consiga fazer uma próxima
edição tão cedo. Pelo menos, os dados para complementá-la e corrigi-la estão
todos nesse banco, que tem me valido para todas as outras coisas que estou
fazendo hoje, até mesmo ficção.
Como foi a experiência de ingressar na ficção?
Foi muito boa. Sou muito bem-humorado e brincalhão, e a primeira incursão na
ficção foi com um livro chamado Casos Crioulos [Edições Folha Seca, 1987],
no qual conto coisas engraçadas passadas no universo do samba. Daí chegou um
momento em que decidi escrever contos sobre o universo da escola de samba,
dos morros - que eu freqüentei durante muito tempo -, sob outro viés, o da
tragédia. Então, escrevi 20 contos e mais umas outras narrativas menores,
botei o nome de 20 Contos e uns Trocados, que a Record publicou no ano
passado. Mas aí minha mulher disse: "Não descanso enquanto você não escrever
um romance". Então, escrevi um no ano passado, tomei gosto e escrevi outro.
Não é coisa grande, mas já está no prelo também, vai sair pela editora
Língua Geral. O outro romance que permanece inédito está dentro desse
universo também. Esse livro, que ainda não está negociado, se chama Os
Genes. Tenho um neto que é portador de uma doença incurável, por enquanto,
chamada anemia falciforme, uma doença típica de afrodescendentes. Aí escrevi
uma história na qual há uma família com uma criança que sofre desse mal. É
uma família mista, o rapaz é negro e a mulher branca. Mas a família dela é
toda ciosa de suas raízes européias, e o racismo come solto. Eles põem a
culpa no genro, quer dizer, uma culpa velada: "Está vendo, essa criança tem
esse problema porque é filha desse negro". Mas aí a trama leva o leitor a
descobrir que a família européia tem uma ancestralidade africana, e foi de
lá que veio a doença.
A ponta dessa trama, na qual a culpa é meio velada, diz respeito a como é o
racismo no Brasil, não?
O nosso racismo é esse, daí o grande problema, porque ele raramente se
mostra. Só se mostra, e o que está acontecendo agora é isso, quando o negro
começa a incomodar. Hoje, o Elio Gaspari - que publica seus textos no Globo
[O Globo, jornal carioca] e na Folha [jornal Folha de S.Paulo] - escreveu
exatamente sobre isso. Ele disse que, enquanto o negro está "no seu lugar",
na sua subalternidade, está tudo certo, e é essa a grande característica do
racismo brasileiro. É o caso da negra que é empregada doméstica e o patrão
branco diz: "Lá em casa ninguém tem esse problema [racismo], a nossa
empregada come até na mesa com a gente". Mas quando começa a competição, e
isso está acontecendo hoje no âmbito universitário, isso mexe legal no
racismo brasileiro. O racismo brasileiro se esconde, mas ele aflora nesses
momentos de paroxismos. E a grande dificuldade de combatê-lo é essa, por
causa dessa coisa insidiosa. Se você tem um confronto aberto, mesmo que seja
no plano das idéias, aí você tem como combater. Mas até hoje tem gente que
bate o pé e diz que racismo não existe no Brasil, falam que é coisa dos
Estados Unidos e da África do Sul - mas a gente sabe que não é assim.
O que você acha do sistema de cotas para negros na universidade?
Eu sou a favor! Acho que se tem de fazer alguma coisa, é um assunto que não
tem mais como esperar. Tem gente que fala que a solução é investir no ensino
básico. Mas isso vai ter resultado daqui a quantas gerações? Então, tem de
tentar alguma coisa agora. E a gente sabe que as políticas de ação
afirmativa não são permanentes, são coisas para resolver emergencialmente
uma situação. E o que é muito importante nessa história das cotas é a
questão de preparar a escola brasileira para receber o negro também, porque
as universidades não têm estrutura para compreender a questão negra em sua
essência. Compreender, por exemplo, o que é uma auto-estima dilacerada e
vilipendiada durante tanto tempo. É preciso que as pessoas entendam o que é
a cabeça de um negro. Há uma expressão que define bem o nosso psiquismo:
síndrome da senzala. Até hoje tenho uma certa preocupação de entrar em
certos ambientes, não sei como vou ser recebido e como vão me ver.
Nesse seu lado de pesquisador, você se aproximou da academia? Começou a
dialogar com eles? Quer dizer, seus livros chegam lá?
Quando chegam, causam muito incômodo. Em 1988, publiquei o Dicionário Banto
do Brasil [Novo Dicionário Banto do Brasil, Pallas Editora, 2003]. Havia me
chamado a atenção a quantidade de vocábulos usados no dia-a-dia que são
originários dessa área de Angola, Congo, Moçambique. Palavras como tamanco,
carimbo, marimbondo, camundongo, bunda, tanga, sunga, mochila. Aí fiz um
dicionário etimológico. Rapaz, tem uma pessoa, a grande autoridade nessa
área, que ficou muito incomodada quando escrevi esse dicionário. Chegou até
a escrever em uma publicação dizendo que havia gente sem qualificação e
amadora se metendo a fazer dicionário e que os estudos africanos no Brasil
estavam virando uma bagunça; também disse que a etimologia é uma área que dá
margem a muita fantasia. Fiquei muito chateado, mas botei minha viola no
saco porque quem estava falando era uma autoridade.
Mas e o dicionário? Afinal já estava nas livrarias...
Então, mas aí quando fiz o livro Casos Crioulos, meu amigo editor entregou
os originais ao Antônio Houaiss [autor do Dicionário Houaiss da Língua
Portugesa] para ele escrever uma apresentação, visando a valorizar a edição.
E esse editor levou-me para conhecê-lo. Quando o meu Dicionário Banto saiu,
dei um exemplar a ele. E ele não se manifestou. Mas quando a lenha caiu em
cima de mim, ele me mandou um bilhete - eu não tenho cofre em casa, mas se
tivesse esse bilhete estaria dentro - com um timbre da Academia Brasileira
de Letras e que, com a letra tortuosa, difícil de ler, dizia: "Meu amigo
Nei, você se incomodaria de me conseguir mais um exemplar do seu
dicionário?". Um tempo depois, ele faleceu. Só que tenho uma amiga que
estava trabalhando na equipe do Dicionário Houaiss. Aí perguntei se por
acaso o meu dicionário estava na bibliografia. Ela respondeu: "O quê? Seu
dicionário ficava na mesa do chefe!". Depois disso fiquei naquela
expectativa de ver o Dicionário Houaiss pronto. Quando soube que havia sido
lançado, corri para comprar aquele catatau em uma livraria de um shopping lá
em Vila Isabel. Sentei-me nervoso em um banquinho para olhar se na
bibliografia constava meu livro. Não encontrei, foi uma ducha de água fria.
Levei o livro para casa e, quando fui ver mais calmamente o dicionário, vi
que a bibliografia técnica ficava na frente, e lá estava o meu dicionário.
Aí comecei a folhear procurando palavras desse universo, e constava o
crédito: "Segundo Nei Lopes".
Citação no verbete?
No mínimo, umas 350 vezes. Lavou a alma. Depois disso, chamaram-me para
participar de um seminário sobre comunicação na UERJ [Universidade Estadual
do Rio de Janeiro], e contei essa história. A pessoa que havia me criticado
ficou sabendo de tudo isso. Então, houve um encontro dos povos bantos aqui
no Memorial da América Latina, há uns três anos. Essa pessoa estava lá -
naturalmente pensando que eu não soubesse direito do babado todo, do fuxico
-, e fez um elogio no plenário dizendo: "Grande trabalho do professor Nei
Lopes". Veja, até me chamou de professor, trouxe-me para o universo dele.
Quer dizer, foi preciso que houvesse esse reconhecimento por parte do
Houaiss. A primeira edição desse dicionário foi feita pela prefeitura do Rio
de Janeiro. Era um negócio meio capenga, meio malfeitinho, aquela coisa de
funcionário público. Aí demos uma mexida, melhoramos algumas coisas, tiramos
coisas que pudessem dar margem a controvérsia e lançamos pela Pallas Editora
com o nome de Novo Dicionário Banto do Brasil. Então, colocamos na capa:
"Contendo cerca de 350 hipóteses acolhidas pelo Dicionário Houaiss". Aí
acabou o papo.
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