Jornal do Commercio (Recife), de 03.09.2007 (2ª feira)
DISCO
Bandolim pernambucano revisitado
Publicado em 02.09.2007
Músicos de Brasília lançam série de CDs Bandolim brasileiro cujo volume 1
aborda a obra de Luperce Miranda. Rossini Ferreira é o próximo
Marcos Toledo
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No último dia 25, quando a Prefeitura do Recife promoveu uma amostra do
Carnaval em Brasília, o maestro Ademir Araújo e sua Orquestra Popular do
Recife foram à Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello para dar uma aula
de frevo. Sobre esse ritmo, alunos e professores demonstraram bastante
curiosidade. Porém, descobrimos que eles são muito mais íntimos de outra
música que tem tradição histórica em Pernambuco: o choro. A começar pelo
coordenador da escola, o violonista Fernando César, que, com seu grupo A
Quattro, gravou o primeiro volume da série Bandolim brasileiro, cujo
homenageado é o recifense Luperce Miranda (1904-1977). Ele revelou que, por
coincidência, o volume dois prestará tributo a outro pernambucano: Rossini
Ferreira (1919-2001).
Historicamente, os dois principais pólos do choro no País, desde a primeira
metade do século passado, são Rio de Janeiro e Recife. Brasília, fundada em
1960, veio a se tornar mais um centro importante depois que Paulinho da
Viola fundou na capital federal uma das unidades do Clube do Choro, como
ocorreu também em Pernambuco. A diferença é que lá o projeto teve
continuidade e se tornou uma referência em termos de organização e de
valorização do ritmo.
A Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello é o exemplo maior dessa
dedicação. Fundada em 29 de abril 1998 e batizada com o nome de um dos
gênios do violão brasileiro, a instituição que funciona na sede do Clube
do Choro é totalmente dedicada ao ensino do gênero. Este semestre,
reiniciou as aulas com um efetivo de 400 alunos. Alguns usam a música como
terapia, outros, com intento profissional.
Aqui é focado em choro, o que não vai deixar de tocar outras coisas,
explica o coordenador da escola, o violonista e professor Fernando César,
irmão do bandolinista Hamilton de Holanda. Além das aulas, todos os sábados
ocorrem inúmeras rodas de choro ao ar livre no gramado do Clube do Choro,
das 9h às 12h, a exemplo do que houve no dia 25 passado, quando alunos e
professores receberam Ademir Araújo e sua orquestra.
Aquela foi a primeira invasão em massa de artistas pernambucanos no Clube.
Mas já teve aqui uma semana de palestra para os professores com Marco César
(bandolinista pernambucano). Foi muito importante para o fortalecimento da
escola, disse Fernando. Marco César sempre foi a ponte (de Brasília com
Pernambuco). O violonista citou ainda vários nomes de artistas que admira
no Estado, como o violonista Henrique Annes, os bandolinistas Rossini
Ferreira e Adalberto Cavalcanti, a cantora Dalva Torres, o compositor Inaldo
Moreira e o Conjunto Pernambucano de Choro.
Esse conhecimento do trabalho de compositores e intérpretes de cá aliado à
devoção que a turma de Brasília tem pelo choro lhe torna mais do que
credenciada a desenvolver projetos que envolvam os autores pernambucanos.
Foi assim que aconteceu com o A Quattro, primeiro conjunto a gravar para a
série de CDs Bandolim brasileiro que, em seu primeiro volume, traz uma
seleção de dez temas compostos por Luperce Miranda.
Fernando conta que, em 2004, ele, o bandolinista Dudu Maia, o cavaquinista
Pedro Vasconcellos e o pandeirista Sandro Araújo foram convidados para tocar
no lançamento do livro Luperce Miranda, o Paganini do bandolim, de Marília
Trindade Barbosa. O produtor e bandolinista Marcelo Lima assistiu ao recital
e sugeriu a realização de um disco. Para a gravação, Sandro deu lugar ao
também percussionista Valerinho. Aprovado pelo Fundo da Arte e da Cultura do
Distrito Federal, Bandolim Brasileiro vol. 1: AQuattro toca Luperce Miranda
foi lançado este ano.
DISCO II
Luperce e Rossini para as novas gerações
Publicado em 02.09.2007
No Brasil, o bandolim é sinônimo do carioca Jacob Bittencourt, que adotou o
instrumento como sobrenome. Seria mais do que natural que uma série
intitulada Bandolim brasileiro começasse com a obra do célebre compositor.
Mas não foi o que ocorreu com a turma do choro de Brasília, que optou pelo
trabalho do compositor pernambucano Luperce Miranda.
O objetivo principal é mostrar os compositores desconhecidos, justifica o
violonista Fernando César, do grupo A Quattro, que interpreta as músicas do
volume 1. A lista de autores em vista inclui o também pernambucano Rossini
Ferreira e outros bandolinistas como Cincinato Simões, Joventino Maciel e
Joel Nascimento.
Tem muita coisa e pode aparecer mais gente. O de Rossini já está aprovado.
Marco César já mandou inúmeras partituras. Ele vai escrever o texto do
encarte. O volume 2 será interpretado por outro grupo comandado pelo
bandolinista Marcelo Lima.
PAGANINI
Luperce Miranda tinha apenas 3 anos de idade quando o frevo foi inventado.
Cinco anos depois, já se aventurava no bandolim. Aos 15, um ano antes de
montar a Jazz Leão do Norte, fez sua primeira composição, um frevo. Mas foi
o choro o ritmo mais marcante em seu repertório e que o tornou conhecido no
Rio de Janeiro, onde viveu de 1928 a 1946 e a partir de 1955. Para Fernando
César, o fato de Luperce voltar para o Recife impediu que ele se tornasse
tão difundido quanto Jacob, de quem era rival.
O jeito de tocar que lhe rendeu o apelido de O Paganini do Bandolim não é
por acaso. É muito complicado, altamente técnico. Pouca gente toca Luperce
Miranda. A intenção era trazer isso para essa efervescência em Brasília,
conta Fernando. Os alunos não tem fontes de pesquisa. Ouvem mais coisas
recentes. É intenção do projeto mostrar outros choros, compositores.
Gravado ao vivo em estúdio, Bandolim brasileiro vol. 1 mostra com execução
precisa a versatilidade da obra de Luperce. No CD, há choros, maxixe,
frevos, baião e valsa. As pessoas gostaram muito do resultado. Ficaram até
surpresas por Luperce ser desconhecido. Ele tem fama de difícil, virtuose,
que ninguém toca. De repente, é até preguiça de perder um tempo com Luperce.
É difícil, mas não impossível, atesta o violonista, que espera até
fevereiro levar o show do álbum para outros Estados na caravana do Projeto
Pixingunha. Até lá, quem tiver curiosidade pode comprar o disco pelo site
www.dudumaia.com. (M.T.)
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