Olá Tribuneiros,
Venho acompanhando as discussões que envolvem o trabalho da Cristina e Terreiro
Grande e algumas coisas me chamaram a atenção. Nem vou entrar no mérito da
qualidade musical do disco porque isso parece ser ponto pacífico, apesar de que
acredito que essa sim deveria ser o principal foco de uma lista de discussão
que versa sobre samba.
O que me chama a escrever é de como algumas pessoas podem tecer críticas tão
acirradas e com tamanha propriedade tendo como base (ou escolhendo como
referencial) apenas o que uma matéria jornalística tendenciosa, dentre as
várias de circulação nacional (das que eu sei: CBN, Folha, Veja, Jornal do
Brasil), diz.
E trago alguns pontos a baila que dão mais estofo ao debate.
Lendo as discussões vejo que é recorrente se referir aos membros do grupo como
"elite", "aristocracia", "intelectuais", "sectários" pra não citar os mais
pesados.
Agora o que eu queria saber é que tipo de elite e aristocracia é essa. A que o
repórter da Folha disse ser da "classe média baixa"?
"Classe média baixa"??? Me faz graça saber que quem mora no Vila Ema, Jardim
Planalto, Pirituba, Guaianazes... faz parte da tal classe média. Aos que não
moram em São Paulo é claro que desconhecem que esses são bairros da periferia
da capital paulistana (se bobear nem os que moram aqui conhecem). E ao
Repórter, do que eu entendi da matéria, isso nem era tão importante. O
importante, dentre outras polêmicas, era frisar que nas rodas desse pessoal não
tocava-se sambas compostos pelos famosos compositores paulistanos. Tanto que a
outra matéria, na mesma edição, era uma ode ao Projeto Rua do Samba. Antes que
tentem, nada tenho contra o projeto do meu chegado Kaçula. O que critico aqui é
o incentivo ao bairrismo incitado pelo rapaz que escreveu a matéria. Mas isso
parece que os colegas da lista não se aperceberam.
Pois bem, voltando ao que se diz sobre o assunto nessa lista, ainda dizer que
nêgo que não tem nem ensino médio direito é considerado esnobe, a classe
intelectual do país. É de lascar. Mas isso parece que também não tem na
referida reportagem.
O que vejo é uma rapaziada que estava de saco cheio, e isso não é de hoje, do
que vem sendo veiculado nos meios de comunicação e fazem um samba de uma forma
diferente, sambas, e estilos de samba, que quase não se ouvem, o quase é pra
não ser tão pessimista quanto exige a realidade, hoje em dia.
O engraçado também é a aura intelectual que se dá aos sambas que não se gravam
hoje em dia. Dizer que partido alto, sambas de terreiro, sambas que eram
gravados no rádio (para as "massas" se querem assim chamar) nas décadas de 30
até 70 eram coisa de intelecutual... É de estourar o cano.
Concordo que o momento em que foi gravado o disco, é pra atender uma demanda
que procura essa estética. Mas o que esses rapazes fazem, não é de hoje.
Convites para acompanhar intérpretes, participar da indústria fonográfica...
Tenho certeza, que não faltaram. Agora o porquê nesse momento, o porquê com a
Cristina. Isso também não se discute (imagino que nem interesse saber).
E essa conversa de que determinado artista se tivesse morto seria adorado...
Tenho lá minhas dúvidas... Do que eu conheço desse grupo, e da rapaziada que
tem a mesma proposta (que não são poucos), a coisa não é o "endeusamento" dos
artistas mortos e sim a preocupação de se fazer um samba de uma forma que não
se faz mais e que ainda, não sei por quanto tempo, não foi totalmente
esquecida. O estilo de samba com o qual esse artista citado foi consagrado (que
certamente não é o samba de roda) é brutalmente veiculado. E foi exatamente
para fazer (nem ouvir) outros estilos de sambas, alternativos ao que é imposto
a pelo menos 20 anos é que essa turma começou a se reunir. Volto a dizer que
não é de hoje e posso quase afirmar que isso é anterior ao movimento que vem
acontecendo na Lapa carioca. Se não aconteceu antes, o que sei é que um nada
tem a ver com o outro.
E por falar nisso, quem vai a Lapa, já disse aqui em outras discussões, se
sentirá em casa aqui em São Paulo nas rodas de samba da Vila Madalena e
Perdizes. Alí sim pode se encontrar o que os colegas querem rotular de
intelectualidade/elite (o que eu prefiro chamar de universitários classe
média). Mas falar isso da rapaziada que está fazendo samba em São Mateus, São
Rafael, Casa Verde, Belenzinho, nas quebradas do Tatuapé (sim existem) e
afins... Oras com certeza não sabem do que se está falando.
Ví também que alguém disse que os "artistas" deveriam se pronunciar. A não ser
por um ou outro, sei que os participantes do grupo não tem "intimidade" com
computadores e internetes. O porquê disso também não se questiona... Isso sim
seria político.
Bem, o debate é longo e infelizmente não pude acompanhar e discutir ponto a
ponto. Fico por aqui.
E antes que o digam, não sou porta voz e nem "amiguinho" do grupo, considero-os
muito e fecho com eles. E mesmo quando discordo de algumas coisas, ver pessoas
intencionalmente montando uma imagem sobre outras e eu sabendo que está
totalmente distorcido... Não dá, ainda não tenho estômago.
De resto, sugiro que vejam, ouçam e se possível converse com a rapaziada. Tirem
suas conclusões da personalidade deles conversando com cada um (ou com aqueles
com quem se tem dúvidas do que disseram). Afinal é um grupo, não um partido, e
por isso composto de pessoas diferentes.
Um Abraço,
Lagosta.
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