Pôxa Antônio,

Não conheci você, mas tive a enorme honre de conhecer o FT. Eu
protagonizei um desses "assuntos ventilados" por aqui. Talvez tenha
chatedo uns e outros, amigos, talvez. Mas, gostaria de transcrever um
trecho completo e relevante do que escrevi nesse embate.

Não peço nada. Só peço que conte os tais "adjetivos" e "substantivos".
Se acrescentam? Não sei. Mas são pensamentos, nunca agressões. Se
puder, analise.

"Aqui realmente te falta informação. Esses sambas nasceram  mesmo no
meio do povo. A forma como foram sendo incorporados e
patrimonializados não tem nada de popular. Basta ver como foram
criadas as estruturas preservacionsitas de cultura no Brasil. Leia um
pouco sobre como a intelectualidade dominou o CPC da UNE e o MIS, por
exemplo.

A incorporação do segmento tradicionalista da cultura popular pela
elite pensante tem dois marcos históricos relevantes. Mário de
Andrade, quando pensava numa arte brasileira genuína, afirmava que era
preciso que os intelectuais "assumissem o controle das tradições
culturais populares". A construção desse ideário nacionalista previa
intervenções dos artistas modernistas no sentido de preservar intacta
a cultura, "temendo a contaminação estrangeira e local despreparada"
(puro preconceito e xenofobia, é a mão branca da intelectualidade se
apropriando da cultura popular). Começa, então, nos anos 20. Procure
tomar contacto com os livros do Mário de Andrade ("Aspectos da Música
Brasileira" e "Ensaios sobre a Música Brasileira"). Lê-los é
indispensável para compreender a forma com a qual os meios
intelectuais se apropriam da cultura popular.

Outro marco importante é o livro de Tinhorão, "Música Popular: Um Tema
em debate", lançado em 1966. Tinhorão se torna referência no meio
acadêmico, defendendo de forma intransigente que nossa música popular
deveria ser "autêntica", "pura", "tradicional" e "legítima", contra a
"linguagem universal" proposta pela nova música que ele julgava ser
uma "pasta sonora mole e informe". Tinhorão tornou-se o ídolo de 9
entre 10 teóricos da cultura popular.  Apenas o velho, o intocado,
deveria ser preservado. Evidentemente que isso careceria de uma ação
intensa da intelectualidade. O movimento estudantil, ingenuamente,
reitera o discurso nacional-populista de Tinhorão. O CPC da UNE, os
CA's, Grêmios Estudantis e outras entidades de classe no país serão os
grandes promotores desse segmento nos anos 60. "Opinião", do apolítico
Zé Ketti, vira hino contra a repressão e chega aos teatros da zona
sul, com Nara Leão (A Cristina Buarque daqueles tempos). O Zicartola,
bar de Cartola e Dona Zica, vira ponto da intelectualidade. É lá que
os sambistas do morro, muitos deles interpretados neste disco do
Terreiro, tomam contato com a intelectualidade. Zuza Homem de Mello,
Hermínio Bello de Carvalho e Ricardo Cravo Albin, bem ao jeito daquilo
que invocava Mário de Andrade décadas antes, vão "organizar" o samba
tradicional do Rio de Janeiro.

O MIS foi fundado por Albin; são dele as diretrizes do processo de
patrimonialização da cultura popular, em especial o samba carioca. Eu,
particularmente, não conheço nada mais hermético, ortodoxo, fechado do
que o MIS. O MIS é incorporativo, apropriativo; não é seletivo...É
excludente mesmo. Fernando Faro, com seu Programa Ensaio, na TV
Cultura,  mantinha a linha. Não há sambista tradicional que não tenha
feito uma edição do programa nos anos 60, que é muito bom, mas é feito
pra elite, não pras massas ignaras. O formato, a emissora, o horário,
tudo é intelectualizado no "Ensaio". Só os artistas são gente do povo,
absorvidas pela política preservacionista e nacional-populista de
cultura."


Emiti opiniões, eu sei. Mas tenho o direito, não?

Grande abraço do

Eugênio










Em 11/09/07, Antonio Guerreiro<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> Atualmente pouco me interesam os assuntos aqui ventilados. Desde o 
> afastamento do Fernando, um  marxista convicto que está lá junto com Deus , 
> essa tribuna esvaziou-se. O que vejo agora é um cortejo fúnebre de 
> press-releases e mesmices, temperado por debates sem inteligência como esse 
> que acabo de presenciar. Poucos substantivos e muitos adjetivos fazem o 
> conteúdo dessas discussões passar longe do que seja música e muito menos 
> samba. Choro mesmo só o choro pela falta de objetivos dessa lista;mas 
> continuo com alguma esperança e apostando na vontade dos que , submersos como 
> eu, possam ao menos apreciar discussões e não brigas, e aprender algo com os 
> que estão do outro lado da telinha.
> Antonio Guerreiro de Faria
> Músico
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