Então, Sônia, o que você chama de pé na atualidade eu chamo de "falta de
originalidade e propagação da mesmice massificada a vinte anos". O trabalho do
Quinteto, eu respeito, mas não há nada diferente de vinte mil grupos que já
existem. O Eugênio mesmo, pode te citar uns dez mil.É o mesmo pagode que o
Galocantô faz, por exemplo.
Quanto ao trabalho do pessoal do Terreiro Grande, talvez você precise ouvir,
pra poder saber o que há de diferente do que se faz na Lapa. Aliás, você tem
ido à Lapa ultimamente?
Outra coisa, pelo que eu saiba, no disco não tem trabalho autoral do pessoal, a
novidade são sambas inéditos do Candeia, Mancéia e Paulo da Portela, além de
uma porção de sambas raros de sambistas pouco ou nada lembrados como Heitor dos
Prazeres, Marçal,Bide,Zé da Zilda,Lonato,Manoel
Ferreira,Roberto Martins,Zé Cachacinha,Antônio Caetano,Alvarenga,Marcelino
Ramos,Aniceto,Alvaiade, que até antes desse disco, existiam apenas em
discos desconhecidíssimos e em registro de 78rpm. Se trazer ao público, sambas
lindos,inéditos,que estavam sujeitos a cair no esquecimento, outra leva de
sambas que o povo não tem conhecimento porque nunca houve interesse em que
fosse propagado, é mesmice, então, sinceramente, eu não sei qual é o papel do
artista musical nesse país.
Se pra vocês o novo é reconhecer a importância histórica do FDQ, é achar que o
que Jorge Aragão faz é um olho no futuro e deve ser seguido, esquecendo que
antes deles, existiram uma centena de compositores que morreram sem ter a obra
conhecida, sem serem percebidos dentro do seu próprio meio, se isso é a
tendência, desculpem, mas a visão de vocês é pequena. Isso minimiza a
importância do samba quanto gênero rico e atual que sempre foi. Do contrário do
que vocês pensam, o samba não foi mudado no cacique de ramos. Ali, ele não
sofreu alteração nenhuma. Ali, nasceu uma outra vertente que foi massificada.
Mas em outros redutos, outros sambas, padeirinho, nelson, aniceto, na
portelinha, na serrinha e em vários lugares continuava sendo feito. No mesmo
ano em que o FDQ lançou seu primeiro disco, o Monarco lançava o antológico
Terreiro, pela Eldorado e na década de 80, Clementina, Clara, Aniceto do
Império,Velha Guarda da Portela, Cristina, Paulo Cesar Pinheiro, Paulinho da
Viola e
tantos outros, continuavam gravando e produzindo coisas novas que não tinha
ligação nenhuma com o que era feito no cacique como o "novo samba". Resumir o
samba ao que era feito no bloco de Ramos, é ignorância, é ridículo, é pequeno,
é burrice, é falta de visão histórica, é muita falta de argumento.
O que esse caras do Terreiro juntamente com a Cristina fizeram, foi registrar
sambas que eles, no seu cotidiano cantam. Sambas que eles ouvem em casa, cantam
nos bares, nas festas, batizados, enterros, dormindo, etc...São sambas que
fazem parte da vida desses caras, muitos anos antes de se pensar em ter disco.
Eugênio, de nada sabe. Como ele disse, jamais veio à Sampa, portanto, não
conhece o pessoal, tão pouco o trabalho que era realizado por eles no extinto
Morro das Pedras.Um trabalho que não tem ligação nenhuma com o que é feito hoje
em dia. Melhor ou pior? Eu tenho a minha opinião, mas é questão não é essa. A
questão é que, gostem vocês ou não, é um alternativa. Hoje, o samba é resumido
a um único estilo.
O trabalho do Zeca, "Gafieira",repleto de sucessos do cantor, como "Quintal do
Céu", por exemplo, estilos que nada tem haver com a proposta que ele quis
vender, que era um estilo de música de gafieria, ser reconhecido como "novo" é
de doer.
Sinceramente, o que é de doer mesmo, é ver que tá cheio de gente alheia,
ditando o que é pra ser, falando dos outros sem conhecer e cheio de
propriedade. O samba precisa de gente que o faça e que o respeite, não de
palpiteiro com complexo de rei. Mas esses, nem o samba, tão pouco a história,
irão perdoar. Aliás, jamais perdoaram.
O samba continua aí, sendo feito por quem o respeita e conhece. Já os pagadores
de sugesta...
Abraços.
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