Muito franca:
Sempre detestei a Maria Rita. Achava que ela imitava sim a mãe (isso me 
aborrecia muito) e nunca achei que deslanchasse, que sustentasse todo o 
marketing que tentava promovê-la.
Aí fui ouvir Samba Meu. E gostei muito. Daí encontrei essa entrevista dela no 
Estadão da semana passada, por ocasião do lançamento do disco. Lúcida, muito 
lúcida. E gostei do disco ainda mais.
Que venha a cruz!P.S. O destaques << >> são meus!
Maria Rita dedica novo álbum ao samba
Produção dela mesma e de Leandro Sapucahy, o disco deixa claro que cantora caiu 
com gosto no samba

    Patrícia Villalba, do Estadão




RIO - Maria Rita diz que sempre canta seu momento. E o que já foi
introspecção é hoje expansão, leveza, música marcada no prato e faca.
Influenciada por amizades queridas, ela freqüentou as mesas dos bambas,
foi ouvir Fundo de Quintal, Beth Carvalho, ler os livros de Nei Lopes,
e decidiu que seu terceiro disco não teria mais o ar dramático que a
levou a ser tachada de diva inalcançável. Quis gravar sambas, um
repertório particular que pode ser resumido pelo título do CD que chega
esta semana às lojas - Samba Meu.  

 
 O
samba de Maria Rita não flerta com a parafernália de estúdio ou com os
experimentos da eletrônica. É o samba elegante de Arlindo Cruz, bamba
dos bambas, que assina nada menos do que 6 das 14 faixas do disco. Sim,
ela se cercou dos melhores: o jovem Edu Krieger, que fez a marota Maria do 
Socorro, Serginho Meriti, da contagiante Casa de Noca, Ronaldo Barcellos e 
Picolé, de Corpitcho, uma piada atual com um jeito gostoso de antigamente, além 
de Gonzaguinha, de quem ela grava O Homem Falou, acompanhada da Velha-Guarda da 
Mangueira.
  
 Produção
dela mesma e de Leandro Sapucahy, o disco deixa claro que ela caiu com
gosto no samba, e que foi acolhida com amor. Mas isso não significa,
diz ela, que virou sambista de vez É o momento.
  
 Estado - A gente ouve o disco e percebe que você foi fisgada pelo samba. Como 
isso aconteceu?
  
 Maria Rita - É isso mesmo. Essa história na verdade não é novidade, desde o 
meu primeiro disco (Maria Rita,
2003) tenho um namorico com o samba. De uns dois, três anos para cá,
essa relação foi se diversificando. Primeiro, foi a Mangueira que me
chamou para o show deles; a Mart’nália, que também me chamou para tocar
na Lapa; depois, eu e o Leandro somos da mesma gravadora, ele me
apresentou o Arlindo Cruz. Foi uma coisa muito natural. <<É um disco que
não traz nenhuma pretensão minha de ser sambista, pelo contrário, tem
mais a ver com a relação do que o samba tem trazido pra mim, alegria. É
uma vontade de passar para frente essa alegria.>>
  
 Estado - Por que um disco só de sambas? Não dá um medinho de apostar num só 
ritmo?
  
 Maria Rita
- Não tenho esse medinho, não. Como venho de relações com pessoas do
samba, pessoas muito queridas, esse medo não existe. Como fui muito bem
recebida por tanta gente do samba me senti muito à vontade. É um disco
que encaro como um projeto especial. Poderia ser, sei lá, "Maria Rita
Interpreta Cartola", mas não foi. <<Juntei à galera mais contemporânea da
minha geração com o Leandro, que além de produtor é músico, cantor. A
gente se identifica um com o outro. É mais uma declaração de amor.>> E
também uma maneira de eu me divertir um pouco, senti que estava ficando
um pouco presa àquele universo das coisas que vinha fazendo. Rolou uma
coisa de "diva inalcançável", que não corresponde com o que eu sou. É
um momento onde estou me sentindo mais segura.
  
 Estado - São músicas bem leves, se comparadas ao que você cantava antes.
  
 Maria Rita
- Sim, por causa mesmo do momento que estou vivendo. Meu trabalho é
muito representativo dos meus momentos. O segundo disco, por exemplo, é
muito introspectivo, e eu estava mesmo muito introspectiva. E
atualmente, como falei, me sinto mais leve, mais segura, mais livre. E
acho que o samba tem muito isso, uma sensualidade que não está só na
dança, mas no tocar dos instrumentos, nas letras. No disco, tem algumas
músicas que falam sobre a sensualidade da mulher que há cinco anos eu
não conseguiria gravar.
  
 Estado - Para
o intérprete, qual é a senha para cantar samba? Eu pergunto isso porque
no começo do disco você pede licença para entrar. É preciso um quê
especial para cantar samba?
  
 Maria Rita
- <<Eu escolhi essa música para abrir o disco porque não tenho a
pretensão de ser sambista, mas só de expor um lado do que eu vivo, essa
música caiu bem nesse sentido.>> Mas como cantora, peguei num desafio
verdadeiro na gravação do disco. Os intervalos, a respiração, tudo foi
um desafio.
  
 Estado - Até de suavizar a voz, porque boa parte das músicas é bem-humorada.
  
 Maria Rita - Em algumas canções, sim. Eu carrego essa brincadeira na voz desde 
os outros discos. Pra Declarar Minha Saudade, por exemplo, eu sussurro, porque 
para mim ela é uma carta. Trajetória
é um pouco mais rasgada, mais sofrida. Meu desafio maior foi mesmo a
respiração, mas isso é muito técnico, muito chato para falar agora.
  
 Estado - O CD traz seis músicas de Arlindo Cruz. Foram feitas por encomenda? 
  
 Maria Rita
- Não, não telefono para compositor para encomendar música. Sou muito
tímida, muito envergonhada para fazer isso. São músicas que o Arlindo
me mandou. Eram sete, mas uma ele pegou de volta para o disco dele, que
vai sair agora, no fim do ano. Foi só uma identificação muito grande.
Ele é muito fera, muito gênio no que faz.
  
 Estado - E quando estava produzido o CD, escolhendo repertório, ouviu muito 
samba?
  
 Maria Rita
- Sim, todo o repertório do Fundo de Quintal, e dá-lhe Arlindo, dá-lhe
Paulinho da Viola, Chico Buarque, Dona Ivone. Meu iPod está cheião.
Comprei livros também, fui logo adquirindo os do Nei Lopes.
  
 Estado - O samba é um mundo à parte.
  
 Maria Rita
- Sim, é. É muito representativo da história do brasileiro, muito
interligado com a vida do negro no País, ao desenvolvimento da cultura.
É um elemento muito representativo da cultura brasileira, por isso acho
que é preciso ter tanto respeito pelo samba.
  
 Estado - Além de ser uma delícia de sambar, já aprendeu? 
  
 Maria Rita - Não vou ousar dizer que sei sambar, mas posso dizer que brinco.
  
  Estado
- Uma marca desse novo disco é o fato de que, ao contrário do que tem
acontecido com nomes da sua geração você não quis dar novas roupagens
ao samba, fez um disco de samba clássico. A parafernália de estúdio e a
música eletrônica não a seduzem?
  
 Maria Rita
- Isso realmente não me fascina quanto as brincadeiras em estúdio, no
primeiro disco tinha mais. Mas brincar com a sonoridade me interessa
muito. << Com relação ao clássico que você se referiu, eu quis fazer um
disco mais próximo do que eu sinto. Ainda assim, há elementos no disco
que são experimentos, não estão tão presentes no samba clássico, como
por exemplo o baixo acústico, que pode criar uma confusão de graves com
o surdo. O piano, baixo e bateria, que eu trouxe da base dos meus
trabalhos anteriores. Isso veio e, você tem razão, tem mais a ver com o
samba clássico. Mas também tem a ver com o tipo de som que venho
colocando na rua.>>
  
 Estado - A MPB tem
uma galeria de intérpretes que se notabilizaram por lançar
compositores. Clara Nunes foi assim, sua mãe, Maria Bethânia. O Marcelo
Camelo, por exemplo, apesar do trabalho com o Los Hermanos, foi
reconhecido como compositor mesmo depois que você gravou duas músicas
dele no seu primeiro CD. Você se preocupa em dar espaço a novos
compositores quando está montando repertório de um disco?
  
 Maria Rita
- Chego a pensar um pouco, sim. Não é uma condição, de que cada disco
meu tenha novos compositores. Não é uma bandeira, claro, que não posso
carregar essa responsabilidade toda. Mas poder agregar esse tipo de
coisa ao meu trabalho é algo que me deixa realizada. E sempre gostei
muito de sair na noite, de conhecer músicos novos. É um prazer mesmo,
não uma bandeira.
  
 Estado - É o seu
terceiro disco em quatro anos. Para usar uma expressão do mundo do
samba, isso é totalmente "deixa a vida me levar" ou é porque você é
workaholic mesmo?
  
 Maria Rita - Sou
mesmo workaholic, adoro trabalhar. Mas não há planejamento. O segundo
disco veio por necessidade mesmo. Porque a partir de um momento depois
do lançamento do meu primeiro disco, aquele repertório começou a me
pesar. Eu tinha perdido o Tom Capone (produtor, que morreu em 2004), me
separei, tive um monte de questões na vida pessoal, e aquelas músicas
estavam ligadas àquele peso. Eu senti com necessidade de passar para um
novo projeto. Não foi planejado, graças a Deus eu consegui fazer as
coisas até agora por necessidade criativa, e não por questões
mercadológicas. Agora, também. É um novo momento na minha vida. Eu
tinha combinado com a gravadora (Warner) de entrar em estúdio no fim
deste ano para só lançar em abril, mas eles me pediram para antecipar.
Eu falei "tudo bem, vamos lá", e acabou que todo mundo ficou feliz.



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